As apostas em bets estão cada vez mais presentes entre adolescentes e jovens, mesmo sendo proibidas para menores de 18 anos no Brasil. O fácil acesso pelo celular, a publicidade e a associação das bets ao esporte são apontados por especialistas como fatores que aumentam a exposição desse público.
Uma pesquisa nacional divulgada em setembro de 2026 pela Frente Parlamentar Mista da Educação (FPME) mostrou que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio entrevistados já fizeram apostas online. O levantamento ouviu 1.912 alunos de 191 escolas de todo o país. Entre estudantes de 11 anos, 9,5% disseram já ter apostado, enquanto a proporção chegou a 49,7% entre os alunos do 3º ano do ensino médio.
Apesar da proibição legal, os dados mostram que o contato com as apostas em bets ocorre ainda durante a adolescência. Pela legislação brasileira, menores de 18 anos não podem participar de apostas de quota fixa.
Por que as apostas em bets atraem os jovens?
A facilidade de acesso está entre os principais fatores. Diferentemente dos jogos de azar que exigiam a ida a um estabelecimento físico, as apostas em bets podem ser feitas pelo celular, a qualquer momento.
O especialista em recuperação de jogadores Luiz Carlos, integrante da irmandade Jogadores Anônimos, afirma que tem recebido pessoas cada vez mais jovens em busca de ajuda. Segundo ele, já houve casos de adolescentes de 14 anos acompanhados por profissionais de saúde.
O relato é semelhante ao de Gustavo Pereira, que começou a fazer apostas online aos 18 anos. Aos 24, depois de seis anos de compulsão, ele afirma ter perdido cerca de R$ 500 mil.
Durante esse período, o jovem passou a associar grandes ganhos à possibilidade de continuar apostando. Segundo ele, chegou a transformar R$ 10 mil em centenas de milhares de reais, mas também perdeu todo o dinheiro.
Hoje, Gustavo está há cerca de dois meses sem apostar e tenta reconstruir a vida trabalhando com a venda de café nas ruas de Lages (SC). Ele também publica nas redes sociais conteúdos sobre sua experiência e sobre as dificuldades para evitar recaídas.
Apostas em bets podem afetar a vida financeira e emocional
O problema pode começar com valores considerados pequenos e crescer gradualmente. Quando a pessoa passa a apostar com frequência, pode comprometer parte da renda e tentar recuperar o dinheiro perdido fazendo novas apostas.
Esse comportamento pode criar um ciclo de perdas e novas tentativas de recuperação. Com o tempo, podem aparecer dívidas, conflitos familiares, problemas no trabalho ou nos estudos, ansiedade, alterações do sono e isolamento social.
Rogério, integrante do Jogadores Anônimos, conta que no início considerava as apostas em bets algo inofensivo. A percepção mudou quando os gastos começaram a comprometer o orçamento e o pagamento das contas.
Um relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) citado pela Agência Brasil estimou que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024 e que quase metade deles ficou endividada.
Especialistas ressaltam que apostar não significa necessariamente desenvolver um transtorno. O problema aparece quando o comportamento deixa de ser eventual, passa a ser difícil de controlar e começa a provocar prejuízos.
O cérebro do adolescente ainda está em desenvolvimento
A psicóloga Mariana Kehl explica que adolescentes podem ser mais vulneráveis aos estímulos relacionados às apostas em bets online porque o cérebro ainda está amadurecendo.
As regiões responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação das consequências continuam em desenvolvimento durante a adolescência. Ao mesmo tempo, experiências relacionadas a recompensa e prazer podem ter grande influência sobre o comportamento.
Isso não significa que todo adolescente que aposta desenvolverá dependência. A vulnerabilidade varia de pessoa para pessoa e também sofre influência de fatores familiares, sociais e individuais.
O problema está no contato precoce com um comportamento que pode envolver recompensas rápidas e perdas financeiras. Quanto mais cedo ocorrer a exposição, maior a necessidade de informação e supervisão por parte de adultos.
“Cassino no bolso” aumenta a exposição
Luiz Carlos, de 71 anos, começou a jogar na década de 1980, quando as máquinas de videopôquer eram uma das formas de jogo disponíveis. Hoje, segundo ele, existe uma diferença importante: o jogo pode acompanhar a pessoa durante todo o dia.
Para quem tem dificuldade de controlar o comportamento, o celular funciona como um acesso permanente às plataformas de apostas em bets online.
Essa disponibilidade também pode dificultar a percepção de que o jogo está ocupando espaço excessivo na rotina. A pessoa pode apostar durante o trabalho, os estudos, momentos de descanso ou até durante a madrugada.
Além disso, publicidade em redes sociais, transmissões esportivas e conteúdos produzidos por influenciadores contribui para manter as apostas em bets presentes no cotidiano.
Dívidas podem afetar os estudos e a carreira
Os prejuízos financeiros das apostas em bets online também podem interferir nos planos de educação e formação profissional.
Uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) apontou que 14% dos estudantes já matriculados em instituições particulares disseram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso devido aos gastos com bets. O levantamento também indicou que 34% dos potenciais ingressantes na graduação precisariam deixar de gastar com apostas para conseguir iniciar o curso.
Outros estudantes relataram deixar de investir em cursos, idiomas, academias e atividades físicas por causa do dinheiro destinado às apostas em bets online.
Para Paulo Chanan, diretor-geral da ABMES, os dados não permitem generalizar o comportamento de todos os jovens. Eles mostram, porém, que os gastos com apostas podem interferir em decisões importantes para uma parcela dos estudantes.
Apostas em bets são proibidas para menores de 18 anos
A participação de menores de 18 anos em apostas de quota fixa é proibida pela legislação brasileira. A regra também prevê medidas específicas de proteção para crianças e adolescentes.
Mesmo assim, a pesquisa com estudantes mostra que o acesso continua acontecendo.
O cenário também levou o governo a adotar novas regras para aumentar a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) entrou em vigor em março de 2026 e estabeleceu medidas relacionadas à verificação de idade, supervisão parental, publicidade e segurança em plataformas digitais.
A publicidade direcionada a crianças e adolescentes também passou a ter restrições específicas. Além disso, a legislação proíbe caixas de recompensa, conhecidas como loot boxes, em jogos eletrônicos direcionados a esse público ou de acesso provável por ele.
No setor de apostas, uma portaria interministerial publicada em 2026 também estabeleceu regras para publicidade e proibiu comunicações comerciais dirigidas a crianças e adolescentes.
Publicidade pode dificultar a percepção do risco
Outro ponto de preocupação é a forma como as apostas em bets são apresentadas na internet.
Quando uma bet aparece associada a partidas de futebol, celebridades ou influenciadores, o comportamento pode ser percebido como parte do entretenimento cotidiano. A psicóloga Mariana Kehl afirma que uma publicidade feita por alguém que o jovem acompanha regularmente pode ser recebida de maneira diferente de um anúncio tradicional.
O IBICT também identificou estratégias utilizadas em plataformas digitais para promover apostas ilegais e alcançar públicos jovens. Segundo o instituto, conteúdos desse tipo já foram observados em redes como YouTube, TikTok, Facebook e X.
As regras atuais tentam reduzir esse tipo de exposição. A publicidade de apostas de quota fixa está sujeita a normas específicas e não pode ser direcionada a crianças e adolescentes.
Como identificar quando o jogo virou um problema?
Nem todo jovem que teve contato com apostas em bets desenvolve dependência. Alguns sinais, porém, indicam que o comportamento merece atenção.
Dificuldade para parar de apostar, aumento frequente dos valores, tentativa de recuperar perdas com novas apostas e esconder o comportamento de familiares estão entre os sinais mais preocupantes.
Também merecem atenção mudanças na rotina, queda no desempenho escolar ou profissional, endividamento, isolamento, irritabilidade e uso do jogo como forma de lidar com problemas emocionais.
Quando os gastos começam a comprometer necessidades básicas, como alimentação, aluguel, estudos ou contas da casa, a situação exige atenção.
Família pode ajudar na busca por tratamento
Muitas pessoas com dependência em apostas em bets não reconhecem sozinhas que precisam de ajuda. Nesse momento, familiares e amigos podem observar mudanças, conversar sem humilhação ou ameaças e incentivar a procura por atendimento.
A abordagem pode começar com uma conversa aberta sobre o que está acontecendo e sobre os prejuízos provocados pelo jogo.
Também é importante estabelecer limites financeiros e impedir que novas dívidas sejam usadas para tentar recuperar perdas anteriores.
O tratamento pode envolver profissionais de saúde mental e diferentes estratégias, de acordo com as necessidades de cada pessoa. O acompanhamento da família também pode fazer parte desse processo.
Quando procurar ajuda urgente?
O sofrimento causado pelas apostas em bets pode ser intenso, especialmente quando existe endividamento, conflitos familiares e sensação de não encontrar saída.
Falas relacionadas à morte, à vontade de desaparecer ou à ideia de que a vida não vale a pena devem ser levadas a sério. Nessa situação, a pessoa não deve ficar sozinha e precisa de avaliação profissional.
O atendimento pode ser procurado em uma Unidade Básica de Saúde, Centro de Atenção Psicossocial (Caps) ou serviço de emergência.
Em situações de emergência médica, o Samu pode ser acionado pelo telefone 192.
O avanço das apostas em bets online entre jovens mostra que o problema não envolve apenas dinheiro. A facilidade de acesso, a publicidade e o contato cada vez mais precoce com as bets criam desafios para famílias, escolas, profissionais de saúde e órgãos públicos.
A prevenção depende de informação, acompanhamento e identificação dos primeiros sinais de perda de controle. Quanto antes o problema for reconhecido, maiores são as possibilidades de interromper o ciclo de prejuízos e buscar tratamento adequado.
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