Um estudo publicado na revista científica Neurology encontrou uma associação entre o uso de terapia hormonal na menopausa somente com estrogênio e uma menor presença de alterações relacionadas à doença de Alzheimer no cérebro.
A pesquisa analisou dados de milhares de mulheres e observou que aquelas que relataram usar a terapia apresentavam menores chances de alterações neuropatológicas do Alzheimer, além de menor frequência de diagnóstico clínico de demência e menor declínio em medidas de memória e funcionalidade.
Os resultados, porém, precisam ser interpretados com cautela. O estudo foi observacional e retrospectivo, portanto não comprova que o uso de estrogênio proteja contra o Alzheimer ou impeça o desenvolvimento da demência.
O que o estudo encontrou?
Os pesquisadores analisaram dois grandes bancos de dados sobre envelhecimento e doença de Alzheimer, o National Alzheimer’s Coordinating Center (NACC) e a Alzheimer’s Disease Neuroimaging Initiative (ADNI).
No conjunto de dados do NACC, foram analisadas informações clínicas de 19.402 mulheres. Entre elas, 2.959 também tinham dados disponíveis de exames após a morte, incluindo 258 que haviam relatado uso de terapia hormonal na menopausa somente com estrogênio.
Na análise neuropatológica, as mulheres que usavam a terapia apresentaram 35% menos chances de ter maior gravidade das alterações cerebrais características do Alzheimer em comparação com as que não relataram esse uso.
A associação permaneceu mesmo depois que os pesquisadores aplicaram métodos estatísticos para tentar reduzir possíveis diferenças entre as participantes.
Usuárias também apresentaram menor quantidade de beta-amiloide
Outro resultado envolveu a beta-amiloide, uma proteína que pode se acumular no cérebro e está relacionada à doença de Alzheimer.
As mulheres que relataram uso de terapia hormonal na menopausa apresentaram níveis associados a menor carga de beta-amiloide em análises feitas com amostras de sangue e líquido cefalorraquidiano.
O estudo também encontrou uma associação entre o uso da terapia e menor probabilidade de alguns problemas relacionados à doença.
No banco de dados do NACC, as usuárias apresentaram:
- 39% menos chances de receber diagnóstico clínico de demência;
- 33% menos chances de apresentar declínio clínico medido por uma escala de avaliação da demência;
- Menor probabilidade de angiopatia amiloide cerebral;
- Menor probabilidade de lacunas e infartos cerebrais.
Por outro lado, não foram observadas associações significativas com algumas outras alterações, como atrofia do hipocampo, determinadas formas de degeneração lobar frontotemporal e presença de hemorragias.
E a memória?
Além dos achados relacionados ao cérebro, os pesquisadores avaliaram o desempenho cognitivo das participantes.
De forma geral, o uso de terapia hormonal na menopausa somente com estrogênio esteve associado a menor declínio funcional e de memória ao longo do acompanhamento.
Esse resultado não significa que a terapia melhore a memória ou que possa ser utilizada para prevenir o Alzheimer. A pesquisa apenas encontrou uma relação estatística entre os fatores analisados.
Por que é importante ter cautela com os resultados?
Embora os pesquisadores tenham levado em consideração fatores como idade, escolaridade, hipertensão e presença do gene APOE, outros elementos podem ter influenciado os resultados.
Por exemplo, mulheres que utilizam terapia hormonal na menopausa podem apresentar diferenças de saúde, acesso a atendimento médico, hábitos de vida ou acompanhamento clínico em relação às que não fazem esse tratamento.
Também não foi possível determinar com precisão por quanto tempo cada participante utilizou a terapia hormonal antes do início do estudo. Isso limita a avaliação dos efeitos da exposição ao estrogênio ao longo de toda a vida.
Outro ponto importante é que os dados analisados não representam necessariamente as mulheres que utilizam terapia hormonal atualmente.
O estudo vale para qualquer terapia hormonal na menopausa?
Não. A pesquisa avaliou especificamente mulheres que relataram terapia hormonal na menopausa somente com estrogênio. Isso é importante porque esse tipo de tratamento não é indicado para todas as mulheres na menopausa.
Segundo as informações apresentadas no estudo, mulheres que ainda possuem o útero geralmente não devem utilizar estrogênio isoladamente, pois o hormônio pode aumentar o risco de alterações no revestimento do útero e de câncer endometrial. Nesses casos, quando a terapia hormonal é indicada, costuma-se associar estrogênio e progesterona.
Por isso, os resultados da pesquisa são mais diretamente aplicáveis a um grupo específico de mulheres, especialmente aquelas que passaram por histerectomia, além de não apresentarem contraindicações ao uso de estrogênio.
Terapia hormonal na menopausa pode prevenir o Alzheimer?
Ainda não há evidências suficientes para afirmar isso.
Os autores do estudo destacam que os resultados mostram associações entre o uso da terapia hormonal e diferentes indicadores relacionados ao Alzheimer, mas não estabelecem uma relação de causa e efeito.
Além disso, o desenho da pesquisa não permite saber se o estrogênio foi diretamente responsável pelos resultados ou se outras características das participantes contribuíram para as diferenças observadas.
A terapia hormonal na menopausa também não deve ser iniciada com o objetivo de prevenir demência sem avaliação médica. A decisão de utilizar hormônios na menopausa depende dos sintomas, da idade, do histórico de saúde, dos fatores de risco e das possíveis contraindicações.
O que a pesquisa acrescenta ao conhecimento sobre Alzheimer?
Os resultados ajudam a ampliar a investigação sobre a possível relação entre os hormônios sexuais femininos, envelhecimento cerebral e doença de Alzheimer.
Para os pesquisadores, a associação observada em diferentes medidas — incluindo alterações encontradas no cérebro, beta-amiloide, demência e desempenho funcional — reforça a necessidade de novos estudos.
Ainda será preciso investigar se o tipo de terapia, o momento em que ela é iniciada, o tempo de uso e outros fatores relacionados à menopausa podem modificar essa possível relação.
Por enquanto, a principal conclusão é que o uso de terapia hormonal na menopausa somente com estrogênio esteve associado a menos alterações relacionadas ao Alzheimer no grupo estudado, mas isso não significa que o tratamento seja capaz de prevenir ou tratar a doença.
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