Por Ezequiel Reis (*)
Nas últimas semanas, um conteúdo nas redes sociais chamou atenção ao levantar uma reflexão curiosa: será que um simples álbum de figurinhas pode contribuir para o desenvolvimento infantil?
A pergunta parece exagerada à primeira vista. Afinal, estamos falando apenas de figurinhas, pacotes repetidos e crianças tentando completar páginas coloridas. Mas talvez exista algo muito mais profundo acontecendo ali.
Em meio às trocas, expectativas e frustrações, o cérebro infantil está sendo constantemente provocado a aprender.
E isso vale não apenas para crianças neurotípicas, mas também para muitas crianças neurodivergentes.
Vivemos uma geração em que adultos, muitas vezes movidos pelo amor e pelo desejo de proteger, tentam evitar ao máximo qualquer desconforto emocional da criança. Evita-se o “não”, a espera, a perda, a frustração e até pequenos desafios cotidianos.
Mas existe uma diferença importante entre acolher uma criança e impedir que ela viva experiências necessárias para amadurecer emocionalmente.
Na prática clínica e escolar, é comum perceber crianças extremamente intolerantes à frustração, com baixa autonomia emocional e dificuldade de lidar com regras simples de convivência. Em muitos casos, isso não acontece apenas por características do neurodesenvolvimento, mas também pelas relações construídas no ambiente familiar e social.
Todo comportamento é aprendido.
E desenvolver uma criança não significa eliminar todos os obstáculos do caminho, mas ajudá-la a aprender como atravessá-los.
O álbum de figurinhas se torna interessante justamente porque trabalha isso de forma natural.
Quando falta a figurinha desejada, a criança experimenta frustração. Quando recebe repetidas, precisa reorganizar expectativa. Quando negocia com colegas, desenvolve interação social. Quando espera abrir outro pacote, trabalha tolerância emocional e adiamento de recompensa.
Enquanto parece apenas brincadeira, funções importantes estão sendo estimuladas:
- flexibilidade cognitiva;
- organização;
- negociação;
- paciência;
- interação social;
- planejamento;
- espera;
- tomada de decisão;
- e regulação emocional.
Tudo isso dentro de uma experiência afetiva e significativa para a criança.
Isso não significa provocar sofrimento desnecessário ou ignorar crises reais. Especialmente no contexto do autismo, é fundamental compreender que existe diferença entre birra, sofrimento emocional e desregulação intensa. O acolhimento continua sendo essencial.
Mas acolher não significa eliminar toda possibilidade de desconforto.
Muitas vezes, mediar uma frustração é justamente ensinar a criança a lidar com emoções inevitáveis da vida.
Existe uma frase muito importante dentro da educação e do desenvolvimento humano: falar com amor e atuar com rigor.
Ou seja: o trato é com carinho, mas os limites continuam existindo.
Quando um adulto resolve tudo pela criança para evitar qualquer crise imediata, pode acabar produzindo dependência emocional, insegurança e dificuldade de adaptação social no futuro.
Isso aparece em situações simples do cotidiano:
- a criança desiste de um esporte diante das primeiras dificuldades;
- abandona atividades ao menor desconforto;
- ou aprende que sempre haverá alguém reorganizando o mundo para evitar qualquer frustração.
Mas a vida não funciona assim.
O desenvolvimento emocional saudável acontece justamente quando a criança aprende, aos poucos, que nem tudo virá no tempo desejado, da forma desejada ou como imaginava.
E talvez o mais importante seja lembrar:
- essa travessia não precisa acontecer na solidão.
O vínculo faz diferença.
Quando a criança atravessa pequenas frustrações com presença, mediação e apoio emocional seguro, ela desenvolve recursos internos importantes para a vida adulta.
No fim, o álbum talvez nunca tenha sido apenas sobre figurinhas.
Talvez ele seja sobre aprender a esperar, negociar, reorganizar emoções e conviver.
Porque amar uma criança também é ensinar limites.








