Novos tratamentos para esclerose múltipla e outras doenças neuroimunológicas apresentaram resultados positivos em estudos clínicos divulgados pela farmacêutica Roche. Entre os destaques, o medicamento Ocrevus ajudou a manter 90% das crianças e adolescentes participantes de um estudo sem surtos durante dois anos.
Os dados foram apresentados no congresso internacional MSToronto 2026, realizado entre 21 e 23 de outubro, no Canadá. Além do Ocrevus, os pesquisadores divulgaram resultados sobre o fenebrutinibe, ainda em fase experimental, e o Enspryng, estudado para outra doença inflamatória do sistema nervoso central.
Esclerose múltipla em crianças: resultados do Ocrevus
No estudo clínico de fase III OPERETTA, o Ocrevus (ocrelizumabe) foi avaliado em comparação com o fingolimode, medicamento utilizado no tratamento da esclerose múltipla. Entre os participantes de 10 a 17 anos com a forma recorrente-remitente da doença, 90% não tiveram surtos ao longo de dois anos de acompanhamento.
A esclerose múltipla é uma doença que afeta o sistema nervoso central e pode provocar episódios de inflamação, conhecidos como surtos. Na forma recorrente-remitente, esses episódios podem ser seguidos por períodos de melhora.
Segundo Ana Claudia Piccolo, vice-coordenadora do Departamento Científico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia, a atividade inflamatória da esclerose múltipla em crianças e adolescentes pode ser intensa, em alguns casos superior à observada em adultos.
Em julho de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou a ampliação da indicação do Ocrevus para pacientes a partir de 12 anos, com peso igual ou superior a 40 kg.
Para Ana Claudia, a autorização representa uma nova possibilidade de tratamento no Brasil, onde as opções para a esclerose múltipla pediátrica ainda são limitadas. O objetivo é controlar a doença desde o início e reduzir o risco de acúmulo de incapacidade ao longo da vida.
Preservação da imunidade e resultados em adultos
Os dados apresentados também indicaram que o Ocrevus preservou entre 81% e 100% da imunidade preexistente associada a vacinas infantis, com pouco ou nenhum efeito sobre determinadas células do sistema imunológico.
Outro estudo apontou que o medicamento manteve sua eficácia no controle da progressão da incapacidade em pacientes com mais de 55 anos. Os resultados ampliam as informações disponíveis sobre o uso do remédio em diferentes faixas etárias.
Fenebrutinibe apresenta redução de surtos
O fenebrutinibe, que ainda está em fase experimental para esclerose múltipla, também apresentou resultados promissores. Os estudos identificaram redução nos marcadores relacionados à inflamação cerebral crônica e indicaram um controle mais amplo da atividade da doença.
Em comparação com um tratamento já disponível, o medicamento reduziu em 55% a taxa de surtos, segundo os dados divulgados pela Roche.
O diretor médico e chefe de Desenvolvimento Global de Produtos da farmacêutica, Levi Garraway, afirmou que os resultados sugerem potencial para atuar na atividade da doença dentro e fora do sistema nervoso central. O medicamento está sendo estudado para formas recorrentes e primariamente progressivas de esclerose múltipla.
Como o fenebrutinibe ainda é experimental, são necessárias as etapas de avaliação regulatória antes de uma eventual aprovação para uso clínico.
Enspryng é estudado para doença rara
Diferentemente dos outros dois medicamentos, o Enspryng não é destinado ao tratamento da esclerose múltipla. Ele é estudado para a doença associada à glicoproteína da mielina de oligodendrócitos (MOGAD, na sigla em inglês).
A MOGAD é uma doença inflamatória autoimune rara que afeta o sistema nervoso central. Ela pode provocar episódios de inflamação e comprometer funções neurológicas.
No estudo divulgado, o Enspryng reduziu significativamente o risco de novos surtos e esteve associado a uma melhor recuperação funcional. Os resultados apontam um possível caminho para ampliar as opções terapêuticas para pessoas com a doença.
O que os resultados significam para os pacientes?
Os estudos apresentados pela Roche indicam avanços na pesquisa de tratamentos para doenças neuroimunológicas, incluindo a esclerose múltipla em crianças, adolescentes e adultos.
No entanto, os resultados divulgados pela farmacêutica não significam que todos os medicamentos estejam disponíveis para todas as pessoas. A indicação aprovada, a faixa etária autorizada e a situação regulatória de cada tratamento precisam ser consideradas na avaliação médica.
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