Home / Gerais / Vacinação indígena: equipes de saúde superam desafios na Amazônia

Vacinação indígena: equipes de saúde superam desafios na Amazônia

© Kislane de Araújo Dias/Arquivo Pessoal
© Kislane de Araújo Dias/Arquivo Pessoal

Levar saúde essencial a comunidades remotas na Amazônia é uma tarefa que transcende a logística convencional e exige uma profunda compreensão cultural. No coração do Brasil, equipes de saúde dedicam-se a uma missão vital: garantir a vacinação de povos indígenas, enfrentando rios turbulentos, florestas densas e a rica tapeçaria de tradições e línguas.

Essa jornada, que transforma o ato de vacinar em um verdadeiro ato de cuidado e respeito, é um testemunho da resiliência e do compromisso com a saúde pública em um dos cenários mais desafiadores do país. É um esforço contínuo para que a proteção chegue a cada aldeia, por mais isolada que esteja.

A complexidade do território e da diversidade cultural

O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus, uma unidade do Sistema Único de Saúde (SUS), abrange uma vasta área que se estende pelo Acre, Amazonas e Rondônia. Ali vivem cerca de 11 mil pessoas, pertencentes a sete etnias distintas: Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Kaxarari, Kaxinawá / Huni Kuin, Madiha / Kulina e Manchineri.

São 155 aldeias, com populações que variam de 30 a 300 pessoas, onde idiomas de três troncos linguísticos diferentes se entrelaçam com o português, ou servem como único meio de comunicação. A acessibilidade é um desafio constante: enquanto algumas aldeias podem ser alcançadas por caminhonetes ou barcos em dias de bom tempo, outras exigem quadriciclos, botes ou até helicópteros em condições climáticas adversas.

Além das barreiras geográficas, as peculiaridades culturais demandam uma abordagem sensível e descentralizada. Evangelista Apurinã, coordenador do DSEI, explica a necessidade de negociar com etnias como os Madijá e Kulina, que não aceitam imposições. “Você os segura em um lugar por, no máximo, umas 3, 4 horas. Depois disso, não segura mais”, afirma. Com os Jamamadi, que se organizam em 11 clãs, é crucial dialogar com o clã principal para evitar que os esforços voltem “à estaca zero”.

Logística da imunização em áreas remotas

Mesmo diante de tantos obstáculos, a figura do Zé Gotinha, símbolo da vacinação no Brasil, consegue chegar. Como é inviável manter unidades de saúde em todas as aldeias, cada região conta com um polo base. Desses pontos, os profissionais partem para atender as comunidades, em jornadas itinerantes que podem durar até 40 dias.

A localização remota das aldeias impõe não apenas desafios de percurso, mas também de armazenagem. Os frascos de vacina precisam ser mantidos constantemente refrigerados, entre 2º e 8º Celsius, para garantir sua eficácia. Freezers instalados em barcos, caixas térmicas e bobinas de gelo são os equipamentos essenciais que asseguram a manutenção dessa “cadeia de frio” vital.

Kislane de Araújo Dias, enfermeira e responsável técnica pela área de Imunizações e Doenças Imunopreveníveis do DSEI Alto Rio Purus, é quem planeja essas operações. O trabalho é meticulosamente baseado em um censo vacinal detalhado, uma planilha que registra os dados de todas as famílias e monitora quem precisa de qual vacina a cada incursão. “É assim que a gente sabe também quantas doses de cada vacina vamos usar em cada aldeia, para transferir só esse quantitativo exato do estoque para a caixa de movimento diário”, explica. As equipes geralmente escolhem um local central na aldeia, mas também realizam busca ativa, indo de casa em casa para atender os faltosos.

Além da agulha: a arte da comunicação e capacitação

As questões logísticas e culturais exigem um planejamento minucioso, como destaca a enfermeira Evelin Plácido, que atuou por anos em territórios indígenas e hoje capacita outros profissionais de saúde pela CapacitaImune. “Ao contrário do contexto urbano em que as pessoas vão até a imunização, nas áreas indígenas é a vacina que precisa ir até as pessoas”, pontua Evelin, ressaltando a importância de conhecer bem os equipamentos, a duração dos percursos e as rotas para não expor as vacinas a temperaturas inadequadas.

No início de maio, Evelin ministrou um curso em Rio Branco, capital do Acre, para profissionais que atendem populações indígenas e outras comunidades de difícil acesso. Além de repassar normas técnicas atualizadas sobre armazenamento, aplicação e descarte, a capacitação abordou bases imunológicas e efeitos adversos, permitindo que os profissionais expliquem à população que esses são aspectos normais de um processo que previne doenças muito mais graves.

Um dos pilares do treinamento é a comunicação eficaz. “Fui percebendo que, ao longo do tempo, que não adianta você ser um profissional excelente, ter o melhor equipamento, conhecer tudo das vacinas, entender sobre técnicas de aplicação, se você não souber se comunicar com as pessoas”, complementa Evelin, que também é Diretora da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Kislane, do DSEI Alto Rio Purus, reforça a importância dessa abordagem na saúde indígena: “Eu não posso simplesmente chegar lá e dizer: ‘É isso aqui e você vai ter que aceitar’. A gente orienta as equipes a fazer uma roda de conversa e explicar para a comunidade que é um imunobiológico que vai conferir proteção contra aquela doença que os povos indígenas estão suscetíveis.”

O curso é oferecido pela farmacêutica MSD, que fornece quatro vacinas ao Programa Nacional de Imunizações do SUS: HPV, Hepatite A, Varicela e Pneumo-23. Aline Okuma, gerente-médica de vacinas da empresa, explica que esta é a quarta capacitação voltada para profissionais que atuam na saúde indígena ou em áreas remotas. “A gente identifica muito que algumas práticas não são harmonizadas e acho que essa é a grande valia desse curso: harmonizar práticas, adaptando para o cenário local”, afirma.

A dedicação desses profissionais e o investimento em capacitação e logística refletem um compromisso inabalável com a saúde e a dignidade dos povos indígenas. Ao superar barreiras geográficas e culturais, eles não apenas entregam vacinas, mas também fortalecem laços de confiança e respeito, essenciais para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Essa iniciativa ressoa profundamente com os valores do SERTEP Notícias e do projeto MovTEA, que defendem o cuidado, a inclusão e o desenvolvimento humano, reconhecendo a importância de adaptar as políticas públicas para atender às necessidades específicas de cada comunidade, promovendo a qualidade de vida e a transformação social.

Para mais informações sobre a atuação de profissionais de saúde em áreas remotas, consulte a Agência Brasil.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

Tags

Compartilhe

Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp
Email
Print