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Brasileiros subestimam prevenção do câncer, revela estudo inédito

Brasileiros subestimam prevenção do câncer, revela estudo inédito - Imagem IA
© Paulo Pinto/Agência Brasil

Um dado alarmante emerge de um estudo recente: um em cada quatro brasileiros ainda desconhece que o câncer é uma doença passível de prevenção. A revelação faz parte do relatório “Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer”, divulgado nesta quarta-feira, 3 de junho, e acende um alerta sobre a necessidade de intensificar as campanhas de saúde pública no país. A pesquisa, de abrangência nacional, é a primeira a investigar profundamente o conhecimento e a relação dos brasileiros com os fatores de risco oncológicos.

O cenário é ainda mais preocupante diante das projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca), que estima 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026/2028. Este volume representa um aumento de 10,9% em relação ao período anterior, impulsionado principalmente pelo envelhecimento populacional e pela persistência de hábitos de vida pouco saudáveis. A compreensão da população sobre a prevenção é, portanto, um pilar fundamental para reverter essa tendência.

O Cenário da Prevenção no Brasil

Realizado pelas organizações Umane e Vital Strategies, com o apoio do Instituto Devive e a parceria técnica do Inca, o estudo entrevistou 6,5 mil pessoas em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. O objetivo foi mapear como a sociedade percebe e se relaciona com os principais fatores de risco para o câncer, incluindo tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas, alimentos ultraprocessados e o sedentarismo. A pesquisa oferece um panorama detalhado das lacunas de conhecimento que precisam ser preenchidas para uma abordagem mais eficaz da saúde pública.

Apesar de uma melhora na percepção geral em comparação a estudos internacionais, conforme avalia Luciana Grucci Moreira, Chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, ainda há um longo caminho a percorrer. O reconhecimento do fumo como fator de risco, por exemplo, é bastante elevado, com 90,5% dos adultos brasileiros cientes da relação entre cigarro e câncer. Outros fatores com alta percepção incluem a herança genética (89,4%) e a exposição solar excessiva (88,3%).

Lacunas na Percepção de Riscos

Contudo, a mesma clareza não se aplica a outros elementos cruciais para a prevenção do câncer. O sedentarismo, por exemplo, figura entre as últimas posições na lista de fatores de risco percebidos, com menos da metade dos brasileiros (48,3%) associando a falta de atividade física ao desenvolvimento da doença. Essa baixa percepção é um desafio significativo, considerando o impacto do estilo de vida na saúde oncológica.

Outros fatores com percepção abaixo do ideal incluem o consumo de bebidas alcoólicas, reconhecido como risco por 71,3%, e alimentos embutidos como presunto e salsicha (70,7%). Os ultraprocessados, como macarrão instantâneo, salgadinhos e sorvetes, são associados ao câncer por 65,6% da população. O sobrepeso e a obesidade são conhecidos como fatores de risco por apenas 54,1% dos entrevistados. Já o consumo de bebidas adoçadas (refrigerantes), a baixa ingestão de frutas e verduras e a carne vermelha apresentam índices ainda menores de reconhecimento, com 55,3%, 53,3% e 27,5%, respectivamente.

A especialista do Inca atribui a diferença nos graus de percepção à eficácia das políticas públicas e campanhas informativas. Ela cita o exemplo do combate ao tabagismo, que se beneficiou de advertências em embalagens, impostos elevados e restrições ao fumo em ambientes públicos. “Um conjunto de políticas públicas e muita campanha informativa, de comunicação, que já foram desenvolvidas acerca do tabaco”, compara Moreira, defendendo a replicação dessas estratégias para outros fatores de risco.

Um dado particularmente preocupante é o desconhecimento sobre o aleitamento materno como fator de proteção contra o câncer de mama. Quatro em cada dez entrevistados não sabiam dessa informação vital. “A mulher que amamenta tem uma proteção maior contra o câncer de mama quando comparada com aquela mulher que não tem oportunidade de amamentar”, explica a pesquisadora.

Hábitos e Desafios Geracionais

O relatório também aprofunda os hábitos da população e a intenção de modificar comportamentos de risco. Cerca de 45% dos brasileiros relataram consumir produtos ultraprocessados e ter tentado reduzir o consumo, enquanto 15% consomem e não têm intenção de mudança. Para refrigerantes e bebidas adoçadas, 53% tentaram reduzir, mas 15% não pretendem diminuir a ingestão. Em relação à carne vermelha, a proporção de indivíduos que consomem sem intenção de reduzir é maior, cerca de 45%. Em contraste, 86,3% da população afirmou consumir frutas, legumes e verduras, e 8,3% dos não consumidores manifestaram intenção de começar.

Um dos maiores desafios revelados pelo estudo reside nos jovens. O grupo de até 24 anos é o que mais consome alimentos associados a fatores de risco sem a intenção de reduzir. Esse comportamento foi observado em 32,3% para ultraprocessados, 24,4% para bebidas adoçadas, 29,5% para embutidos e 49,1% para carne vermelha. No que tange às bebidas alcoólicas, associadas a pelo menos oito tipos de câncer, 16,9% dos jovens até 24 anos declaram beber e não ter intenção de reduzir, índice significativamente maior que o de outras faixas etárias.

A Chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca reforça que a informação, por si só, não é o único determinante para escolhas saudáveis. Fatores como acesso ao alimento, renda, preço e marketing também influenciam. “A gente precisa avançar em outras políticas públicas também conjuntamente para promover não só essa percepção, como a melhora das escolhas mais saudáveis por parte da população”, defende Luciana Grucci Moreira. Ela enfatiza a necessidade de políticas que criem ambientes propícios à saúde, como ruas iluminadas e seguras para a prática de exercícios físicos, garantindo que as melhores escolhas sejam acessíveis a todos.

A pesquisa “Mais Dados Mais Saúde” sublinha a urgência de uma abordagem multifacetada para a prevenção do câncer no Brasil. Não basta apenas informar; é preciso criar condições para que a população possa adotar hábitos mais saudáveis. A conscientização sobre a capacidade de prevenir a doença, aliada a políticas públicas robustas que facilitem o acesso a uma alimentação equilibrada e à prática de atividades físicas, é o caminho para mitigar o avanço do câncer e construir um futuro com mais saúde para todos os brasileiros.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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