Pesquisa da KFF encontra associação entre o uso frequente de chatbots de IA e crenças falsas sobre vacinas — sem demonstrar relação de causa e efeito.
A utilização de chatbots de inteligência artificial para buscar informações sobre bem-estar e medicina cresce rapidamente — e esse crescimento levantou novas questões sobre a qualidade das informações acessadas. Uma pesquisa recente da KFF, divulgada pelo The Guardian, revela que o uso frequente desses assistentes digitais foi associado a uma proporção maior de crenças errôneas sobre vacinas, especialmente a falsa alegação de que a vacina tríplice viral causaria autismo.
Resumo: o estudo encontrou uma associação entre o uso frequente de chatbots para buscar informações de saúde e maior adesão a crenças falsas sobre vacinas. Trata-se de pesquisa de opinião transversal, aplicada por questionário a cerca de 2.500 adultos nos Estados Unidos — os dados não demonstram que os chatbots causam essas crenças.
O que a pesquisa sobre chatbots de IA revela
O levantamento sobre o uso de chatbots de IA, feito com cerca de 2.500 adultos americanos, indica que um em cada três entrevistados que usam chatbots de IA semanalmente acredita em informações falsas sobre imunização.
A pesquisa concluiu que 35% dos indivíduos que consultam chatbots sobre saúde acreditam que existe uma ligação entre a vacina tríplice viral — que protege contra o sarampo, caxumba e rubéola — e o autismo. Entre os que não utilizam esses recursos digitais, o índice é de 20% — uma diferença de 15 pontos percentuais.
Vacina tríplice viral e autismo: o que a ciência diz
A vacina tríplice viral não causa autismo. A suposta ligação nasceu de um estudo publicado na década de 1990 e posteriormente retratado pela revista The Lancet; pesquisas subsequentes não encontraram qualquer relação entre o imunizante e o transtorno do espectro autista.
Para melhor entender a situação, é essencial considerar a origem do mito que liga vacinas ao autismo. Essa narrativa ganhou força na década de 1990, a partir de um estudo publicado na revista científica The Lancet que, após investigações adicionais, foi retratado e criticado por sua falta de fundamento. Apesar de estudos subsequentes terem consistentemente mostrado a inexistência de qualquer relação entre vacinas e autismo, a crença ainda permeia diversas camadas da sociedade, amplificada por uma avalanche de informações e desinformações nas redes sociais e em ferramentas digitais.
O levantamento traz ainda outros recortes sobre o uso desses chatbots de IA. O mesmo estudo indicou que 29% dos usuários regulares de chatbots acreditam na ideia errônea de que vacinas de RNA mensageiro podem alterar o DNA humano. Esse conceito, que vai de encontro aos princípios científicos estabelecidos, pode levar a decisões perigosas sobre saúde pessoal e pública.
Não é apenas o uso de chatbots que gera preocupação. A pesquisa da KFF também revelou que adultos que buscam informações em redes sociais estão mais propensos a segregar desinformação. Os que utilizam essas plataformas para pesquisar questões de saúde apresentam uma probabilidade dupla de acreditar na ligação entre a vacina tríplice viral e o autismo quando comparados aos que não fazem uso dessas ferramentas sociais. Com 37% de crença entre os usuários frequentes de redes sociais, essas plataformas podem favorecer a circulação de desinformação.
Além de refletir crenças errôneas, os dados encontrados mostram uma divisão socioeconômica nas abordagens à saúde digital. Aqueles que apresentam um nível socioeconômico mais baixo e que não têm formação universitária tendem a buscar informações de saúde principalmente em redes sociais.
Indivíduos com rendimentos mais elevados e formação acadêmica tendem a optar por chatbots. Essa disparidade pode sugerir que normas de acesso e percepção de ciência têm um impacto significativo nas decisões de saúde da população.
O fenômeno da busca por informações de saúde online não é novo. Um estudo anterior, realizado em 2025, revelou que cerca de 5% de todas as buscas no Google tratavam de tópicos de saúde. Além disso, 77% dos entrevistados indicaram que recorriam à internet para esclarecer diagnósticos recebidos. Portanto, o crescimento do uso de tecnologia para buscar informações relacionadas à saúde é uma continuidade de uma tendência que já estava em ascensão.
Com a proliferação do uso de chatbots, as empresas de tecnologia começaram a reconhecer o papel significativo que essas ferramentas têm na formação de opinião pública. Um comunicado da OpenAI, a organização responsável pelo ChatGPT, destacou que saúde é um dos temas mais recorrentes entre as interações com seus assistentes, com milhões de perguntas por semana. Essa realidade só reforça a importância da precisão das informações oferecidas por esses assistentes digitais e o compromisso ético de suas desenvolvedoras em garantir que os dados fornecidos sejam válidos e cientificamente embasados.
Outro ponto crítico é que a KFF não especificou quais modelos de inteligência artificial foram utilizados pelos entrevistados. Sem essa informação, não é possível comparar o comportamento dos sistemas: como diferentes modelos utilizam bases de treinamento distintas, suas respostas podem variar.
Como usar chatbots de IA com segurança
Em um mundo em que a informação se torna cada vez mais acessível, a educação continua sendo a ferramenta mais eficaz contra a desinformação. A luta contra crenças erradas sobre vacinas e tratamentos médicos exige uma abordagem multifacetada que inclua a promoção da alfabetização digital e científica. Antes de seguir qualquer orientação de saúde vinda de um chatbot, confira a fonte da resposta, compare com os canais oficiais e converse com um profissional.
Para a saúde pública, o recado do levantamento é direto: quanto mais as pessoas recorrem a ferramentas digitais para se informar sobre saúde, mais importa garantir que essas respostas estejam ancoradas em evidência científica — uma responsabilidade compartilhada entre usuários, desenvolvedores e autoridades sanitárias.
FAQ
O uso de chatbots de IA aumenta a desinformação sobre vacinas?
A pesquisa mostra uma associação: 35% dos usuários frequentes de chatbots acreditam em informações falsas sobre a vacina tríplice viral, contra 20% entre quem não usa — sem comprovar que as ferramentas causam essas crenças.
A vacina tríplice viral causa autismo?
Não. O estudo que originou o mito foi retratado pela revista The Lancet, e pesquisas posteriores não encontraram qualquer relação entre a vacina e o autismo.
Quais cuidados tomar ao pesquisar saúde em chatbots de IA?
Confira sempre as informações em fontes oficiais e converse com um profissional de saúde antes de tomar decisões — a educação e a checagem seguem sendo as melhores ferramentas contra a desinformação.




