Por Patrícia Santos (*)
Vivemos uma geração hiperconectada, mas cognitivamente sobrecarregada. O uso excessivo de telas na infância não é apenas uma questão de hábito é uma questão de desenvolvimento cerebral. A tese é direta: quanto mais cedo e mais intenso o contato com telas, maior o risco de prejuízos nas funções cognitivas essenciais para a aprendizagem.
A neurociência já não trata isso como opinião. Estudos conduzidos por pesquisadores como *Michel Desmurget e *Manfred Spitzer mostram que o excesso de estímulos digitais afeta diretamente áreas como o córtex pré-frontal, responsável por atenção, controle inibitório e tomada de decisão. Em termos simples: a criança até aprende a mexer na tela, mas desaprende a sustentar foco, esperar e pensar.
Além disso, o uso prolongado interfere na linguagem. Crianças pequenas expostas a telas têm menor interação verbal com adultos, o que reduz o repertório linguístico. E aqui não tem milagre: linguagem se desenvolve na troca, no olho no olho, na conversa, não no toque da tela.
Outro ponto crítico é a dopamina.Jogos e vídeos curtos ativam o sistema de recompensa cerebral de forma intensa e rápida. O cérebro infantil, ainda em formação, passa a buscar esse tipo de estímulo constante. Resultado? Atividades simples como ler, escrever ou ouvir uma explicação tornam-se “sem graça”. Isso não é birra, é neuroadaptação.
A American Academy of Pediatrics recomenda limites claros: nada de telas antes dos 2 anos (com raras exceções) e uso controlado após essa idade. Ainda assim, o que vemos na prática é o contrário: telas sendo usadas como calmante, distração e até recompensa. Funciona no curto prazo, mas cobra um preço alto no longo.
Isso significa proibir telas? Não. Significa usar com intencionalidade. O problema não é a tecnologia, é o excesso, a falta de mediação e o uso como substituto de interação humana.
Famílias precisam entender que desenvolvimento não acontece sozinho. Ele depende de experiências reais: brincar, explorar, errar, tentar de novo. A tela entrega tudo pronto e o cérebro precisa justamente do contrário para se desenvolver.
A reflexão que fica é simples e incômoda: estamos facilitando a rotina ou comprometendo o futuro cognitivo das nossas crianças?
Porque, no fim das contas, educar dá trabalho. Mas não educar, cobra juros.
*Manfred Spitzer (Alemanha): neurocientista e psiquiatra, autor do livro “Demência Digital: Como destruímos a mente de nossos filhos” (2012).
*Michel Desmurget (França): diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, autor de “A Fábrica de Cretinos Digitais” (2020).








