Por Liliana Maria (*)
O atendimento de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) evoluiu significativamente nas últimas décadas. Hoje, existem métodos e intervenções que contribuem de forma importante para o desenvolvimento da comunicação, da autonomia e das habilidades sociais, entre eles a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), amplamente utilizada e reconhecida pelos resultados positivos no acompanhamento de pessoas autistas. No entanto, a experiência clínica também evidencia uma necessidade cada vez mais urgente: olhar para a saúde mental desses pacientes de forma mais ampla e integrada.
Falar sobre saúde mental no autismo não significa desconsiderar a importância das intervenções comportamentais. Pelo contrário. Significa compreender que crianças e adolescentes autistas possuem demandas emocionais que merecem atenção tanto quanto o desenvolvimento de repertórios sociais e comportamentais. Ansiedade, depressão, baixa autoestima, sofrimento emocional e dificuldades na regulação das emoções aparecem com frequência na prática clínica e precisam ser acolhidos de maneira cuidadosa e responsável.
Muitas vezes, o foco das intervenções está no aprendizado de habilidades importantes para a adaptação social e para a independência funcional. Esse trabalho é essencial e promove avanços significativos. Entretanto, além das metas terapêuticas relacionadas ao comportamento, existe uma criança ou adolescente que sente, percebe e reage emocionalmente ao mundo ao seu redor. E esse mundo, nem sempre, é acolhedor com as diferenças.
Na vivência cotidiana, muitas pessoas autistas enfrentam situações de exclusão, dificuldades de pertencimento, frustrações sociais e sobrecarga sensorial. Algumas crianças desenvolvem níveis elevados de ansiedade diante de mudanças na rotina ou de ambientes muito estimulantes. Já adolescentes podem apresentar sofrimento relacionado à percepção das próprias dificuldades sociais, ao medo da rejeição e à sensação de inadequação. Em alguns casos, surgem sintomas depressivos silenciosos, que passam despercebidos justamente porque certos comportamentos são atribuídos apenas ao diagnóstico de TEA.
Nesse contexto, o olhar para a saúde mental torna-se complementar ao trabalho já realizado pelas abordagens terapêuticas. O desenvolvimento de habilidades sociais e comportamentais continua sendo importante, mas também é necessário fortalecer recursos emocionais, promover segurança afetiva e criar espaços de escuta e acolhimento. Uma criança que aprende a se comunicar melhor, mas permanece emocionalmente sobrecarregada, ainda enfrenta sofrimento que precisa ser compreendido.
A própria ABA, quando aplicada de maneira ética, individualizada e humanizada, permite essa ampliação de olhar. Atualmente, muitos profissionais já reconhecem a importância de considerar aspectos emocionais durante o planejamento terapêutico, respeitando limites, sensibilidades e necessidades subjetivas de cada paciente. O cuidado integral acontece justamente quando desenvolvimento e saúde emocional caminham juntos.
Outro aspecto fundamental envolve a participação da família e da escola. Ambientes acolhedores, previsíveis e emocionalmente seguros favorecem não apenas a aprendizagem, mas também a estabilidade emocional. Crianças e adolescentes autistas precisam sentir que são compreendidos, respeitados e aceitos em suas particularidades. Esse suporte reduz impactos emocionais negativos e fortalece o bem-estar psicológico.
Discutir saúde mental no autismo é ampliar possibilidades de cuidado. Não se trata de substituir métodos ou criar oposição entre abordagens, mas de reconhecer que o ser humano vai além do comportamento observável. Crianças e adolescentes autistas precisam desenvolver habilidades, sim, mas também precisam ser emocionalmente acolhidos. Quando há integração entre desenvolvimento comportamental e cuidado com a saúde mental, os resultados tendem a ser mais consistentes, humanos e duradouros.








