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O corpo como primeira linguagem

Criança participa de atividade psicomotora que estimula aprendizagem e desenvolvimento
O movimento pode ser uma sofisticada ferramenta de desenvolvimento (Foto: Arquivo)

Por Ezequiel Reis (*)

Durante muito tempo, muitas pessoas enxergaram o movimento apenas como gasto de energia. A criança corre porque “tem energia acumulada”. Brinca porque “precisa se distrair”. Se movimenta porque “é agitada”.

Mas talvez exista algo muito maior acontecendo no corpo antes mesmo que a linguagem consiga explicar.

Nos últimos meses, venho aprofundando algumas reflexões sobre desenvolvimento humano, psicomotricidade e aprendizagem. Em diferentes contextos clínicos, educativos e sociais, uma percepção tem se tornado cada vez mais evidente: muitas crianças conseguem responder corporalmente antes mesmo de conseguirem responder verbalmente.

E talvez seja exatamente aí que o corpo deixe de ser apenas movimento e passe a ser linguagem.

Recentemente, tive acesso a uma revisão científica internacional intitulada “Effects of Exergame-Based Interventions on Executive Functionsand Motor Skills in Children with Autism Spectrum Disorder”, que investigou os efeitos de jogos motores interativos — os chamados exergames — sobre funções executivas e habilidades motoras em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O artigo pode ser acessado em: TTPS: https://www.mdpi.com/2075-4663/14/5/174

O mais interessante do estudo não foi a tecnologia em si.

Na verdade, o ponto central da pesquisa parece confirmar algo que muitos profissionais da psicomotricidade observam há anos na prática: movimento e cognição não funcionam separados.

Toda ação corporal exige atenção, tomada de decisão, adaptação, planejamento e organização emocional.

Quando uma criança salta, espera sua vez, responde a um estímulo inesperado ou reorganiza seu corpo diante de um desafio motor, existe também um processo cognitivo acontecendo ali.

O corpo pensa.

O estudo observou melhora em aspectos extremamente importantes para crianças com TEA, como controle inibitório, flexibilidade cognitiva, coordenação motora e desenvolvimento motor global.

Traduzindo para a vida prática:

mais tolerância;

mais capacidade de espera;

melhor resposta emocional;

mais adaptação;

mais organização corporal;

mais interação funcional com o ambiente.

Isso ajuda a desconstruir uma ideia ainda muito presente de que atividades corporais servem apenas para “ocupar” ou “cansar” a criança.

O movimento pode ser uma sofisticada ferramenta de desenvolvimento executivo.

E talvez seja justamente por isso que algumas crianças:

aprendem melhor brincando;

se regulam emocionalmente durante o jogo;

conseguem se comunicar mais pelo corpo do que pela fala;

e demonstram avanços importantes em experiências corporais carregadas de vínculo, significado e ludicidade.

Na prática da psicomotricidade, isso aparece diariamente.

A criança que inicialmente não sustenta atenção, mas permanece engajada durante uma brincadeira corporal.

Aquela que não consegue organizar uma tarefa abstrata, mas responde com precisão a um desafio motor ritmado.

Ou ainda a que encontra no corpo uma forma mais segura de comunicação antes mesmo da linguagem verbal se estruturar.

Curiosamente, o próprio estudo também dialoga muito com experiências que vivemos em práticas como a capoeira.

A roda exige atenção compartilhada, controle inibitório, leitura do outro, organização espaço-temporal, adaptação constante, coordenação bilateral, ritmo e regulação emocional.

Tudo isso acontecendo simultaneamente no corpo.

Talvez por isso algumas crianças consigam se organizar tão profundamente em ambientes onde existe movimento com significado, afeto, musicalidade, pertencimento e interação humana real.

Mais do que validar práticas terapêuticas, estudos como esse ajudam a construir uma compreensão mais humana sobre desenvolvimento.

Nem toda aprendizagem começa na linguagem.

Às vezes, ela começa no olhar.

No ritmo.

Na brincadeira.

Na relação.

No gesto.

No corpo.

E talvez seja justamente por isso que o movimento continue sendo uma das formas mais profundas de desenvolvimento humano.

(*) Ezequiel Reis é educador, capoeirista e atua com práticas psicomotoras no acompanhamento de crianças e adolescentes, com foco em neurodiversidade, corpo e aprendizagem. Atualmente cursa Pedagogia, aprofundando sua atuação no desenvolvimento humano por meio do movimento e do vínculo

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