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Criança que não aprende ou cérebro que não foi ensinado a aprender?

Patrícia Santos é neuropsicopedagoga clínica com especialização em Psicopedagogia e Neuropsicopedagogia – Foto: Arquivo

Por Patrícia Santos (*)

Quando uma criança apresenta dificuldades escolares, a primeira reação costuma ser rotular: “preguiçosa”, “desatenta”, “não quer nada”. Mas a neurociência traz uma provocação necessária: e se o problema não for falta de vontade, mas falta de mediação adequada para o cérebro aprender?

Aprender não é automático. O cérebro precisa ser ensinado a aprender. E isso envolve funções cognitivas específicas como atenção, memória de trabalho, linguagem e funções executivas. Quando essas habilidades não são estimuladas corretamente, o aprendizado não se sustenta.

Pesquisadores como *Stanislas Dehaene demonstram que a leitura, por exemplo, não é uma habilidade natural — ela exige reorganização neural. Ou seja: ninguém nasce sabendo ler. O cérebro precisa ser treinado, exposto e estimulado de forma estruturada.

O mesmo vale para matemática, escrita e compreensão. Quando esse processo não respeita o ritmo da criança ou ignora suas necessidades específicas, surgem as dificuldades. E aqui entra um erro comum: insistir na repetição sem estratégia. Repetir não garante aprender, aprender exige conexão, significado e método.

Outro ponto importante é o papel do ambiente. Crianças inseridas em contextos com baixa estimulação cognitiva, excesso de telas ou pouca interação tendem a apresentar mais dificuldades. Não porque “não conseguem”, mas porque não tiveram oportunidades suficientes de desenvolver as bases necessárias.

Além disso, condições como Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade e Transtorno do Espectro Autista exigem intervenções específicas. Não adianta aplicar o mesmo modelo para todos. O cérebro neurodivergente aprende, mas aprende de forma diferente. E isso muda tudo na prática.

A boa notícia? O cérebro é plástico. Isso significa que ele pode se reorganizar a partir de estímulos adequados. Intervenções psicopedagógicas bem estruturadas conseguem desenvolver habilidades que antes pareciam limitadas.

Mas isso exige mudança de olhar. Em vez de perguntar “por que essa criança não aprende?”, a pergunta correta é: “o que ainda não foi ensinado da forma que esse cérebro precisa?”

Essa virada de chave tira o peso da criança e coloca a responsabilidade no processo. E isso não é sobre culpa, é sobre estratégia.

Porque quando o ensino muda, o cérebro responde.

*Stanislas Dehaene é um renomado neurocientista e matemático francês, considerado uma das maiores autoridades mundiais em neurociência cognitiva.
(*) Patrícia Santos é neuropsicopedagoga clínica, graduada em Pedagogia, com especialização em Psicopedagogia e Neuropsicopedagogia, além de formação em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Educação Especial e Inclusiva e Transtornos do Neurodesenvolvimento. Atua com foco em dificuldades de aprendizagem, especialmente leitura, escrita e matemática, além de estimulação cognitiva

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