Por Ezequiel Reis (*)
Vivemos uma geração cercada por estímulos. Sons, telas, vídeos rápidos, notificações, agendas cheias, excesso de informação e pouco silêncio passaram a fazer parte do cotidiano não apenas dos adultos, mas também das crianças.
Ao mesmo tempo, cresce a sensação de que as infâncias estão mais aceleradas, mais ansiosas, menos tolerantes e emocionalmente mais cansadas.
Mas talvez a pergunta mais importante não seja apenas sobre o que as crianças estão consumindo.
Talvez seja sobre o que elas estão deixando de viver.
Na prática clínica e escolar, é possível perceber que muitos comportamentos infantis não acontecem por acaso. Todo comportamento é aprendido, reforçado e moldado pelas relações e experiências vividas no cotidiano.
Por isso, antes de tentar “corrigir” uma criança, é preciso compreender aquilo que faz sentido para ela.
Recentemente, recebi um paciente cuja principal demanda, segundo a família, era fazê-lo permanecer sentado. A mãe relatou que ele havia passado meses em uma terapia com esse objetivo. No primeiro atendimento, em vez de exigir imediatamente o comportamento esperado, permiti que a criança explorasse o ambiente para identificar quais objetos despertavam seu interesse. Ao encontrar um brinquedo de encaixe, convidei-a a sentar para manipular o material. O resultado foi que ela permaneceu sentada por cerca de dez minutos até concluir a atividade.
A questão não era simplesmente “sentar”.
Era encontrar sentido na experiência.
Isso revela algo importante sobre o desenvolvimento infantil: o cérebro aprende melhor quando existe vínculo, interesse, participação e significado emocional naquilo que está sendo vivido.
O problema é que hoje muitas crianças vivem cercadas por entretenimento constante, mas com pouca presença humana real.
As telas, muitas vezes, acabam sendo utilizadas como estratégia para aliviar o cansaço da rotina adulta. E embora a tecnologia faça parte do nosso tempo e tenha seu valor, o uso sem mediação pode limitar experiências fundamentais da infância.
Não basta entregar um celular para uma criança.
É preciso acompanhar:
– o que ela vê;
– o que ela escuta;
– o que ela aprende;
– o que ela sente;
– e como ela se relaciona com aquilo.
Desenvolvimento não acontece apenas pelo excesso de estímulo.
Desenvolvimento acontece através da relação.
Existe um provérbio africano que diz: “É preciso uma aldeia para educar uma criança.”
Talvez nunca essa frase tenha feito tanto sentido.
Crianças precisam de convivência, escuta, movimento, pausa, brincadeira, presença e tempo de qualidade. Precisam experimentar o mundo real, criar brincadeiras, lidar com pequenos desafios, desenvolver imaginação e construir relações afetivas seguras.
Quando isso não acontece, o corpo começa a revelar sinais importantes.
O excesso de estímulos e a falta de equilíbrio podem impactar diretamente o sono, a atenção, o comportamento, a alimentação, a organização emocional e até a forma como a criança se relaciona socialmente.
Nosso organismo funciona em ciclos. O corpo humano precisa de equilíbrio, rotina saudável e respeito ao próprio ritmo biológico. Quando tudo funciona em excesso, inclusive os estímulos, o corpo responde.
E talvez um dos maiores problemas do nosso tempo seja justamente a falta de pausa.
Existe uma diferença importante entre uma infância viva e uma infância hiperestimulada.
A criança precisa também experimentar o tédio.
É no silêncio, na imaginação e nas brincadeiras espontâneas que muitas habilidades emocionais, criativas e sociais começam a surgir. Quando a criança está constantemente entretida, ela perde espaço para criar, imaginar, elaborar emoções e desenvolver autonomia.
Ao mesmo tempo, é impossível falar sobre infância sem olhar para os adultos.
Muitos pais e responsáveis estão cansados, sobrecarregados e emocionalmente exaustos. E isso inevitavelmente atravessa as relações familiares.
Por isso, talvez o caminho não seja buscar mais estímulos para as crianças.
Talvez seja reorganizar a vida adulta para oferecer algo que hoje parece cada vez mais raro: presença.
Presença para escutar.
Presença para brincar.
Presença para orientar.
Presença para conviver.
Porque talvez o que esteja faltando na infância de hoje não seja mais estímulo… mas, tempo de qualidade e relações humanas verdadeiras.








