A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), divulgou os resultados da terceira fase do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (Elsi-Brasil). Considerada uma das mais amplas investigações nacionais sobre o envelhecimento, a pesquisa oferece um panorama detalhado da população brasileira com 60 anos ou mais, abordando desde condições de vida e funcionalidade até o ambiente social e o acesso a políticas públicas.
Os dados, agora acessíveis em uma plataforma online com cerca de 100 indicadores, sublinham que a qualidade de vida na velhice transcende a ausência de doenças. Fatores urbanos, sociais e estruturais emergem como determinantes cruciais, expondo as complexidades de envelhecer em um país como o Brasil.
Infraestrutura Urbana e a Insegurança Diária
Um dos achados mais impactantes do Elsi-Brasil revela a fragilidade da infraestrutura urbana. Cerca de 42,7% dos idosos residentes em cidades expressam receio de quedas devido a calçadas e vias públicas em mau estado. Esse percentual salta para 50,5% entre as mulheres e atinge 63,1% para aqueles com 80 anos ou mais, evidenciando um problema estrutural que restringe a mobilidade, a autonomia e a participação social.
A coordenadora do estudo, pesquisadora Maria Fernanda Lima-Costa, enfatiza a urgência de políticas públicas que adaptem as cidades a uma população em constante envelhecimento. Isso inclui investimentos em acessibilidade, segurança viária e um planejamento urbano verdadeiramente inclusivo. Paralelamente, a insegurança urbana se manifesta de forma preocupante: 12,1% dos idosos brasileiros, o equivalente a aproximadamente 3,8 milhões de pessoas, consideram sua vizinhança muito insegura devido à violência e criminalidade. Essa percepção homogênea entre gêneros e faixas etárias aponta para um problema transversal que afeta a saúde mental e a circulação social.
Hipertensão: Um Alerta Silencioso na Saúde dos Idosos
A hipertensão arterial sistêmica permanece como uma das condições crônicas de maior relevância para a saúde dos idosos. O estudo, que incluiu aferição domiciliar da pressão arterial, identificou que 34,4% dos idosos apresentam níveis compatíveis com hipertensão, ou seja, pressão igual ou superior a 14 por 9. Esse número representa cerca de 11 milhões de brasileiros idosos que necessitam de acompanhamento clínico, diagnóstico e tratamento para prevenir complicações graves como infarto, AVC, insuficiência renal e demência vascular.
A prevalência da hipertensão cresce com a idade, passando de 31,9% entre 60 e 69 anos para 40,1% naqueles com 80 anos ou mais, sem diferenças significativas entre homens e mulheres. A natureza frequentemente assintomática da condição reforça a necessidade de rastreamento regular e o fortalecimento da atenção primária para evitar o subdiagnóstico e suas consequências.
Mobilidade Reduzida e a Crise do Apoio Familiar
A perda da capacidade funcional emerge como outro eixo central da pesquisa. Os resultados indicam que 20,4% dos idosos brasileiros enfrentam dificuldades para realizar ao menos uma atividade básica da vida diária, como se vestir, tomar banho ou se alimentar. Isso significa que cerca de 6,5 milhões de pessoas vivem com algum grau de limitação funcional, impactando não apenas sua autonomia, mas também suas famílias e os sistemas de saúde e assistência social.
A diferença de gênero é notável: 23,1% das mulheres apresentam limitação funcional, contra 17% dos homens. A progressão por idade é ainda mais acentuada, subindo de 13,9% entre 60 e 69 anos para 44,2% entre idosos com 80 anos ou mais, conforme detalhado por Maria Fernanda Lima-Costa. A rede de apoio também revela fragilidades: apenas 37,9% dos idosos com dificuldades recebem ajuda, e somente 5,8% dos cuidadores informais relataram ter recebido algum tipo de treinamento. Esse cenário aponta para a urgência de políticas integradas de cuidado de longa duração e qualificação dos cuidadores.
O SUS como Estrutura Essencial para o Envelhecimento Saudável
Os dados do Elsi-Brasil reafirmam o papel insubstituível do Sistema Único de Saúde (SUS) como principal base de cuidado para a população idosa. Cerca de dois terços das pessoas com 60 anos ou mais dependem exclusivamente do SUS. A Estratégia Saúde da Família (ESF), pilar da atenção primária, abrange 69,2% dos idosos brasileiros, alcançando aproximadamente 22,2 milhões de pessoas. A coordenadora do Elsi-Brasil destaca que o SUS e a ESF são estruturas essenciais para promover o envelhecimento saudável, especialmente em um país com profundas desigualdades sociais e econômicas.
O painel de indicadores sobre envelhecimento, lançado em conjunto com os resultados da pesquisa, oferece acesso público e ampliado a informações sobre múltiplas dimensões do envelhecimento no país. Alinhado à Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) da ONU, a ferramenta é um instrumento estratégico para pesquisadores, gestores e a sociedade civil monitorarem as condições de vida e as necessidades da população idosa, enfrentando os desafios impostos pelo envelhecimento populacional com rapidez e integração. O estudo Elsi-Brasil, com metodologia harmonizada internacionalmente, posiciona o país como referência na produção de conhecimento científico sobre o tema.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br








