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Entre escola, terapia e família: o que sustenta o desenvolvimento infantil

Entre escola, terapia e família – Foto: Arquivo

Por Ezequiel Reis (*)

Entre escola, terapia e família, existe uma pergunta que raramente é feita com profundidade: o que realmente sustenta o desenvolvimento de uma criança?

Na prática, o que mais se observa é uma corrida por resultados. Muitas famílias, no meio do cansaço e da preocupação com seus filhos, acabam buscando mudanças rápidas. Ao mesmo tempo, escolas esperam desempenho dentro de métricas padronizadas e, muitas vezes, a terapia é vista como o espaço onde tudo deve “se resolver”. No entanto, o desenvolvimento humano não responde à lógica da pressa.

Um dos maiores desafios está na expectativa que se cria em torno da criança. Espera-se mais do que ela pode oferecer naquele momento, e, quando pequenos avanços surgem, muitas vezes são desvalorizados por parecerem simples aos olhos de quem observa de fora. O que não se percebe é que, para aquela criança, aquilo pode ter sido um processo longo e complexo.

No ambiente escolar, especialmente na rede pública, a realidade se mostra ainda mais desafiadora. Crianças chegam carregando questões emocionais profundas, muitas vezes atravessadas por contextos de vulnerabilidade social, violência e ausência de estrutura familiar. Ainda assim, espera-se que elas acompanhem um modelo educacional que desconsidera suas singularidades, sendo avaliadas sob os mesmos critérios de crianças típicas.

Na clínica, o cenário não é muito diferente. O cansaço das famílias, somado às dificuldades do cotidiano, pode levar a decisões apressadas. Em alguns casos, a busca por regulação comportamental imediata se sobrepõe à compreensão do que está sendo vivido pela criança. O que deveria ser um processo de construção passa a ser uma tentativa constante de contenção.

Quando olhamos para o comportamento de uma criança, é comum enxergar apenas o que aparece. Mas, por trás de cada ação, existe uma história acontecendo no corpo e na relação. Recentemente, em uma sessão coletiva, uma criança se recusou a continuar participando após um episódio de conflito. À primeira vista, poderia parecer apenas resistência. No entanto, ao oferecer escuta e acolhimento, foi possível compreender que ela havia se sentido injustiçada. A partir desse entendimento, o vínculo foi restabelecido e ela conseguiu retornar à atividade.

Esse tipo de situação revela algo essencial: o comportamento não é o início do processo. Ele é, muitas vezes, o resultado de algo que ainda não foi compreendido.

Diante disso, talvez o maior erro não esteja na falta de técnica, mas na forma como atravessamos as etapas. Exigimos antes de vincular, corrigimos antes de compreender e, muitas vezes, olhamos para a deficiência antes de reconhecer as potencialidades.

Sustentar o desenvolvimento de uma criança exige mais do que intervenção. Exige presença, consistência e um olhar verdadeiramente humano. Escola, família e terapia não podem funcionar como espaços isolados, mas como partes de um mesmo processo.

Desenvolver uma criança é respeitar o tempo e reconhecer cada etapa do seu percurso. E, acima de qualquer método ou abordagem, é entender que, se há vida, há movimentoe todo movimento pode ser conduzido.

Talvez o primeiro passo não seja mudar a criança, mas mudar a forma como nós a acompanhamos no processo.

(*) Ezequiel Reis é educador, capoeirista e atua com práticas psicomotoras no acompanhamento de crianças e adolescentes, com foco em neurodiversidade, corpo e aprendizagem. Atualmente cursa Pedagogia, aprofundando sua atuação no desenvolvimento humano por meio do movimento e do vínculo

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