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Acre enfrenta desinformação e baixas taxas na vacinação contra o HPV

Campanha de vacinação contra HPV enfrenta baixa adesão no Acre após desinformação
© Tomaz Silva/Agência Brasil

O Brasil ainda busca consolidar suas metas de vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV), um desafio que se mostra particularmente acentuado no Acre. Enquanto a média nacional de cobertura vacinal atingiu 86% entre meninas e 74,5% entre meninos no ano passado, o estado da região Norte registrou índices significativamente menores, com apenas 59% para meninas e 50% para meninos, os mais baixos do país.

Essa disparidade alarmante tem raízes em um incidente ocorrido em 2017, quando dezenas de adolescentes acreanos apresentaram sintomas como dores de cabeça, desmaios e convulsões após receberem o imunizante. Embora uma investigação exaustiva tenha comprovado que a vacina não foi a causa dos problemas, o episódio gerou uma onda de desinformação que impactou profundamente a confiança da população.

O Desafio da Cobertura Vacinal no Acre

O cenário atual de baixa adesão à vacina contra o HPV no Acre é um reflexo direto da repercussão do incidente de 2017. Renata Quiles, coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações no Acre, que acompanhou o caso de perto, recorda a rápida escalada de notificações.

“Até 2017, tínhamos 14 casos notificados de possíveis efeitos adversos, desde uma cefaleia até um desmaio, todos investigados em tempo oportuno. Saímos de 14 para 127 casos notificados em 6 meses por um comportamento da massa, estimulada pelo que se veiculava na imprensa e pelo medo natural da população”, explica Quiles. Uma força-tarefa foi montada para investigar os lotes das vacinas e examinar os adolescentes. Doze jovens com sintomas mais graves foram encaminhados à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) para uma bateria de exames avançados, incluindo videoencefalograma.

Desvendando o “Estresse Vacinal”: A Verdade por Trás dos Sintomas

Os especialistas da USP concluíram que, dos adolescentes examinados, dois irmãos tinham epilepsia de origem genética. O restante apresentava uma resposta física involuntária ao estresse, conhecida como crise psicogênica não epiléptica (CNEP). Isso significa que os sintomas não foram causados pela vacina em si, mas pelo estresse associado ao ato de vacinar, combinado a outros fatores pessoais e familiares.

Sociedades Brasileiras de Pediatria e de Imunizações, em nota conjunta, esclarecem que a CNEP é uma manifestação de reações de estresse vacinal documentadas globalmente desde 1992, relacionadas a diversos imunizantes. Elas reforçam que não há ligação biológica com os componentes das vacinas, e que, embora não seja simulação, a condição é real e pode se tornar crônica. Contudo, alertam: “Cada vez mais é descrita na literatura médica a influência negativa das redes sociais como meio de propagação de conteúdos, que agem como modelagem ou fatores de gatilho para o surgimento de novos casos. Estes canais também são o meio mais comum pelo qual o movimento antivacina influencia a população com informações falsas sobre as reações psicogênicas, atribuindo a elas caráter ‘sequelar’ causado pelo imunobiológico”.

O Poder da Desinformação e Suas Consequências

Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, afirma que o movimento antivacina explorou o episódio do Acre, disseminando o medo pelo país. Muitos pais já demonstravam resistência à vacina, equivocadamente associando-a à “sexualidade precoce” devido à principal via de transmissão do HPV. Essa combinação de fatores foi devastadora.

“A vacinação estava a todo o vapor, dando super certo e para usar um termo que os jovens usam, depois disso, a vacina de HPV ‘flopou’. Essas questões fizeram com que a vacinação na escola acabasse, e a gente sabe que a melhor estratégia para a vacinação de adolescente é na escola, porque o adolescente não vai ao serviço de saúde”, lamenta Mayra. No Acre, o impacto foi ainda mais severo, com menos de 10% dos adolescentes comparecendo aos postos de saúde para se vacinar em 2018 e 2019. Renata Quiles expressa frustração: “O caso teve muita repercussão, mas eu não tive a mesma abertura para trazer à luz o que foi concluído, mostrar o resultado da investigação da USP que confirmou que nada estava relacionado com a vacina”.

Segurança Comprovada: A Ciência por Trás da Vacina HPV

Renata Quiles e Mayra Moura enfatizam que eventos adversos são ocorrências comuns e esperadas para qualquer medicamento, incluindo vacinas. A decisão de disponibilizar esses produtos à população baseia-se na avaliação da gravidade dos episódios e na certeza de que os benefícios superam os riscos. Essa análise é rigorosa desde a fase de testes e continua sendo monitorada após a introdução em larga escala.

Para a vacina contra o HPV, essa equação é inquestionável, segundo Aline Okuma, gerente médica de vacinas da farmacêutica MSD, que produz o imunizante oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em parceria com o Instituto Butantan. “A taxa de evento adverso é baixa e a efetividade é extremamente alta, de 90% ou mais. E a gente já tem estudos em alguns países mostrando que a incidência do câncer por HPV tem caído depois da introdução da vacina. A gente vê o sucesso”, afirma Okuma. Ela complementa que são 20 anos de estudos e acompanhamento da vacina, monitorando riscos e benefícios. “O câncer por HPV é uma doença que pode aparecer de uma forma muito silenciosa, você pode não detectar. A prevenção é essencial.”

O Brasil possui um robusto sistema de farmacovigilância, que acompanha todos os Eventos Supostamente Atribuíveis à Vacinação ou Imunização (Esavis) notificados pelos serviços de saúde. Este sistema é fundamental para garantir a segurança contínua das campanhas de imunização e combater a desinformação. A Agência Brasil, por exemplo, tem acompanhado de perto a situação da vacinação no país.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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