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O tempo que não aparece na agenda

Entre a produtividade e a qualidade, existe uma parte essencial do cuidado que nem sempre é contabilizada
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Por Ezequiel Reis (*)

Entre a saída de uma criança e a chegada de outra, existe um trabalho que nem sempre aparece nas agendas, nos relatórios de produtividade ou nas estatísticas institucionais.

É o tempo necessário para registrar uma observação, reorganizar uma estratégia, avaliar uma resposta, discutir uma dificuldade ou simplesmente refletir sobre o que aconteceu durante o atendimento.

Esse trabalho, muitas vezes invisível, não é secundário. Faz parte do próprio cuidado.

Em minha experiência com educação, desenvolvimento humano e psicomotricidade, tenho percebido uma contradição que merece ser discutida: ao mesmo tempo que avançamos no reconhecimento da importância de intervenções individualizadas, ampliamos modelos de organização que frequentemente valorizam a quantidade de atendimentos mais do que as condições necessárias à sua realização.

Mas afinal, o que significa oferecer um atendimento de qualidade?

É cumprir uma agenda? Executar atividades? Preencher um sistema? Alcançar uma meta mensal?

Tudo isso pode fazer parte de um serviço bem organizado. Mas nenhuma dessas ações, isoladamente, é suficiente para demonstrar que houve uma intervenção adequada.

Uma criança não é apenas um horário disponível. Ela chega com uma história, necessidades, possibilidades, dificuldades e formas particulares de se relacionar com o mundo. Sua resposta a uma proposta pode exigir mudanças de estratégia, adaptações e decisões que não estavam previstas no planejamento inicial.

Na psicomotricidade, por exemplo, o movimento não é um fim em si mesmo. É também expressão, relação, aprendizagem e desenvolvimento. Uma atividade aparentemente simples pode envolver objetivos relacionados ao equilíbrio, à organização espacial, à coordenação, à autonomia, à regulação do comportamento e à interação social.

Compreender essas manifestações exige observação qualificada. Transformá-las em intervenções coerentes exige planejamento. Identificar avanços e necessidades exige avaliação e acompanhamento.

E tudo isso exige tempo.

O que os números não conseguem mostrar

É legítimo que instituições acompanhem indicadores de produtividade, frequência, execução de serviços e utilização dos recursos disponíveis. Especialmente quando existem responsabilidades públicas e necessidade de prestação de contas.

Registros clínicos também são indispensáveis. Eles ajudam a assegurar a continuidade do acompanhamento, a comunicação entre profissionais e a rastreabilidade das intervenções realizadas.

O problema surge quando os instrumentos criados para organizar o cuidado passam a ocupar o centro das decisões, enquanto as condições necessárias para realizá-lo ficam em segundo plano.

Um atendimento registrado não é, necessariamente, um atendimento de qualidade. Da mesma forma, um registro pendente não significa, por si só, que uma intervenção não tenha acontecido.

São dimensões diferentes, embora relacionadas, que precisam ser avaliadas com responsabilidade.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que a qualidade dos serviços de saúde envolve efetividade, segurança, atenção centrada na pessoa, oportunidade, equidade, integração e eficiência. Portanto, produzir mais atendimentos não equivale automaticamente a oferecer melhor assistência.

Essa compreensão deveria orientar também a maneira como organizamos as rotinas profissionais.

Quem planeja o tempo de planejar?

Existe uma pergunta que considero fundamental para gestores e instituições: se o profissional precisa atender, avaliar, registrar, elaborar planos de intervenção, acompanhar resultados e participar de discussões de caso, em qual momento essas atividades devem acontecer?

Quando uma agenda ocupa integralmente o período de trabalho com atendimentos consecutivos, outras responsabilidades não desaparecem. Elas acabam sendo comprimidas, adiadas ou transferidas para momentos que deveriam pertencer à vida pessoal do profissional.

Em algumas situações, a própria qualidade documental pode ser prejudicada pela pressão de registrar tudo rapidamente.

E há um risco adicional: transformar a evolução clínica em uma tarefa meramente burocrática, cujo objetivo deixa de ser comunicar informações relevantes sobre o desenvolvimento da pessoa atendida e passa a ser simplesmente finalizar uma obrigação administrativa.

A documentação precisa ser objetiva e viável, mas também deve preservar seu sentido técnico.

A Lei nº 13.794/2019, que regulamenta a profissão de psicomotricista no Brasil, contempla entre suas competências atividades de planejamento, organização, análise e avaliação. Isso reforça algo que a prática já nos ensina: o trabalho profissional não se limita ao momento da intervenção direta.

Não se trata de defender agendas ociosas, dispensar registros ou rejeitar metas. Trata-se de reconhecer que o tempo destinado à análise, à documentação e ao planejamento também compõe o trabalho.

Cuidar de quem cuida também é uma responsabilidade institucional

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o impacto da organização do trabalho sobre os próprios profissionais.

Em setembro de 2026, a Organização Mundial da Saúde voltou a destacar que cargas excessivas, ritmos intensos, baixa autonomia e condições inadequadas de trabalho representam riscos à saúde mental.

Esse alerta tem implicações que vão além do bem-estar individual.

Profissionais precisam de condições para exercer julgamento técnico, preservar a atenção, estudar, desenvolver competências e tomar decisões responsáveis.

Quando toda a organização do serviço gira em torno do preenchimento de horários e do cumprimento de metas, corre-se o risco de reduzir o espaço para essas dimensões.

É necessário, portanto, discutir não apenas o que se exige das equipes, mas quais condições são efetivamente oferecidas para que essas exigências sejam cumpridas.

Responsabilidade profissional e responsabilidade institucional precisam caminhar juntas.

A qualidade também precisa caber na agenda

Defender um atendimento humanizado não pode ser apenas uma escolha de discurso. Precisa se traduzir na maneira como os serviços são planejados, financiados, organizados e avaliados.

Isso envolve dimensionamento adequado das agendas, períodos destinados aos registros, oportunidades de formação continuada, avaliação dos resultados, diálogo entre profissionais e gestores e condições compatíveis com a complexidade das intervenções.

Também envolve reconhecer que eficiência não é simplesmente realizar o maior número possível de atendimentos no menor tempo disponível.

Eficiência é utilizar os recursos de maneira responsável para produzir resultados relevantes, sem negligenciar a segurança, a qualidade e as necessidades das pessoas atendidas.

Não existe uma duração única de atendimento capaz de garantir qualidade em todos os contextos. A organização do tempo precisa considerar os objetivos, as características do público, a modalidade de intervenção e as demais responsabilidades profissionais.

Por isso, o debate não deveria se restringir a quantos atendimentos cabem em um dia, mas ao que é necessário para que cada atendimento tenha sentido e continuidade.

Talvez precisemos ampliar nossas perguntas.

Além de quantas crianças foram atendidas, deveríamos perguntar quais avanços foram observados, quais dificuldades permanecem, quais estratégias foram revistas e como as famílias estão participando do processo.

Além de verificar se o profissional concluiu seus registros, deveríamos compreender se ele dispõe de condições adequadas para avaliar, planejar e documentar o próprio trabalho.

Porque ampliar o acesso aos serviços é uma conquista importante. Mas garantir que esse acesso se traduza em acompanhamento qualificado é uma responsabilidade igualmente necessária.

O cuidado não termina quando o relógio anuncia o fim de uma sessão. E parte do trabalho mais importante pode acontecer justamente no tempo que não aparece na agenda.

(*) Ezequiel Reis é educador, capoeirista e presidente da Associação de Inclusão, Desporto e Educação (AIDÊ). Atua no desenvolvimento humano por meio da integração entre corpo, movimento, aprendizagem e vínculo, com especial dedicação à psicomotricidade, à inclusão e ao acompanhamento de crianças e adolescentes. Escreve sobre educação, cultura, desenvolvimento humano e responsabilidade social

 

Fontes de apoio editorial

  • Organização Mundial da Saúde — Quality health services
  • Brasil — Lei nº 13.794, de 3 de janeiro de 2019
  • Organização Mundial da Saúde — Mental health at work (15 set. 2026)
Sobre o autor
Educador e capoeirista, atua com práticas psicomotoras no acompanhamento de crianças e adolescentes, com foco em neurodiversidade, corpo e aprendizagem. Cursa Pedagogia. Escreve sobre paternidade, família e desenvolvimento infantil. Ver colunas.

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