Os vídeos curtos se tornaram uma das formas mais populares de consumir informação e entretenimento na internet. Para o médico Dr. Paolo Spriano, porém, o crescimento desse formato também levanta preocupações sobre possíveis impactos na atenção, na memória e em outras funções cognitivas.
O médico reúne estudos sobre o tema e afirma que o consumo frequente de vídeos curtos e fragmentados tem sido associado a alterações em processos relacionados ao funcionamento cognitivo e emocional.
Spriano ressalta que o assunto ganhou relevância com a expansão de plataformas de vídeos rápidos. Segundo ele, somente o TikTok tinha cerca de 2 bilhões de usuários ativos em 2025, reunindo pessoas de diferentes faixas etárias.
Vídeos curtos estão relacionados ao chamado “brain rot”?
De acordo com Spriano, o consumo prolongado de conteúdos digitais de baixa qualidade tem sido relacionado ao chamado brain rot, expressão usada para descrever uma possível deterioração do funcionamento mental associada ao excesso desse tipo de conteúdo.
Segundo o médico, o fenômeno estaria relacionado a dificuldades como redução da atenção e dessensibilização emocional.
Ele também cita estudos que associam o uso frequente de vídeos curtos a efeitos psicológicos negativos, incluindo ansiedade, depressão e padrões de uso compulsivo.
No entanto, as pesquisas mencionadas pelo médico indicam associações entre esses fatores. Isso não significa que assistir a vídeos curtos, isoladamente, seja comprovadamente a causa desses problemas.
O que acontece com a atenção?
A atenção é um processo que permite ao cérebro selecionar quais estímulos devem receber mais recursos para serem processados. Segundo Spriano, ela pode ser entendida basicamente de duas formas.
A chamada atenção bottom-up acontece quando um estímulo externo chama a atenção por suas características, como uma mudança repentina de imagem ou som.
Já a atenção top-down depende de objetivos, conhecimentos prévios e da decisão consciente de direcionar o foco para determinada atividade.
O médico explica que estudos de neurofisiologia vêm ajudando a compreender os circuitos cerebrais envolvidos nesses dois tipos de atenção.
Nesse contexto, ele cita pesquisas que observaram maior sincronização de determinadas regiões cerebrais durante a exposição a vídeos curtos, ao mesmo tempo em que foram identificadas alterações na comunicação entre redes relacionadas ao controle visual, à atenção e ao funcionamento cognitivo.
Vídeos curtos podem prejudicar a memória?
Um dos estudos citados por Spriano comparou a atividade cerebral de 57 participantes durante a recuperação de informações depois que eles assistiram a vídeos curtos e fragmentados ou a um vídeo longo e contínuo.
Segundo os resultados apresentados pelo médico, as pessoas que assistiram ao conteúdo fragmentado tiveram menor precisão de memória do que aquelas que assistiram ao vídeo contínuo.
Durante o teste de recuperação das informações, também foram observadas diferenças na atividade de algumas regiões cerebrais.
Entre elas estavam o claustro esquerdo, o núcleo caudado esquerdo e o giro temporal médio esquerdo.
Por que a estrutura do vídeo pode fazer diferença?
Segundo Spriano, uma possível explicação apontada pelos pesquisadores é que a narrativa contínua favoreça a formação de uma representação mais organizada da informação.
Quando o conteúdo é apresentado de maneira fragmentada e com mudanças frequentes, o cérebro pode ter mais dificuldade para integrar os diferentes elementos em uma sequência coerente.
O médico destaca que a menor ativação do claustro observada no estudo pode estar relacionada à dificuldade de reunir as informações necessárias para reconstruir uma lembrança de forma organizada.
No caso do núcleo caudado, a redução de atividade observada no grupo exposto aos vídeos curtos foi interpretada pelos pesquisadores como possível sinal de menor participação de mecanismos ligados ao controle da atenção e ao processamento direcionado a objetivos.
Já o giro temporal médio, região relacionada ao processamento do significado das palavras e à integração de diferentes tipos de informação, apresentou menor ativação no grupo que assistiu aos vídeos fragmentados.
Para os pesquisadores citados por Spriano, esse resultado pode estar relacionado à menor precisão da memória e à dificuldade de realizar um processamento mais profundo das informações.
Vídeos fragmentados podem aumentar o esquecimento?
Outro estudo mencionado por Spriano avaliou pessoas que aprenderam informações por meio de vídeos curtos.
Segundo ele, os participantes apresentaram menor precisão na memória imediata e uma taxa maior de esquecimento quando foram posteriormente solicitados a recuperar as informações aprendidas.
A pesquisa também identificou maior sincronização em regiões temporais e frontais relacionadas ao processamento de estímulos externos e indicou alterações na comunicação entre redes envolvidas na atenção e no controle cognitivo.
Esses resultados, segundo o médico, reforçam a hipótese de que a forma como o conteúdo é apresentado pode influenciar a maneira como as informações são processadas e armazenadas.
E o uso de vídeos curtos na educação?
Os vídeos rápidos também passaram a ser usados com frequência em ambientes educacionais, principalmente pela expectativa de que conteúdos mais curtos possam aumentar a motivação e o envolvimento dos estudantes.
Spriano, porém, chama atenção para o fato de que os resultados das pesquisas sobre a eficiência desse formato para a aprendizagem ainda são contraditórios.
Segundo ele, embora vídeos curtos possam facilitar o acesso ao conteúdo e aumentar o engajamento, existem estudos que levantam preocupações sobre possíveis prejuízos à memória e ao processamento mais profundo das informações.
O médico cita pesquisas segundo as quais a exposição a conteúdos fragmentados pode estar relacionada à redução do envolvimento de redes cerebrais responsáveis pela integração de informações, pelo controle cognitivo e pelo processamento semântico.
O que isso significa na prática?
Para Spriano, os resultados disponíveis merecem atenção principalmente porque os vídeos curtos estão cada vez mais presentes na rotina, inclusive em situações de aprendizagem.
A preocupação não está apenas no tempo de exposição, mas também na fragmentação constante do conteúdo, marcada por mudanças rápidas de assunto, imagem e estímulo.
Ainda segundo o médico, os estudos citados sugerem uma relação entre esse padrão de consumo e alterações em processos envolvidos na atenção e na memória.
Isso não significa que assistir a um vídeo curto necessariamente provoque perda de memória ou redução da capacidade de concentração. Os próprios resultados apresentados dependem do contexto e das condições de cada estudo, e novas pesquisas ainda são necessárias para compreender melhor os efeitos desse tipo de conteúdo a longo prazo.
Para Spriano, porém, as evidências já disponíveis justificam uma avaliação mais cuidadosa sobre o uso indiscriminado de vídeos curtos, especialmente quando esse formato substitui atividades que exigem concentração prolongada e processamento mais aprofundado das informações.
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