O uso de celular smartphones pelos pais pode estar relacionado a mudanças no desenvolvimento da linguagem das crianças, segundo um estudo publicado na revista científica JAMA Pediatrics. A pesquisa acompanhou 747 crianças na Noruega e identificou uma associação entre maior tempo de uso de celular pelo principal cuidador e um crescimento mais lento do vocabulário infantil.
As crianças que tinham seu próprio dispositivo digital, como tablet, computador ou smartphone, também apresentaram pontuações mais baixas em testes de vocabulário e gramática no início do acompanhamento.
O estudo encontrou associações e não avaliou diretamente o conteúdo consumido, a forma como os dispositivos eram usados ou a interação entre pais e filhos durante o uso.
O que o estudo descobriu?
As crianças tinham, em média, 4,9 anos quando entraram na pesquisa e foram acompanhadas por três anos, até os primeiros anos do ensino fundamental.
Os pesquisadores avaliaram diferentes aspectos do uso de telas, incluindo:
- Tempo diário de tela das crianças;
- Posse de tablets, computadores ou smartphones;
- Uso de redes sociais pelos pais;
- Tempo de uso de celular smartphone pelo principal cuidador.
Também foram realizados testes anuais para avaliar o desenvolvimento da linguagem.
Um dos principais resultados foi observado entre as crianças cujo principal cuidador utilizava o smartphone por mais tempo. Cada hora adicional de uso diário esteve associada a 0,42 ponto a menos no crescimento anual do vocabulário receptivo.
O vocabulário receptivo corresponde à capacidade de compreender palavras e seus significados, mesmo que a criança ainda não consiga utilizá-las na fala.
Crianças com dispositivo próprio tiveram pontuação menor
A pesquisa também encontrou uma associação diferente entre as crianças que já tinham algum dispositivo digital próprio aos 4 ou 5 anos.
Essas crianças apresentaram, no início do estudo:
- 5,13 pontos a menos em vocabulário receptivo;
- 4,56 pontos a menos em gramática receptiva.
Segundo os pesquisadores, essas diferenças permaneceram mesmo depois de serem considerados fatores como renda familiar, escolaridade dos pais e ordem de nascimento da criança.
Isso não significa que ter um celular ou tablet provoque, sozinho, dificuldades de linguagem. O estudo não conseguiu determinar o motivo dessa associação.
Tempo de tela da criança não teve o mesmo resultado
Um dos pontos que chamaram a atenção dos pesquisadores foi que a maioria dos indicadores de uso de telas pelas próprias crianças não apresentou relação consistente com o crescimento da linguagem ao longo dos três anos.
O mesmo ocorreu com o uso de celular e redes sociais pelos pais.
A associação mais clara apareceu especificamente entre o tempo de smartphone do principal cuidador e o crescimento do vocabulário.
Os pesquisadores destacam que isso pode indicar que o contexto familiar e a forma como a tecnologia interfere nas interações do dia a dia são importantes para entender essa relação.
Por que o uso de celular dos pais pode fazer diferença?
O estudo não permite afirmar exatamente qual mecanismo explicaria o resultado pelo uso de celular pelos pais.
Uma possibilidade é que um adulto muito envolvido com o smartphone tenha menos oportunidades de conversar, responder às perguntas da criança, brincar ou compartilhar experiências com ela.
Essas interações são importantes porque a criança aprende novas palavras e formas de usar a linguagem a partir do contato com outras pessoas.
No entanto, essa é uma possível explicação e não foi comprovada diretamente pela pesquisa.
Outro limite importante é que os pesquisadores mediram principalmente a quantidade de tempo de tela. Eles não conseguiram avaliar, por exemplo, se o smartphone era usado para trabalhar, conversar com familiares, assistir a vídeos ou utilizar redes sociais.
O que é vocabulário receptivo?
O vocabulário receptivo representa as palavras que uma pessoa consegue compreender.
Uma criança pode, por exemplo, entender o significado de uma palavra quando alguém a pronuncia, mesmo que ainda não consiga utilizá-la corretamente durante uma conversa.
Esse tipo de habilidade é importante para o desenvolvimento da comunicação e também para a aprendizagem escolar.
No estudo, os pesquisadores utilizaram testes específicos para avaliar tanto o vocabulário receptivo quanto a compreensão de estruturas gramaticais.
O resultado significa que os pais devem parar de usar celular?
Não. Os pesquisadores não defendem abandonar a tecnologia. A principal contribuição do estudo é mostrar que o uso de celular e telas em geral precisa ser analisado dentro do contexto familiar, e não apenas pelo número de horas que a criança passa diante de uma tela.
Também não é possível concluir, a partir desses dados, que toda criança exposta ao uso frequente de smartphone pelos pais terá dificuldades de linguagem.
O estudo apresenta limitações importantes. O tempo de uso foi medido apenas no começo da pesquisa, por exemplo, o que significa que possíveis mudanças nos hábitos das famílias durante os três anos não foram acompanhadas.
Além disso, os pesquisadores não avaliaram o conteúdo utilizado nem se os pais estavam usando o aparelho junto com a criança.
Como os pais podem reduzir possíveis impactos do uso de celular?
Independentemente dos resultados do estudo, algumas atitudes podem ajudar a preservar momentos de interação entre adultos e crianças.
Conversar durante as atividades do dia, ler juntos, brincar, fazer refeições sem distrações e reservar períodos sem fazer uso de celular são maneiras simples de aumentar as oportunidades de comunicação.
Também pode ser útil evitar o uso constante do smartphone durante momentos em que a criança busca atenção. Isso permite que o adulto perceba perguntas, expressões e tentativas de comunicação.
A ideia não é eliminar completamente o uso da tecnologia, mas equilibrar o tempo de tela com experiências presenciais e interação direta.
Quando procurar avaliação?
Dificuldades de linguagem podem ter diferentes causas e não devem ser atribuídas automaticamente ao uso de celular.
Quando uma criança apresenta atraso persistente na fala, dificuldade para compreender instruções, pouca evolução do vocabulário ou problemas de comunicação que interferem na rotina, vale procurar avaliação profissional.
Pediatras, fonoaudiólogos e outros profissionais podem analisar o desenvolvimento da criança e identificar se é necessário algum tipo de acompanhamento.
O estudo norueguês amplia a discussão sobre o impacto da tecnologia dentro das famílias, mas ainda são necessárias pesquisas que acompanhem o uso de telas ao longo do tempo e considerem também o conteúdo, o contexto e a qualidade da interação entre pais e filhos.
Veja também:
- Doomscrolling: como evitar o hábito que pode estar prejudicando sua saúde mental sem você perceber
- Tela de ilusões: Como a desinformação nas redes sociais afeta a saúde mental dos jovens








