A saúde mental nas escolas ganhou novo foco em 2025 com a criação da Comissão Nacional de Saúde Mental nas Escolas e, em junho, com a instalação da Comissão Centro-Oeste. A iniciativa ocorre em um cenário de maior atenção a sinais de sofrimento emocional entre crianças e adolescentes, como isolamento, irritabilidade, queda de interesse, alterações no sono e dificuldade de concentração.
No ambiente escolar, saúde mental não se resume à ausência de crise ou diagnóstico. O conceito envolve condições emocionais, sociais e relacionais que permitem ao estudante aprender, conviver, pedir ajuda e lidar com pressões próprias da idade. Também inclui a capacidade da escola de acolher, orientar e acionar famílias e profissionais de saúde quando os sinais deixam de ser passageiros.
Essa abordagem não transforma professores em responsáveis por diagnóstico. O papel da escola é observar mudanças de comportamento, registrar situações recorrentes, manter diálogo com responsáveis e encaminhar casos quando há prejuízo acadêmico, familiar ou social. Dessa forma, a instituição atua como ponto de proteção, sem substituir atendimento especializado.
Como a saúde mental nas escolas evoluiu no debate educacional
A saúde mental nas escolas passou a ser tratada de forma mais integrada à rotina pedagógica, e não apenas como resposta a episódios graves. A Comissão Nacional de Saúde Mental nas Escolas foi criada em 2025 para reunir representantes de instituições de ensino e elaborar diretrizes e boas práticas voltadas a estudantes, professores e famílias.
Em junho, a iniciativa avançou com a criação da Comissão Centro-Oeste, que abrange Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins. A nova comissão é presidida pela professora Dulcineia Marques, que defende uma atuação contínua. “A saúde mental não pode ser tratada apenas quando surge um problema, porque ela é construída diariamente. Assim como desenvolvemos habilidades acadêmicas ao longo dos anos, também desenvolvemos competências emocionais no cotidiano”, afirma.
Esse entendimento reconhece que o sofrimento emocional pode aparecer em diferentes fases da vida escolar. Além disso, considera que pressões acadêmicas, mudanças sociais, uso intenso de tecnologia e dificuldades de convivência podem interferir no bem-estar de estudantes, especialmente quando se tornam persistentes.
O que observar na saúde mental nas escolas
É necessário atenção à duração, à intensidade e ao impacto dos comportamentos. Cansaço antes de provas, insegurança em mudanças de turma ou ansiedade diante de avaliações podem ocorrer no desenvolvimento. O alerta aparece quando essas reações permanecem e começam a afetar aprendizagem, convivência ou rotina familiar.
Segundo a psicóloga clínica Kassiana Pozzatti, especialista em Educação, a diferença está na persistência dos sinais. “Sentir cansaço ou ansiedade antes de provas é natural, mas o alerta deve ser dado quando esses sentimentos se tornam persistentes, interferindo no desempenho acadêmico e nas relações sociais”, explica.
Entre os sinais que merecem acompanhamento estão isolamento social, irritabilidade frequente, perda de interesse por atividades antes prazerosas, dificuldade de concentração, alterações no sono e no apetite e dores físicas sem explicação médica definida. No entanto, nenhum desses sinais deve ser analisado isoladamente; o contexto e a repetição orientam a necessidade de intervenção.
O uso excessivo de tecnologia também aparece como ponto de atenção quando substitui interações presenciais, reduz momentos de descanso ou amplia o afastamento do estudante. Nesses casos, a escola pode ajudar a identificar mudanças percebidas em sala e orientar a família a observar a rotina fora do ambiente escolar.
Como a saúde mental nas escolas impacta famílias e professores
A saúde mental nas escolas depende de comunicação entre educadores, responsáveis e profissionais de saúde. Quando um aluno relata sofrimento ou apresenta mudança consistente de comportamento, a instituição precisa acolher a informação, evitar exposição pública e acionar protocolos internos de encaminhamento.
A criação de protocolos de comunicação entre escola e família está entre as prioridades da Comissão Centro-Oeste. A medida organiza quem deve ser avisado, quais registros precisam ser feitos e como o estudante será acompanhado sem julgamento ou estigmatização.
Para famílias atípicas, mães atípicas e cuidadores, esse cuidado também envolve respeito às especificidades de cada estudante. Crianças e adolescentes neurodivergentes, por exemplo, podem expressar sobrecarga emocional por mudanças de rotina, estímulos sensoriais, dificuldade de comunicação ou aumento de comportamentos de evitação. A escola precisa diferenciar sinais de sofrimento de características individuais, sempre com orientação técnica quando necessário.
Por outro lado, a discussão não ignora os desafios reais enfrentados por professores. Profissionais da educação lidam com salas cheias, demandas pedagógicas e situações emocionais complexas. Por isso, diretrizes de saúde mental devem incluir formação, rede de apoio e fluxos claros de encaminhamento, para que o cuidado não dependa apenas de iniciativa individual.
Orientação sobre saúde mental nas escolas para famílias
A recomendação é que haja um acompanhamento regular entre estudante, família e equipe pedagógica. Quando os sinais persistem, responsáveis podem procurar a coordenação escolar, relatar mudanças observadas em casa e pedir orientação sobre os registros feitos pela escola.
Hábitos de proteção também devem ser observados na rotina: sono adequado, momentos de lazer, prática de atividades físicas, convivência familiar e redução de uso excessivo de telas quando prejudica descanso ou interação social. Essas medidas não substituem avaliação profissional, mas ajudam a organizar o cuidado diário.
Kassiana Pozzatti orienta que a busca por ajuda profissional deve ocorrer quando os sinais aumentam ou prejudicam a vida do estudante. “O mais importante é observar se os sintomas aumentam em intensidade e comprometem a vida escolar, familiar e social do estudante”, destaca.
Se houver prejuízo contínuo no desempenho escolar, afastamento social, sofrimento recorrente ou dificuldade de manter atividades habituais, a família deve procurar atendimento com profissional de saúde mental. A escola, por sua vez, deve manter acolhimento, comunicação com responsáveis e encaminhamento adequado conforme seus protocolos.
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