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Seletividade alimentar no autismo vai além de “frescura” e exige estratégias específicas

Criança com autismo participa de refeição acompanhada por familiares durante processo de ampliação alimentar.
Alterações sensoriais tornam refeições desafiadoras para crianças com TEA – Foto: Pixabay

Uma simples mudança no prato — como alimentos encostados, variações de temperatura ou cheiro mais acentuado — pode transformar a hora da refeição em um momento de desconforto para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Longe de ser uma “frescura”, a seletividade alimentar está relacionada a questões sensoriais e neurológicas, sendo um desafio recorrente na rotina de muitas famílias.

A empresária Wânia Compan vivenciou essa realidade com o filho Lucas, de 12 anos, diagnosticado com autismo nível 2 de suporte. Segundo ela, o comportamento alimentar restrito demorou a ser compreendido como um sinal de alerta. “No começo, achei que fosse uma fase comum da infância, mas o tempo passou e o repertório alimentar não evoluía”, relata.

Durante a infância, Lucas aceitava apenas um número muito limitado de alimentos, o que chamou a atenção da família. A percepção de que a recusa persistente não era apenas uma preferência levou à busca por orientação especializada. Hoje, a estratégia adotada em casa prioriza o respeito ao tempo da criança, reduzindo a pressão durante as refeições e incentivando o contato gradual com os alimentos.

De acordo com o neuropediatra Warllon Barcellos, a seletividade alimentar é mais frequente em crianças com TEA justamente por fazer parte do perfil sensorial do transtorno. Ele explica que fatores como textura, cheiro, temperatura e até a aparência dos alimentos podem ser interpretados pelo cérebro como estímulos aversivos.

“A recusa não é voluntária. Trata-se de uma resposta neurobiológica. O cérebro dessas crianças processa os estímulos de forma diferente, o que pode transformar a alimentação em uma experiência negativa”, afirma.

Embora alguma resistência alimentar seja comum na infância — especialmente entre 18 e 24 meses —, o especialista destaca que a persistência e a rigidez são sinais de atenção, sobretudo quando há impacto no crescimento, na rotina escolar ou na convivência social.

A nutricionista Karol Loren reforça que a seletividade pode trazer consequências à saúde, principalmente quando há exclusão de grupos alimentares importantes. Segundo ela, dietas muito restritas podem levar a quadros como anemia, constipação e até obesidade, dependendo das preferências da criança.

“Quando a alimentação passa a ser motivo de estresse constante ou se limita a poucos itens, é fundamental procurar acompanhamento profissional”, orienta.

Além das abordagens médicas e nutricionais, estratégias práticas podem ajudar na aceitação dos alimentos. O chef Joca Mesquita, que atua com alimentação infantil, destaca a importância de trabalhar sabor, textura e apresentação para despertar o interesse das crianças.

Entre as alternativas, estão o uso de preparações mais aromáticas e naturais, além da repetição de um mesmo alimento em diferentes formas de preparo, favorecendo a familiaridade. Outra recomendação é incluir a criança no processo de preparo das refeições, estimulando o vínculo com os alimentos.

Especialistas também indicam evitar a imposição e a pressão durante as refeições. Permitir que a criança observe, toque ou cheire o alimento antes de experimentar pode ser um passo importante para ampliar gradualmente o repertório alimentar.

O consenso entre profissionais é de que compreender a seletividade alimentar no contexto do autismo é essencial para garantir não apenas a nutrição adequada, mas também o bem-estar emocional da criança e da família.

*Com informações O Globo

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