A identificação precoce de TEA e TDAH é considerada um dos maiores desafios da educação inclusiva no Brasil. Em um cenário onde apenas uma parcela das escolas públicas conta com psicólogos em seu quadro profissional, novas soluções tecnológicas surgem como alternativas para ampliar a capacidade de observação e encaminhamento de estudantes que apresentam sinais de neurodivergência.
É nesse contexto que surge a NeuroAtiva, plataforma desenvolvida na Paraíba com o objetivo de auxiliar escolas públicas na identificação de possíveis sinais relacionados ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e outras condições que podem impactar o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes.
Identificação precoce de TEA e TDAH pode favorecer intervenções mais rápidas
Especialistas apontam que a identificação precoce de TEA e TDAH permite que crianças e adolescentes tenham acesso mais cedo a avaliações especializadas, estratégias pedagógicas adequadas e suporte multiprofissional.
Muitas vezes, sinais de neurodivergência são confundidos com dificuldades comportamentais ou problemas de aprendizagem. Como consequência, estudantes podem passar anos sem acompanhamento adequado, acumulando prejuízos acadêmicos, emocionais e sociais.
A proposta da NeuroAtiva é justamente auxiliar educadores a reconhecer padrões que indiquem a necessidade de uma avaliação mais aprofundada, contribuindo para que os encaminhamentos ocorram de forma mais rápida e organizada.
Como funciona a plataforma NeuroAtiva
A NeuroAtiva foi estruturada em três módulos integrados que trabalham diferentes aspectos do acompanhamento escolar.
O primeiro módulo utiliza um jogo de autoconhecimento emocional, estimulando os adolescentes a refletirem sobre emoções, comportamentos e desafios vivenciados no cotidiano escolar.
O segundo módulo realiza uma triagem supervisionada por psicólogos utilizando instrumentos clínicos amplamente reconhecidos, como o SDQ e o SNAP-IV. Essas ferramentas ajudam a identificar sinais que merecem atenção especializada.
Já o terceiro módulo utiliza o método PAIQUE para registrar indicadores que possam sugerir a presença de TEA, TDAH ou dislexia. A partir dessas informações, a plataforma pode sugerir encaminhamentos para a Rede de Atenção Psicossocial do SUS.
Inteligência artificial não substitui o diagnóstico profissional
Um dos pontos mais importantes destacados pelos desenvolvedores é que a NeuroAtiva não realiza diagnósticos médicos ou psicológicos.
A plataforma atua exclusivamente como ferramenta de apoio para identificação de padrões comportamentais e emocionais que possam justificar uma avaliação especializada posterior.
Segundo os responsáveis pelo projeto, a inteligência artificial deve ser compreendida como um recurso complementar ao trabalho de psicólogos, psiquiatras, neurologistas, pedagogos e demais profissionais envolvidos no acompanhamento dos estudantes.
Essa distinção é considerada fundamental para evitar interpretações equivocadas sobre o papel da tecnologia na área da saúde mental.
Projeto possui base científica e participação de universidades
O desenvolvimento da NeuroAtiva contou com colaboração técnica do Laboratório de Saúde Mental (LASER) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e do Núcleo de Tecnologia e Inovação (NUTES) da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).
A participação das instituições acadêmicas contribuiu para garantir fundamentação científica ao projeto e adequação aos protocolos utilizados na identificação de sinais relacionados à neurodiversidade.
Além disso, a plataforma foi desenvolvida respeitando as diretrizes da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), não realizando coleta de dados biométricos dos estudantes.
A preocupação com a privacidade e a segurança das informações é considerada um dos pilares do projeto.
Tecnologia educacional busca apoiar escolas diante da falta de profissionais
A criação da NeuroAtiva também está relacionada a um desafio enfrentado por milhares de escolas brasileiras: a escassez de profissionais especializados em saúde mental.
Embora a Lei Federal nº 13.935 determine a presença de psicólogos e assistentes sociais nas redes públicas de educação, a implementação da medida ainda ocorre de forma desigual em diferentes regiões do país.
Nesse cenário, ferramentas tecnológicas podem auxiliar educadores a identificar situações que exigem atenção especializada, funcionando como apoio complementar às equipes pedagógicas.
Durante sua apresentação na Bett Brasil, considerada um dos maiores eventos de tecnologia educacional da América Latina, a plataforma despertou interesse de gestores escolares, educadores e especialistas em inclusão.
Neurodiversidade e inclusão ganham novas ferramentas de apoio
A discussão sobre neurodiversidade vem ganhando cada vez mais espaço nas escolas brasileiras. O reconhecimento das diferenças individuais e a criação de ambientes inclusivos são considerados fatores fundamentais para o desenvolvimento pleno dos estudantes.
Ferramentas como a NeuroAtiva podem contribuir para fortalecer esse processo ao oferecer suporte técnico para identificação precoce de TEA e TDAH, ampliando as possibilidades de intervenção antes que dificuldades se agravem.
Especialistas ressaltam que o sucesso dessas iniciativas depende da integração entre tecnologia, educação, saúde e participação das famílias. A inteligência artificial, quando utilizada de forma ética e responsável, pode se tornar uma aliada importante na construção de uma educação mais inclusiva.
A experiência da NeuroAtiva demonstra como a colaboração entre universidades, empresas de tecnologia e instituições educacionais pode gerar soluções inovadoras para desafios históricos da educação brasileira. O avanço dessas iniciativas poderá contribuir para que mais estudantes recebam o apoio necessário no momento adequado, fortalecendo a inclusão e promovendo melhores oportunidades de desenvolvimento.








