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Antes de qualquer recurso, existe o corpo: o que a capoeira nos ensina sobre movimento, equilíbrio e vida

capoeira
O que a capoeira nos ensina sobre movimento, equilíbrio e vida – Imagem: IA

Por Ezequiel Reis (*)

No dia 3 de agosto, Ipatinga celebra o Dia Municipal do Capoeirista. Instituída pela Lei Municipal nº 4.942/2024, com o apoio da Associação de Inclusão, Desporto e Educação — AIDÊ, a data representa mais do que uma homenagem aos praticantes. É o reconhecimento público de uma manifestação cultural que atravessou séculos de perseguição e resistência até ocupar escolas, praças, projetos sociais, espaços terapêuticos e instituições culturais.

Mas celebrar o capoeirista também nos convida a fazer uma pergunta: afinal, o que uma pessoa aprende quando aprende capoeira?

A resposta mais imediata talvez fale de golpes, esquivas, acrobacias, músicas e instrumentos. Tudo isso faz parte. Entretanto, quem acompanha de perto o desenvolvimento de um capoeirista percebe que, antes de executar movimentos complexos, ele precisa aprender algo mais essencial: conhecer o próprio corpo.

O corpo como primeiro território de aprendizagem

Em minhas aulas, enfatizo constantemente o domínio do centro corporal durante as transições. Costumamos chamá-lo pedagogicamente de centro de gravidade, embora, do ponto de vista biomecânico, o conceito de centro de massa seja geralmente mais preciso.

Esse centro não permanece parado. Ele se desloca conforme o corpo transfere o peso, altera sua base de apoio, inclina o tronco, gira, desce ao chão ou retorna ao plano alto. Por isso, equilíbrio na capoeira não significa manter o corpo imóvel. Significa reorganizá-lo continuamente sem perder o domínio do movimento.

A própria ginga já constitui um laboratório completo dessa aprendizagem.

Ao transitar entre os pontos que formam sua trajetória, o capoeirista alterna os apoios, conduz o peso de uma perna para a outra e coordena pernas, quadril, tronco, braços, cabeça e olhar. O tronco não acompanha o movimento apenas por estética: ele participa da condução da massa corporal e ajuda a preservar o equilíbrio, o ritmo e a disponibilidade para a próxima ação.

Gingar, portanto, não é simplesmente colocar um pé atrás, voltar à cadeira e repetir o movimento para o outro lado.

Gingar é conduzir o centro do corpo entre diferentes bases de apoio sem perder o ritmo, o equilíbrio e a possibilidade de decidir o próximo movimento.

É nesse momento que o aluno começa a deixar de apenas reproduzir posições e passa a compreender o caminho percorrido pelo próprio corpo.

Potência não é força bruta

Outro elemento fundamental é a respiração.

Antes de desferir um golpe, o corpo precisa estar disponível, sem tensões desnecessárias. Durante a execução, a expiração pode acompanhar o momento de maior esforço, favorecendo a estabilidade do tronco, a transmissão da força e a continuidade da ação.

A contração muscular também precisa acontecer no tempo adequado. Quando surge cedo demais, o movimento tende a ficar rígido, lento e previsível. Quando aparece tarde demais, perde-se controle e precisão.

Por isso, uma orientação que utilizo durante as aulas é:

Prepare respirando, execute expirando e permaneça solto para continuar jogando.

Na capoeira, o golpe raramente encerra uma ação. Após uma armada, um martelo ou uma meia-lua de compasso, é preciso recuperar o eixo, perceber a resposta do outro e permanecer disponível para aquilo que o jogo apresentará.

Nos movimentos giratórios, essa organização se torna ainda mais evidente. O capoeirista produz rotação, modifica a amplitude do movimento e conduz a força em direção à extremidade do golpe. Ao mesmo tempo, precisa conservar o controle do eixo e transferir a massa corporal para uma base que lhe permita retornar.

Na meia-lua de compasso, por exemplo, o movimento pode começar na ginga, em um plano mais alto. O tronco gira e se aproxima do plano baixo, enquanto a perna percorre sua trajetória circular. Para concluir o movimento, a massa precisa ser transferida novamente, permitindo que o tronco se eleve e que o corpo retorne à base com equilíbrio.

Não basta, portanto, lançar a perna ou completar o giro. É necessário saber entrar no movimento, atravessá-lo e sair dele com domínio.

A potência não nasce isoladamente na perna. Ela resulta da relação entre o chão, a base de apoio, a transferência de peso, a rotação do quadril e do tronco, a respiração, o tempo e a intenção.

Potência não é apenas produzir força. É saber conduzi-la sem perder o eixo.

Uma experiência psicomotora completa

É justamente nesse ponto que a capoeira revela uma de suas maiores riquezas.

Com um único recurso; o próprio corpo, podemos desenvolver equilíbrio estático e dinâmico, coordenação global, lateralidade, orientação espacial e temporal, ritmo, respiração, organização tônica, consciência corporal, planejamento motor, atenção, inibição, antecipação e tomada de decisão.

Mas o jogo não acontece de maneira solitária.

Diante do outro, o capoeirista precisa observar, interpretar intenções, controlar impulsos, adaptar estratégias e escolher o momento de agir. Aprende a aproximar-se e afastar-se, atacar sem abandonar a proteção, reconhecer limites e transformar situações inesperadas em novas possibilidades.

Na roda, movimento também é comunicação.

Um olhar pode anunciar uma intenção. Uma mudança de ritmo pode provocar uma resposta. Uma esquiva pode ser defesa, diálogo ou convite. O corpo aprende a ler o ambiente ao mesmo tempo que se torna legível para o outro.

Por isso, a capoeira não desenvolve apenas habilidades motoras. Ela mobiliza percepção, emoção, inteligência, memória, criatividade, vínculo e convivência.

Antes de qualquer equipamento, existe um corpo: território de movimento, história, medo, coragem, aprendizagem e transformação.

Reconhecer é também assumir compromisso

A Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres foram reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil em 2008. Em 2014, a roda foi inscrita pela Unesco na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Esses títulos são importantes, assim como a instituição do Dia Municipal do Capoeirista em Ipatinga. Entretanto, uma data comemorativa alcança seu sentido mais profundo quando se transforma em compromisso permanente.

Reconhecer a capoeira significa valorizar seus mestres e professores, preservar sua ancestralidade afro-brasileira, garantir condições dignas para sua transmissão e abrir espaços para que ela esteja presente nas políticas culturais, educacionais e sociais.

Também significa compreender que seus saberes não pertencem apenas ao passado. A capoeira é uma tradição viva, capaz de dialogar com os desafios do presente sem abandonar suas raízes.

Neste 3 de agosto, celebro cada pessoa que mantém uma roda viva; cada mestre que compartilha o conhecimento recebido; cada criança que encontra na ginga uma forma de descobrir o próprio corpo; e cada comunidade que reconhece na capoeira uma possibilidade de pertencimento, educação e futuro.

Porque, na capoeira, equilíbrio não é permanecer sempre no centro.

É aprender a retornar ao próprio eixo, mesmo quando o jogo nos obriga a sair dele.

(*) Ezequiel Reis é educador, capoeirista e presidente da Associação de Inclusão, Desporto e Educação (AIDÊ). Atua no desenvolvimento humano por meio da integração entre corpo, movimento, aprendizagem e vínculo, com especial dedicação ao acompanhamento de crianças e adolescentes no contexto da neurodiversidade. Atualmente cursa Pedagogia e escreve sobre educação, inclusão, cultura e desenvolvimento humano
Sobre o autor
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