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O corpo também aprende na natureza

Crianças participam de caminhada ecológica como atividade de desenvolvimento psicomotor
Caminhada ecológica com crianças para proporcionar experiências que as façam se sentir pertencentes ao mundo – Foto: Arquivo

Por Ezequiel Reis (*)

Enquanto muitos enxergavam apenas folhas espalhadas pelo chão, pequenas mãos recolhiam possibilidades.

Na Semana do Meio Ambiente, nossa Equipe Psicomotricidade realizou uma caminhada ecológica com as crianças. Recolhemos resíduos, observamos árvores, tocamos folhas, sementes e galhos, sentimos o vento, caminhamos juntos e, posteriormente, utilizamos os elementos naturais em atividades de criação e colagem.

À primeira vista, talvez alguém pudesse dizer: “foi apenas uma atividade recreativa.”

Mas talvez exista algo muito maior acontecendo quando uma criança vive experiências reais através do corpo.

Quando falamos em psicomotricidade, estamos falando de uma ciência que ultrapassa cones, bambolês e circuitos motores. A psicomotricidade não trabalha apenas músculos e movimentos mecânicos. Ela atravessa emoções, relações, cognição, simbolização e construção de identidade ao longo de toda a vida.

Um olhar é psicomotor.

Um gesto é psicomotor.

Um abraço.

Um apontar.

Um caminhar em grupo.

Um silêncio compartilhado.

O corpo nunca participa sozinho.

Existe sempre uma relação entre emoção, mente e movimento.

Durante a caminhada, aquelas crianças não estavam apenas andando. Estavam convivendo. Observando. Explorando texturas, cores, temperaturas, sons e cheiros. Estavam organizando experiências sensoriais, desenvolvendo percepção espacial, ampliando repertório corporal e produzindo vínculo com o ambiente ao redor.

E talvez o mais importante: estavam produzindo sentido.

Ao criar figuras utilizando folhas, sementes e galhos, aquelas crianças não estavam apenas “fazendo desenhos”. Estavam organizando pensamento, expressando criatividade, desenvolvendo atenção, planejamento, coordenação fina e simbolização através da experiência vivida.

Existe uma filosofia africana chamada Ubuntu, que carrega uma frase extremamente profunda: “Sou porque nós somos.

Talvez essa frase também nos ajude a compreender nossa relação com o mundo.

Porque quando retiramos tudo ao nosso redor, as pessoas, os afetos, os sons da natureza, o toque, a convivência, o cheiro da terra molhada, o vento atravessando o corpo, o que sobra de nós?

Vivemos uma época em que muitas crianças conhecem mais o brilho das telas do que o movimento das árvores.

Mais sons digitais do que o som do vento.

Mais entretenimento rápido do que experiências reais.

E talvez por isso tantas infâncias estejam emocionalmente cansadas.

A natureza desacelera o corpo.

Ela reorganiza o ritmo interno.

Ela devolve presença.

Na prática psicomotora, isso possui um valor imenso. Porque o desenvolvimento humano não acontece apenas pela repetição de comandos. Ele acontece através de experiências carregadas de significado emocional.

Todos nós aprendemos melhor quando produzimos âncoras afetivas de aprendizagem.

Fazer algo apenas por fazer pode até passar pela memória imediata. Mas aquilo que atravessa emoção, vínculo e experiência concreta costuma permanecer.

Talvez seja exatamente por isso que algumas memórias da infância permanecem vivas por tantos anos:

o cheiro de uma árvore;

um caminho percorrido;

uma brincadeira ao ar livre;

a sensação da terra nas mãos;

o riso compartilhado em grupo.

O corpo guarda aquilo que fez sentido.

E talvez educar também seja isso: ajudar crianças a viverem experiências que as façam se sentir pertencentes ao mundo.

Porque antes de ensinar uma criança a cuidar da natureza, talvez seja necessário ajudá-la a perceber que ela também faz parte dela.

E quando o corpo entende pertencimento, o cuidado nasce quase naturalmente.

(*) Ezequiel Reis é educador, capoeirista e atua com práticas psicomotoras no acompanhamento de crianças e adolescentes, com foco em neurodiversidade, corpo e aprendizagem. Atualmente cursa Pedagogia, aprofundando sua atuação no desenvolvimento humano por meio do movimento e do vínculo

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