Com cerca de 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a gestão desse complexo quadro de saúde se torna uma questão urgente e de vital importância. Os dados, apresentados pelo Censo 2022 do IBGE, revelam não apenas a magnitude do problema, mas também o desafio que hospitais e operadoras de saúde enfrentam ao estruturar modelos de acompanhamento eficazes. Em um cenário onde a demanda por cuidados especializados cresce continuamente, inovações no manejo do TEA se tornam indispensáveis para garantir um atendimento de qualidade e inclusivo.
O olhar da especialista Mariana Gaspers, CEO e cofundadora da Level, uma empresa que utiliza infraestrutura baseada em dados para aprimorar a saúde, aponta uma tendência crescente no setor: a busca por maior visibilidade na jornada dos pacientes com TEA. Este movimento reflete uma necessidade fundamental de modernização nas práticas assistenciais, indo além das abordagens tradicionais, que muitas vezes carecem de coordenação e avaliação contínua.
Mariana destaca que o mercado global de healthcare analytics está em plena expansão, movimentando mais de US$ 55,5 bilhões, de acordo com a Marketsand Markets. Essa ascensão, impulsionada pela demanda de hospitais e operadoras por ferramentas que facilitem decisões clínicas, reforça a importância de integrar análises de dados na organização de cuidados para condições que exigem acompanhamento atento.
Análise de dados como instrumento de cuidado
A Level se destaca ao aplicar a inteligência analítica no acompanhamento de pacientes com TEA. A inovação, necessária e urgente, reside na capacidade de consolidar e utilizar informações apresentadas em laudos e prontuários para criar um fluxo assistencial mais coeso. Mariana explica que a verdadeira dificuldade no sistema de saúde atual não é apenas a gestão dos custos, mas sim a falta de uma estrutura organizada que permita monitorar esses pacientes ao longo do tempo.
“Sem uma leitura consolidada dos dados, acaba-se perdendo a chance de intervir precocemente, o que pode agravar a condição dos pacientes”, detalha Gaspers. A ausência de um mapeamento claro sobre quais pacientes precisam de suporte específico impacta diretamente a resposta do sistema de saúde, muitas vezes levando a intervenções tardias e complicações que poderiam ter sido evitadas.
Esse novo modelo de gestão visa não só aumentar a eficiência, mas também reduzir os custos associados a eventos que poderiam ser evitáveis. Através da análise cuidadosa dos dados, é possível estratificar os pacientes segundo suas necessidades, facilitando o encaminhamento adequado e o monitoramento regular do seu progresso. Assim, as equipes de saúde podem priorizar os casos que necessitam de atenção imediata, promovendo uma jornada assistencial mais estruturada.
Resultados promissores
As expectativas em torno dessas novas abordagens são otimistas. Gaspers apresenta dados que indicam que, em organizações de médio porte, a implementação de modelos estruturados para o acompanhamento de pacientes com TEA pode acarretar uma redução de até 30% nos custos relacionados a eventos assistenciais evitáveis. Além disso, a redução de demandas judiciais — que muitas vezes resultam da falta de acompanhamento adequado — pode gerar economias que variam entre R$ 5 milhões e R$ 7 milhões por ano.
Esses números revelam a importância da questão da sustentabilidade financeira dentro do sistema de saúde. Mariana enfatiza que a adoção de dados analíticos não somente melhora a eficácia clínica, mas também otimiza a utilização dos recursos disponíveis. “Quando organizamos o cuidado com base em informações precisas, temos não apenas melhores desfechos clínicos, mas também um uso mais consciente dos recursos financeiros do sistema”, adiciona ela.
A discussão em torno de modelos estruturados de gestão do TEA ganha força à medida que as instituições de saúde buscam um equilíbrio entre sustentabilidade, qualidade assistencial e previsibilidade operacional. Este novo paradigma não apenas valoriza o paciente, garantindo um acompanhamento mais contínuo e personalizado, mas também reafirma a responsabilidade das operadoras de saúde em oferecer um atendimento mais humano e eficaz.
Ao transformar dados dispersos em informações práticas que ajudem a guiar decisões, a abordagem da Level abre um caminho promissor. Contudo, Mariana conclui que o verdadeiro desafio reside em não apenas adotar novas tecnologias, mas em integrar efetivamente essas ferramentas dentro da gestão e coordenação do cuidado. O sucesso deste tipo de abordagem requer um comprometimento amplo, que envolva profissionais de diversas áreas e uma reformulação na forma como as informações são geridas.
Apesar dos obstáculos, a jornada rumo a um atendimento de qualidade para pessoas com TEA é fundamental. Ao melhorar a maneira como os dados são utilizados e aplicados, é possível não só atender melhor as necessidades dos pacientes, mas também construir um sistema de saúde mais justo e eficiente. A valorização da experiência e da visão estratégica dos profissionais de saúde emerge como um elemento central nesse processo de transformação, que tem tudo para resultar em benefícios não só para os indivíduos com TEA, mas para toda a sociedade.
Portanto, as novas estratégias na gestão do TEA não são apenas uma questão de números ou eficiência financeira. Elas representam um compromisso com a qualidade de vida e a dignidade dos pacientes. É uma reflexão profunda sobre como as práticas de saúde podem, e devem, evoluir para atender as demandas de uma população que, até pouco tempo, ficou à margem do cuidado adequado. O futuro demanda, acima de tudo, uma prática de saúde que respeite a pluralidade e a complexidade de cada paciente, oferecendo um suporte holístico e coordenado que realmente faça a diferença.








