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Vício em apostas: entenda o que acontece no cérebro durante a dependência

O que acontece no cérebro com o vício em apostas?
O que acontece no cérebro com o vício em apostas? Imagem: Vitaly Gariev/Pexels
🧠 Informação educativa
As informações deste conteúdo têm caráter educativo e não substituem avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissionais habilitados.

O vício em apostas não está ligado apenas à vontade de ganhar dinheiro. A expectativa pelo resultado, a possibilidade de uma recompensa inesperada e até um “quase acerto” podem ativar mecanismos cerebrais relacionados à motivação, ao aprendizado e à busca por recompensas.

O tema ganhou espaço no debate sobre saúde pública após a publicação, em 25 de setembro de 2026, de uma medida provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas e jogos online no Brasil. Pela regra, os sites e aplicativos devem sair do ar a partir de 6 de outubro.

Nesse contexto, entender como o cérebro reage às apostas ajuda a explicar por que algumas pessoas conseguem jogar ocasionalmente sem grandes consequências, enquanto outras continuam apostando mesmo depois de acumular perdas financeiras, conflitos familiares e outros prejuízos.

O que acontece no cérebro de quem tem vício em apostas?

O transtorno do jogo, também chamado de jogo patológico que leva ao vício em apostas, é uma condição relacionada a comportamentos aditivos. A pessoa pode perder o controle sobre as apostas e continuar jogando mesmo quando o comportamento já provoca problemas importantes. A classificação psiquiátrica inclui entre os sinais a dificuldade repetida para parar, a preocupação frequente com o jogo e a tentativa de recuperar dinheiro perdido fazendo novas apostas.

Pesquisas mostram que o cérebro não reage apenas quando a pessoa ganha. A expectativa pelo possível prêmio também pode ser importante no vício em apostas.

Um estudo publicado em 2026 na revista Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging comparou 26 pessoas com transtorno do jogo a 54 participantes sem o diagnóstico. Durante uma tarefa semelhante a uma máquina caça-níqueis, os pesquisadores registraram a atividade cerebral por meio de eletroencefalograma (EEG).

Os participantes com transtorno do jogo apresentaram respostas neurais mais intensas relacionadas à antecipação de uma possível recompensa. Dentro desse grupo, uma maior gravidade clínica geral também esteve associada a uma resposta mais intensa nessa etapa de expectativa. O estudo, porém, não permite usar o EEG como teste para diagnosticar uma pessoa individualmente.

Por que a expectativa de ganhar prende tanto?

Quando alguém faz uma aposta, o cérebro começa a avaliar a possibilidade de recompensa antes mesmo de saber o resultado. Regiões envolvidas na motivação e no processamento de recompensas participam desse processo.

Entre elas está o estriado ventral, que inclui o núcleo accumbens. Essa região participa da aprendizagem relacionada a recompensas e ajuda a direcionar comportamentos em busca de algo que o cérebro considera importante.

A dopamina também participa desse mecanismo. Ao contrário da ideia popular de que ela seria apenas uma “substância do prazer”, a dopamina está fortemente envolvida em motivação, aprendizado e formação de associações entre sinais e recompensas.

Por isso, a simples possibilidade de ganhar pode ser suficiente para aumentar a motivação para continuar apostando.

Vício em apostas envolve mais o “querer” do que o prazer

Uma diferença importante está entre gostar de uma recompensa e querer buscá-la novamente.

No vício em apostas, o impulso de jogar pode continuar mesmo quando a atividade deixa de trazer prazer ou passa a gerar sofrimento. A pessoa pode saber que está perdendo dinheiro, reconhecer os problemas causados pelas apostas e, ainda assim, sentir uma forte urgência para jogar novamente.

Essa dificuldade de interromper o comportamento está entre as características do transtorno do jogo.

Por que os ganhos imprevisíveis aumentam a expectativa?

As apostas trabalham com recompensas que não aparecem em todas as tentativas. Uma pessoa pode perder várias vezes e, de repente, conseguir um pequeno ganho.

Esse padrão é conhecido como reforço intermitente. Como o resultado não é previsível, cada nova rodada mantém a possibilidade de uma recompensa.

O cérebro também aprende com essas experiências. A dopamina participa do chamado erro de previsão de recompensa, mecanismo relacionado à diferença entre o que era esperado e o que realmente aconteceu. Recompensas inesperadas podem produzir sinais importantes para o aprendizado.

Isso ajuda a entender por que uma pequena vitória pode estimular novas apostas mesmo quando a pessoa já perdeu muito mais dinheiro do que ganhou.

O que é o “quase ganhar”?

O chamado quase acerto acontece quando o resultado fica muito próximo de uma vitória, mas, objetivamente, continua sendo uma perda.

Imagine uma aposta em que dois resultados aparecem corretamente e o terceiro fica por pouco fora do esperado. A pessoa não ganhou, mas pode sentir que esteve perto.

Pesquisas experimentais mostram que esses quase acertos podem aumentar a motivação para apostar novamente e envolver regiões cerebrais relacionadas ao processamento de recompensas. Estudos mais recentes também encontraram maior expectativa de apostar novamente após esse tipo de resultado.

Isso não significa que o cérebro esteja confundindo matematicamente uma perda com uma vitória. O que muda é a forma como aquele resultado pode ser processado emocional e motivacionalmente, gerando o vício em apostas.

Por que a pessoa tenta recuperar o dinheiro perdido?

Um dos sinais mais conhecidos do transtorno do jogo é a chamada perseguição das perdas. É quando a pessoa volta a apostar para tentar recuperar o dinheiro que perdeu.

O raciocínio pode parecer simples: “perdi, então preciso ganhar na próxima”. O problema é que uma nova perda pode levar a outra aposta, aumentando ainda mais o prejuízo.

Nesse processo, ansiedade, culpa, estresse e sensação de urgência podem dificultar a avaliação das consequências. A American Psychiatric Association considera a tentativa repetida de recuperar perdas uma das características que podem aparecer no transtorno do jogo.

Celular e apostas deixam o ciclo mais rápido

As plataformas digitais acrescentam outro fator: a velocidade.

No celular, a pessoa consegue apostar, acompanhar o resultado e começar uma nova rodada em poucos segundos. Esse intervalo curto facilita a repetição do comportamento e levar ao vício em apostas.

Notificações, bônus, partidas em tempo real, mudanças nas cotações, sons e animações também podem funcionar como estímulos associados às apostas. Com a repetição, até entrar no aplicativo ou acompanhar determinado evento pode se tornar um gatilho para o desejo de jogar.

A velocidade, portanto, não cria sozinha o transtorno, mas pode facilitar a repetição das apostas em quem já apresenta comportamento problemático.

Quantas pessoas desenvolvem problemas com o jogo?

A maioria das pessoas que aposta não desenvolve transtorno do jogo. Uma revisão sistemática e meta-análise internacional estimou que 46,2% dos adultos haviam participado de alguma forma de jogo no ano anterior. Entre os adultos, 8,7% apresentavam algum nível de jogo de risco e 1,41% tinham comportamento classificado como problemático. Entre usuários de cassinos online e caça-níqueis virtuais, a estimativa de jogo problemático chegou a 15,8%. Esses números são relativos aos grupos estudados e não significam que essa seja a proporção da população geral que apresenta transtorno.

No Brasil, dados oficiais mostram aumento dos atendimentos relacionados ao transtorno do jogo no SUS: foram 2.262 em 2023, 3.490 em 2024 e 1.951 apenas entre janeiro e junho de 2025.

Quando o vício em apostas vira um sinal de alerta?

O principal sinal não é simplesmente apostar, mas perder o controle sobre o comportamento, o que leva ao vício em apostas.

É importante buscar ajuda quando a pessoa tenta parar e não consegue, aumenta os valores apostados, esconde os gastos, pede dinheiro emprestado, deixa compromissos de lado ou continua tentando recuperar prejuízos com novas apostas.

O tratamento para vício em apostas pode envolver psicoterapia, acompanhamento de outros problemas de saúde mental e medidas para reduzir o acesso impulsivo ao dinheiro. A participação da família ou de pessoas de confiança também pode fazer parte do cuidado.

Com a discussão sobre o vício em apostas ganhando espaço na saúde pública, compreender os mecanismos envolvidos ajuda a diferenciar uma aposta ocasional de um comportamento que já está causando prejuízos e precisa de atenção profissional.

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Sobre o autor
Gabriele de Paula é redatora, revisora editorial e publicadora no WordPress do SERTEP Notícias, responsável pela revisão, padronização editorial e publicação dos conteúdos, garantindo qualidade, clareza e conformidade com os padrões do portal.

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