Um amplo estudo internacional concluiu que não há evidências consistentes de que o uso de antidepressivos durante a gravidez esteja associado ao aumento do risco de autismo (TEA) ou transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em crianças. A pesquisa analisou dados de 37 estudos realizados em diferentes países, envolvendo mais de meio milhão de gestações acompanhadas.
O trabalho, conduzido por pesquisadores da Universidade de Hong Kong e publicado na revista científica The Lancet, também reforça que a interrupção abrupta do tratamento antidepressivo durante a gestação pode representar riscos importantes à saúde materna.
Revisão de estudos e correções metodológicas
A nova análise surge em meio a discussões científicas que, nos últimos anos, vinham sugerindo uma possível associação entre o uso de antidepressivos na gravidez e alterações no neurodesenvolvimento infantil. Em 2018 e 2020, revisões menores chegaram a indicar um aumento estatístico de risco para TEA e TDAH, o que gerou preocupação entre gestantes em tratamento para depressão.
Diante disso, os pesquisadores de Hong Kong revisaram um conjunto mais amplo de estudos e avaliaram a qualidade metodológica das pesquisas anteriores. Segundo eles, parte dos trabalhos apresentava limitações estatísticas e falhas na interpretação dos dados.
Ao reunir informações mais robustas e ajustar variáveis como histórico familiar, tipo e dose de medicamento e presença de transtornos mentais nos pais, os cientistas observaram que as associações previamente apontadas perderam relevância estatística.
Resultados ajustados mudam interpretação
De acordo com o estudo, análises sem ajustes chegaram a indicar aumento de até 69% no risco de autismo e 35% no risco de TDAH em crianças expostas a antidepressivos durante a gestação. No entanto, após o controle de fatores de confusão, esses números deixaram de ser significativos.
Os pesquisadores também observaram que, quando não se considera o histórico de saúde mental dos pais, até mesmo o uso de antidepressivos pelo pai aparece associado a maior risco de TDAH e autismo, o que reforça a hipótese de influência genética e de fatores familiares no desenvolvimento infantil, e não do medicamento em si.
O estudo inclui dados de mais de 600 mil gestantes em uso de antidepressivos e cerca de 25 milhões de mulheres sem uso da medicação.
Pesquisadores reforçam continuidade do tratamento
Para o autor principal, Wing-Chung Chang, os resultados oferecem um cenário mais tranquilizador para gestantes que necessitam de tratamento.
“Sabemos que muitos futuros pais se preocupam com o impacto potencial da medicação durante a gravidez; nosso estudo fornece evidências de que os antidepressivos comumente usados não aumentam o risco de distúrbios do neurodesenvolvimento”, afirmou.
Ele destaca, no entanto, que qualquer decisão sobre tratamento deve ser individualizada. “Para mulheres com depressão moderada a grave, médicos e pacientes devem avaliar cuidadosamente os riscos e benefícios da continuidade do tratamento”, completou.
O coautor Joe Kwun-Nam Chan reforça que a presença de transtornos mentais nos pais pode estar associada a um leve aumento de risco, independentemente do uso de medicamentos.
Impacto da saúde mental parental no desenvolvimento infantil
Especialistas também destacam a importância do cuidado com a saúde mental durante a gestação e no ambiente familiar. Para a pediatra e especialista em neurodesenvolvimento Anna Dominguez Bohn, a ciência tem reforçado cada vez mais o papel da genética e do ambiente no desenvolvimento infantil.
Segundo ela, interromper tratamentos necessários pode trazer consequências mais significativas do que a própria medicação. “O risco para a criança é muito mais elevado quando há negligência do tratamento de saúde mental dos pais”, afirmou.
A médica também ressalta que transtornos como depressão e ansiedade podem impactar a interação entre mãe e bebê, influenciando aspectos do desenvolvimento cognitivo e emocional.
O estudo conclui que o acompanhamento adequado da saúde mental dos pais é um fator relevante não apenas para o bem-estar familiar, mas também para o desenvolvimento neurológico das crianças.








