A acessibilidade em grandes eventos esportivos é um direito. Autoridades brasileiras alertam para as barreiras impostas aos torcedores com deficiência.
O Retrocesso da Acessibilidade na Copa do Mundo de 2026
A celebração do futebol transcende o mero ato de jogar; é uma união de culturas e sentimentos. Contudo, enquanto o mundo aguarda ansiosamente a Copa do Mundo de 2026, crescem as vozes de descontentamento em relação às novas diretrizes da FIFA, que prometiam inclusão, mas agora parecem mais um retrocesso para as pessoas com deficiência. A medida que aumenta a distância entre palavras e ações é alarmante e tem gerado discussões fervorosas sobre a verdadeira aplicação de direitos fundamentais durante grandes eventos.
Na última Copa do Mundo realizada no Qatar, um ingresso para pessoas com deficiência custava R$ 57, com o acompanhante isento. Porém, para 2026, o panorama mudou drasticamente. O ingresso mais acessível agora custa R$ 325, que não inclui a área destinada a assentos de acessibilidade — que foi reduzida em um terço. Assim, aqueles que efetivamente desejam assistir a uma partida de futebol em igualdade de condições terão que desembolsar R$ 1.430. Com a imposição de que o acompanhante também pague pelo ingresso, o custo total pode chegar a R$ 2.860, representando um aumento espantoso de 4.900% em comparação a 2022.
A Voz da Inclusão em Risco
Essa questão levou o Senado Federal a se mobilizar e comunicar formalmente a FIFA sobre o descontentamento generalizado. O senador Flávio Arns enfatizou em sua declaração que fica evidente a contrariedade das novas regras, afirmando que “o retrocesso na acessibilidade é inaceitável”. Para ele, a Copa do Mundo deveria ser um farol de inclusão, não um espelho de desigualdade. O descontentamento não se limita apenas às palavras, mas também a ações que visam fortalecer a luta por um acesso justo e equitativo para todos.
Geraldo Nogueira, Diretor da Diretoria da Pessoa com Deficiência na OAB/RJ, também se pronunciou sobre o impacto dessas mudanças. Para ele, a acessibilidade deve ser tratada como um direito humano fundamental, essencial para a plena participação nas diversas esferas da vida social. Embora a introdução de recursos como interpretação em língua de sinais, audiodescrição e salas sensoriais seja um avanço, eles perdem seu valor quando os ingressos para tais áreas são exorbitantemente caros e restritivos.
A indignação foi ecoada pelo presidente do CONADE, Roberto Paulo do Vale Tiné, que afirmou que a FIFA demonstra um desinteresse pela inclusão verdadeira, priorizando um modelo comercial que ignora as necessidades das pessoas com deficiência. O alerta foi claro: enquanto houver empresas que exploram a demanda por ingressos a preços inflacionados, a verdadeira inclusão permanecerá um sonho distante.
Rodrigo Rollemberg, presidente da Comissão dos Direitos das Pessoas com Deficiência na Câmara dos Deputados, compartilhou seu desagrado em relação a essas medidas, enfatizando que a acessibilidade não deve ser encarada como um privilégio, nem como um produto de luxo. “A inclusão é um direito e precisa ser garantida”, declarou com firmeza, avançando na defesa para que todas as partidas do próximo ano, com a Copa do Mundo Feminina no Brasil, sigam protocolos que garantam acessibilidade justa e condições para a participação plena de todos os torcedores.
A natureza comercial da FIFA foi desafiada por André Naves, Defensor Público Federal, que lamentou como o evento se transformou em uma vitrine da exclusão. As reclamações não apenas revelam uma opinião, mas também a realidade cotidiana que muitos enfrentam. O esporte, que deveria unir as pessoas, agora reflete uma barreira em termos de acesso e direitos.
A partir de uma abordagem legal, Igor Lima, advogado especialista em Direitos Humanos, lamentou a possibilidade de um evento global como a Copa do Mundo normalizar a exclusão. As normas internacionais, estabelecidas pela ONU, deveriam garantir que todas as pessoas, independentemente de suas condições, possam reivindicar seus direitos inclusivos em qualquer lugar do mundo. Essa afirmação quebra um silêncio injusto que persiste ao longo da história da luta por inclusão.
O impacto econômico das medidas adota pela FIFA não é só sobre os ingressos; é um reflexo do que a sociedade valoriza. Ao tornar a inclusão um produto caro, a organização estabelece um precedente perigoso. E, ao mesmo tempo, essa situação lança sob os holofotes a desigualdade que muitos enfrentam no cotidiano. Cada vez mais, tempo de jogos, áreas de acesso e recursos para inclusão são precipitadamente moldados em funções do lucro, à revelia das necessidades humanas.
Enquanto isso, os torcedores brasileiros, que aspiram ver suas equipes favoritas jogarem, enfrentam não apenas as barreiras financeiras, mas também o estigma arraigado de serem considerados cidadãos de segunda classe. Para muitos, essa é uma répética de uma história que não poderia ser mais contrária aos valores do futebol.
A discussão sobre os preços dos ingressos e a acessibilidade deve continuar a ser uma prioridade, e medidas como as do Senado, em busca de um documento que solicite mudanças significativas na FIFA, evidenciam uma esperança de mudança. Contudo, isso não é suficiente se não houver um compromisso real por parte da entidade. O acesso ao esporte precisa ser garantido para todos; não se pode permitir que o mero desejo de lucro trivialize a inclusão.
À medida que as vozes de descontentamento se intensificam, fica claro que a luta por direitos e inclusão é inegociável. É mais do que uma questão de preço; é uma luta pela dignidade e pelo reconhecimento do valor das pessoas com deficiência na sociedade. Apenas assim a Copa do Mundo poderá ser um evento onde todos, verdadeiramente, têm lugar.








