O Dia Nacional dos Surdos, celebrado neste sábado (26), marca no Brasil uma trajetória de lutas, conquistas e reivindicações por direitos, acessibilidade e reconhecimento. Instituída pela Lei nº 11.796, de 29 de outubro de 2008, a data também abre espaço para discutir a identidade, a cultura e a língua da comunidade surda.
A surdez, durante muito tempo, foi tratada principalmente sob uma perspectiva médica, associada à necessidade de correção ou tratamento. A abordagem cultural e antropológica amplia essa compreensão ao reconhecer a pessoa surda como integrante de uma comunidade com experiência linguística e cultural própria, especialmente entre aqueles que utilizam a Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Reconhecida legalmente como meio de comunicação e expressão pela Lei nº 10.436/2002, a Libras ocupa papel central na comunicação e na construção da identidade de muitas pessoas surdas. A convivência com outros surdos, a participação comunitária e o acesso à cultura visual também fazem parte desse processo.
Acessibilidade vai além da presença de intérpretes
A discussão sobre os direitos da comunidade surda também envolve o enfrentamento do capacitismo, caracterizado por atitudes ou estruturas que inferiorizam ou limitam a participação de pessoas com deficiência.
Para a população surda, essas barreiras podem aparecer quando a ausência da audição é associada à incapacidade, quando a Libras é desvalorizada ou quando serviços públicos, escolas, unidades de saúde e espaços culturais não oferecem condições adequadas de comunicação.
A acessibilidade linguística, nesse contexto, não se resume à disponibilização de um intérprete em situações específicas. Ela precisa fazer parte da estrutura dos serviços, permitindo que a pessoa surda tenha acesso às informações, participe das decisões e exerça seus direitos com autonomia.
História de organização no Vale do Aço
No Vale do Aço, a organização coletiva da comunidade surda possui uma trajetória que atravessa diferentes municípios. Em Ipatinga, a Associação dos Surdos de Ipatinga (ASIPA) foi fundada em 23 de outubro de 1994. Dois anos depois, a entidade foi declarada de utilidade pública pelo município.
A associação tem entre seus objetivos a defesa dos direitos e interesses da comunidade surda, além do desenvolvimento educacional, social, cultural e esportivo de seus associados.
Essa história também envolve a circulação e a convivência de pessoas surdas e intérpretes entre Ipatinga, Coronel Fabriciano, Timóteo e outras cidades da região. A organização comunitária contribui para transformar demandas individuais em reivindicações coletivas.
Em Coronel Fabriciano, integrantes da comunidade surda também buscam fortalecer a organização local, ampliar o reconhecimento institucional e conquistar um espaço adequado para desenvolver suas atividades. A mobilização representa uma etapa de construção coletiva voltada à participação social e à defesa de direitos.
Protagonismo e cidadania
A atuação junto à comunidade surda também envolve áreas como o Serviço Social, especialmente na defesa da autonomia, da participação social e do acesso às políticas públicas.
Nesse processo, a interpretação em Libras exerce uma função de mediação linguística que permite maior acesso às informações e aos serviços. Ao mesmo tempo, o protagonismo das decisões deve permanecer com as próprias pessoas surdas e com a comunidade.
O Dia Nacional dos Surdos, portanto, vai além de uma data comemorativa. É um momento para reconhecer a Libras como língua, compreender a identidade surda em suas dimensões sociais e culturais e valorizar a trajetória das organizações que atuam na defesa de direitos.
No Vale do Aço, a história da ASIPA e a mobilização da comunidade surda em Coronel Fabriciano integram esse percurso. São movimentos que evidenciam que inclusão não significa apenas garantir a presença da pessoa surda nos espaços existentes, mas também assegurar que esses ambientes estejam preparados para diferentes formas de comunicação, cultura e participação.








