Por Ezequiel Reis (*)
Tenho acompanhado com preocupação a maneira como as divergências políticas têm atravessado nossas relações. Conversas entre amigos se transformam em confrontos, vínculos são rompidos e, em situações mais graves, a intolerância abre espaço para a violência.
A capoeira, como expressão da sociedade, também não está imune a essas tensões.
Recentemente, algumas conversas me fizeram revisitar experiências que a própria capoeira tem proporcionado ao longo da minha trajetória. Entre elas, uma reflexão aparentemente simples, mas que considero fundamental para os tempos atuais: é possível conviver com quem pensa diferente sem abrir mão dos nossos princípios?
A resposta talvez esteja mais próxima do que imaginamos. Está na própria roda.
A roda como espaço de encontro
A capoeira reúne pessoas com diferentes histórias, crenças, experiências e maneiras de compreender o mundo. Dentro da roda, essas diferenças não desaparecem. Entretanto, todos são convidados a participar de uma experiência que exige atenção, respeito e reconhecimento do outro.
O jogo não acontece sozinho.
É preciso observar, interpretar movimentos, perceber intenções, controlar impulsos e responder às situações que surgem. Há momentos de aproximação, esquiva, espera e decisão.
Esse processo envolve muito mais do que habilidades corporais. Há uma dimensão relacional, cognitiva e emocional que se manifesta continuamente.
Na minha experiência como capoeirista e educador, tenho compreendido a roda também como um espaço de aprendizagem sobre as relações humanas.
Ela não é, por natureza, um ambiente livre de conflitos. Ao contrário, pode revelar disputas de poder, dificuldades de convivência e comportamentos que precisam ser trabalhados.
É justamente aí que a condução dos mestres, mestras e educadores ganha importância. Ensinar capoeira não se resume à transmissão de movimentos e fundamentos técnicos. Envolve também cultivar valores, mediar conflitos e contribuir para a formação humana.
O silêncio também comunica
Em uma conversa recente, ouvi que o silêncio também é um posicionamento. Passei a refletir sobre isso.
Vivemos um período em que parece existir uma cobrança permanente por respostas, declarações e posicionamentos imediatos. Em muitas discussões, entretanto, a disposição para ouvir desaparece antes mesmo que o diálogo comece.
Aprendi que nem toda provocação precisa encontrar resposta.
Às vezes, permanecer em silêncio é uma escolha consciente para não alimentar uma discussão que já perdeu o respeito. Não significa ausência de argumentos, mas discernimento para reconhecer quando a conversa deixou de produzir compreensão.
Afinal, o diálogo exige participação de ambos. Quando não existe disposição para ouvir, corremos o risco de transformar a conversa em monólogo.
Na capoeira, o silêncio também pode se manifestar no olhar, na postura e no movimento. O corpo comunica antes mesmo que uma palavra seja pronunciada.
Mas há uma distinção indispensável: silenciar diante de uma provocação não é o mesmo que se omitir diante da violência, da discriminação ou da injustiça.
O respeito às diferenças não elimina a necessidade de estabelecer limites éticos.
A capoeira, a política e o bem comum
A relação entre capoeira e política não começou com as disputas eleitorais contemporâneas.
No século XIX, especialmente no Rio de Janeiro, organizações de capoeiras participaram de conflitos territoriais e mantiveram relações com diferentes forças políticas. Essa história revela uma manifestação cultural atravessada pelas contradições e disputas de seu tempo.
A capoeira também carrega uma trajetória de resistência à opressão, perseguição e luta por reconhecimento.
Em 2008, a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira foram reconhecidos como bens do patrimônio cultural brasileiro. Em 2014, a roda recebeu o reconhecimento internacional da UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Esse percurso não apaga conflitos históricos, mas nos convida a refletir sobre as responsabilidades que acompanham a preservação e a transmissão desse patrimônio.
Entendo que a capoeira possui uma dimensão política que não pode ser confundida exclusivamente com preferências partidárias. Quando discutimos acesso à cultura, educação, inclusão, reconhecimento de mestres e valorização dos saberes tradicionais, também estamos falando de políticas públicas.
Essa compreensão influencia minha atuação social.
Nos últimos anos, tenho optado pela discrição em relação aos meus apoios eleitorais. Não por ausência de convicções, mas porque considero importante preservar canais de diálogo com pessoas de diferentes orientações políticas.
Essa postura tem me permitido participar de conversas e iniciativas colocando no centro aquilo que considero essencial: as necessidades da população e a construção de oportunidades por meio da educação, da cultura, da inclusão e do desenvolvimento humano.
Não precisamos concordar sobre todos os caminhos para reconhecer problemas comuns.
Isso não significa aceitar qualquer proposta ou abrir mão de princípios. Significa compreender que o compromisso com o interesse público exige capacidade de diálogo, responsabilidade e disposição para construir coletivamente.
As eleições passam. As necessidades das comunidades permanecem.
O que levamos para além da roda?
Quando uma criança aprende a observar seu parceiro, respeitar os limites do jogo e reconhecer o momento de agir, existe ali uma possibilidade educativa que ultrapassa a execução dos movimentos.
O mesmo vale para os adultos.
A capoeira nos oferece oportunidades de experimentar diferenças, lidar com frustrações, exercitar o autocontrole e reconhecer a presença do outro. Mas essas aprendizagens não acontecem automaticamente. Dependem das relações estabelecidas, da intencionalidade educativa e dos exemplos oferecidos por quem conduz a prática.
Talvez seja essa uma das responsabilidades mais importantes de quem ensina: ajudar a transformar experiências em consciência.
Em tempos de polarização, precisamos recuperar a capacidade de discordar sem desumanizar, defender ideias sem transformar pessoas em inimigas e reconhecer que o diálogo não exige a renúncia às nossas convicções.
A capoeira não precisa oferecer respostas prontas para todos os problemas da sociedade. Sua contribuição também está nas perguntas que nos ajuda a formular.
Se conseguimos compartilhar uma roda com pessoas tão diferentes, por que tantas vezes encontramos dificuldades para compartilhar responsabilidades na construção do bem comum?
Talvez a resposta comece na maneira como escolhemos olhar, ouvir, dialogar e agir.
Porque, dentro ou fora da roda, nossas diferenças não precisam impedir aquilo que ainda podemos construir juntos.
Podemos discordar e continuar cuidando da mesma roda.
Referências para consulta
IPHAN. Roda de Capoeira e Ofício dos Mestres e Mestras da Capoeira. Registros como Patrimônio Cultural do Brasil (2008; revalidados em 2024). Disponível em: bcr.iphan.gov.br.
UNESCO. Capoeira circle. Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, 2014. Disponível em: ich.unesco.org/en/RL/capoeira-circle-00892.
SOARES, Carlos Eugênio Líbano. A negregada instituição: os capoeiras na Corte Imperial, 1850–1890. Rio de Janeiro: Access Editora, 1999.








