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Açúcar na infância: estudo aponta possíveis efeitos na saúde décadas depois

Açúcar na infância: estudo aponta possíveis efeitos na saúde décadas depois
Açúcar na infância: estudo aponta possíveis efeitos na saúde décadas depois. Imagem: Andres Ayrton/Pexels
🍎 Orientação nutricional
Este conteúdo é informativo e não substitui a orientação nutricional individualizada de um profissional.

O consumo de açúcar na infância pode estar relacionado a efeitos que permanecem por décadas, segundo um estudo publicado na revista científica PNAS. A pesquisa analisou pessoas que nasceram no Reino Unido durante o período de racionamento de alimentos após a Segunda Guerra Mundial e encontrou associações entre uma menor exposição ao açúcar nos primeiros anos de vida e menor ocorrência de alguns tipos de câncer na idade adulta.

Os pesquisadores também identificaram diferenças em marcadores relacionados ao envelhecimento biológico e observaram que as pessoas que tiveram menor acesso ao açúcar no início da vida apresentavam, décadas depois, um consumo menor e mais moderado do ingrediente.

Apesar dos resultados, o estudo não significa que consumir açúcar na infância determine sozinho a saúde de uma pessoa no futuro. Os próprios autores reconhecem que outros fatores podem ter influenciado os resultados.

Como o estudo aproveitou o racionamento de açúcar?

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido passou a limitar a distribuição de diversos alimentos, incluindo o açúcar. O racionamento começou em 1940 e continuou por alguns anos depois do fim do conflito, até ser encerrado em setembro de 1953.

Depois disso, o consumo médio de açúcar no país praticamente dobrou.

Essa mudança criou uma situação que os pesquisadores consideraram um “experimento natural” de consumo de açúcar na infância. Pessoas nascidas pouco antes do fim do racionamento tiveram uma exposição menor ao açúcar nos primeiros anos de vida, enquanto aquelas nascidas depois passaram a ter acesso maior.

O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Chen Zhu, da Universidade Agrícola da China, e Weilong Zhang, da Universidade de Cambridge.

A equipe analisou dados de 64.761 pessoas nascidas na Grã-Bretanha entre 1951 e 1956, utilizando informações do UK Biobank, banco de dados que acompanha a saúde dos participantes ao longo dos anos.

Por que os primeiros dois anos de vida são importantes?

A pesquisa concentrou-se nos chamados primeiros mil dias de vida, período que começa na gestação e vai até aproximadamente os 2 anos de idade.

Nessa fase, o organismo passa por um intenso processo de desenvolvimento. Metabolismo, órgãos e sistema imunológico ainda estão amadurecendo, enquanto hábitos e preferências alimentares também começam a ser construídos.

Por isso, os pesquisadores consideram que mudanças na alimentação nesse período podem ter efeitos de longo prazo.

No caso analisado, a principal diferença foi a quantidade de açúcar na infância à qual cada geração ficou exposta durante essa etapa.

Menor consumo de açúcar na infância foi associado a menos casos de câncer

Segundo os resultados, as pessoas que tiveram maior exposição ao racionamento — e, portanto, menor acesso ao açúcar na infância durante os primeiros mil dias de vida — apresentaram menor incidência de cinco tipos de câncer na vida adulta.

As maiores diferenças observadas foram:

  • 69% menos casos de câncer de fígado e dos ductos biliares dentro do fígado;
  • 52% menos casos de câncer de próstata;
  • 41% menos casos de câncer de pulmão;
  • 40% menos casos de câncer de reto;
  • 36% menos casos de câncer de mama.

Os dados mostram uma associação observada décadas depois da exposição inicial. Embora os pesquisadores tenham tratado a mudança provocada pelo fim do racionamento como uma oportunidade de estudar possíveis efeitos causais, os resultados não equivalem a um ensaio clínico controlado.

Estudo também encontrou sinais de envelhecimento mais lento

Os pesquisadores analisaram ainda os telômeros, estruturas presentes nas extremidades dos cromossomos que tendem a ficar menores ao longo da vida.

As pessoas mais expostas ao racionamento de açúcar na infância apresentaram telômeros mais longos. Segundo uma estimativa apresentada pelo pesquisador Weilong Zhang, a diferença seria equivalente a aproximadamente 2,2 anos de menor envelhecimento biológico.

Também foram observados níveis menores de granzima B, uma substância relacionada à atividade do sistema imunológico.

Esses resultados não significam que a menor ingestão de açúcar impeça o envelhecimento. Eles indicam diferenças em alguns marcadores biológicos entre os grupos analisados.

Hábitos alimentares também ficaram diferentes na vida adulta

Outra observação chamou a atenção dos pesquisadores.

Mais de 50 anos depois do período de racionamento de açúcar na infância, as pessoas que tiveram menor exposição ao açúcar nos primeiros anos de vida relatavam um consumo menor de açúcar na idade adulta.

Elas também apresentavam um padrão alimentar considerado pelos autores mais moderado e diversificado.

Uma possível explicação é que o contato precoce com sabores menos doces possa influenciar as preferências alimentares que se desenvolvem ao longo da vida.

Nesse caso, os pesquisadores trabalham com duas possibilidades: uma relacionada ao desenvolvimento do organismo e outra ligada ao comportamento alimentar.

Açúcar na infância pode influenciar a saúde no futuro?

A pesquisa levanta essa possibilidade, especialmente quando considera que os primeiros anos de vida são um período de intenso desenvolvimento.

Os autores sugerem que a alimentação nessa fase pode influenciar o metabolismo, o funcionamento dos órgãos e o sistema imunológico. Ao mesmo tempo, a exposição a diferentes sabores pode ajudar a formar preferências alimentares que permanecem durante a vida adulta.

Estudos anteriores que analisaram o mesmo período histórico também encontraram associações entre menor exposição ao açúcar na infância e menor risco posterior de diabetes tipo 2 e hipertensão.

Outras pesquisas relacionaram o mesmo episódio histórico a menores riscos de demência, doença de Alzheimer, doenças cardíacas e acidente vascular cerebral (AVC).

O estudo prova que o açúcar na infância causa câncer?

Não de forma isolada.

Embora os pesquisadores tenham usado o fim repentino do racionamento como uma espécie de experimento natural, a pesquisa não controlou todos os fatores que podem interferir na saúde ao longo de décadas.

Entre o consumo de açúcar nos primeiros anos de vida e o aparecimento de uma doença muitos anos depois, diversas mudanças podem acontecer: alimentação, atividade física, condições econômicas, ambiente, acesso à saúde e outros hábitos.

Por isso, os resultados devem ser entendidos como evidências de uma possível relação de longo prazo, e não como prova de que consumir determinada quantidade de açúcar antes dos 2 anos provocará ou evitará uma doença no futuro.

Qual era o nível de açúcar durante o racionamento?

Um detalhe importante ajuda a colocar o resultado em perspectiva.

Segundo informações citadas na análise do estudo, a quantidade de açúcar consumida durante o racionamento britânico era semelhante aos limites atualmente recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Isso significa que o cenário estudado não representa necessariamente uma infância sem açúcar. A comparação foi entre uma exposição relativamente menor e outra maior, depois que o racionamento terminou.

A pesquisa reforça, portanto, a importância de observar o açúcar na infância dentro de uma alimentação equilibrada, sem transformar os resultados em uma defesa de restrições extremas.

O estudo amplia a discussão sobre como a alimentação nos primeiros anos de vida pode estar relacionada à saúde décadas depois, mas novas pesquisas ainda são necessárias para entender exatamente quais mecanismos estão envolvidos.

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Sobre o autor
Gabriele de Paula é redatora, revisora editorial e publicadora no WordPress do SERTEP Notícias, responsável pela revisão, padronização editorial e publicação dos conteúdos, garantindo qualidade, clareza e conformidade com os padrões do portal.

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