O daraxonrasib, novo medicamento estudado para câncer de pâncreas, foi destaque na ASCO 2026 após apresentar aumento expressivo na sobrevida dos pacientes.
O congresso anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), considerado o principal evento mundial da oncologia, foi palco de um dos anúncios mais comentados da edição de 2026. Durante a apresentação dos resultados da fase 3 do estudo RASolute 302, pesquisadores divulgaram dados que podem alterar o tratamento de uma das formas mais agressivas e letais de câncer: o câncer de pâncreas metastático.
O destaque foi o daraxonrasib, um medicamento oral desenvolvido para atuar em alterações específicas associadas ao crescimento tumoral. Segundo os resultados apresentados, pacientes tratados com a nova terapia alcançaram uma sobrevida mediana de 13,2 meses, enquanto aqueles que receberam apenas quimioterapia convencional viveram, em média, 6,6 meses.
Os números chamaram a atenção de especialistas de diferentes países por representarem um ganho clínico expressivo em uma área da oncologia que historicamente registra avanços mais lentos do que outros tipos de câncer.
Os resultados que surpreenderam especialistas
O estudo RASolute 302 acompanhou 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático e mutações relacionadas à proteína RAS.
Os participantes foram divididos em dois grupos. Um recebeu o daraxonrasib e o outro foi tratado com quimioterapia convencional. A distribuição ocorreu por meio de critérios científicos rigorosos, reduzindo a influência de fatores externos sobre os resultados.
Além da duplicação da sobrevida mediana, os pesquisadores observaram redução de aproximadamente 60% no risco de morte. O tempo até a progressão da doença também aumentou significativamente, passando de 3,5 meses para 7,3 meses.
Outro dado considerado relevante foi a resposta tumoral. Cerca de 31% dos pacientes tratados com o novo medicamento apresentaram redução mensurável dos tumores, contra 11,2% daqueles que receberam o tratamento tradicional.
Entre os especialistas presentes na sessão, a percepção predominante foi de que os resultados representam um dos avanços mais consistentes já observados para pacientes com câncer de pâncreas avançado.
Por que o câncer de pâncreas continua sendo um desafio?
O câncer de pâncreas está entre as doenças oncológicas mais difíceis de diagnosticar precocemente. Em grande parte dos casos, os sintomas surgem apenas quando a doença já se encontra em estágio avançado.
Estima-se que cerca de 80% dos pacientes recebam o diagnóstico quando o tumor já se espalhou para outros órgãos ou apresenta poucas possibilidades de tratamento curativo.
No Brasil, aproximadamente 12 mil pessoas morrem em decorrência da doença todos os anos. Nos Estados Unidos, o câncer de pâncreas figura entre as principais causas de morte por câncer.
A taxa de sobrevida em cinco anos para pacientes com formas metastáticas permanece entre as mais baixas da oncologia, o que torna qualquer avanço terapêutico especialmente relevante para médicos, pesquisadores e pacientes.
O alvo de uma busca científica de décadas
Grande parte dos casos de câncer de pâncreas está associada a alterações na proteína RAS, responsável por regular mecanismos de crescimento celular.
Quando sofre mutações, essa proteína pode favorecer a multiplicação descontrolada de células tumorais. Durante muitos anos, pesquisadores consideraram extremamente difícil desenvolver medicamentos capazes de bloquear esse mecanismo de forma eficaz.
O daraxonrasib foi desenvolvido justamente para atuar nesse alvo biológico. O resultado apresentado na ASCO reforça a percepção de que a medicina de precisão está ampliando as possibilidades terapêuticas para doenças que, até pouco tempo atrás, possuíam opções limitadas de tratamento.
Benefícios além da sobrevida
Os pesquisadores também observaram uma taxa menor de interrupção do tratamento por efeitos adversos.
Apenas 1,2% dos pacientes que utilizaram o daraxonrasib precisaram abandonar a terapia devido a efeitos colaterais. No grupo tratado com quimioterapia convencional, esse índice chegou a 11,2%.
Além do potencial ganho em sobrevida, a melhor tolerabilidade pode representar impacto positivo na qualidade de vida dos pacientes durante o tratamento.
O que acontece agora?
Com os resultados da fase 3 concluídos, a Revolution Medicines, empresa responsável pelo desenvolvimento do medicamento, pretende avançar com os processos regulatórios necessários para obtenção de aprovação junto às autoridades sanitárias.
Nos Estados Unidos, o daraxonrasib já recebeu a designação de Breakthrough Therapy, concedida a tratamentos considerados promissores para doenças graves e com potencial de oferecer benefícios relevantes em relação às terapias existentes.
No Brasil, a eventual disponibilização dependerá da análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de etapas posteriores relacionadas ao acesso pelo sistema de saúde.
Um avanço que pode mudar perspectivas
Embora ainda dependa de aprovação regulatória, o daraxonrasib surge como um dos resultados mais promissores apresentados na oncologia nos últimos anos.
Para pacientes que convivem com um diagnóstico historicamente associado a poucas opções terapêuticas, a possibilidade de ampliar a sobrevida e retardar a progressão da doença representa uma mudança relevante de perspectiva.
Mais do que um resultado estatístico, o estudo reforça o impacto da pesquisa científica na construção de tratamentos cada vez mais direcionados, eficazes e capazes de responder a desafios que durante décadas pareceram difíceis de superar.








