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Campanha de conscientização sobre o autismo — SERTEP Notícias

Quando o corpo aprende a escutar

Na ausência da fala, o encontro pode começar pelo movimento, pelo ritmo e pela reciprocidade
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Quando o corpo aprende a escutar – Imagem: Arquivo

Por Ezequiel Reis (*)

Em alguns atendimentos, encontro crianças que não utilizam a fala como principal meio de comunicação. Algumas chegam ao espaço terapêutico produzindo movimentos repetitivos, vocalizações, gestos e ritmos corporais que, à primeira vista, parecem distantes das atividades estruturadas que planejamos para aquele encontro.

Durante algum tempo, uma pergunta começou a me acompanhar: como estabelecer uma comunicação quando a palavra não é o caminho disponível?

Na prática, percebi algo curioso.

Em vez de insistir imediatamente para que a criança entrasse na atividade que eu havia preparado, comecei, em alguns momentos, a fazer o movimento contrário: aproximar-me daquilo que ela já estava fazendo.

Se ela produzia determinado movimento, eu o reproduzia. Se aparecia uma vocalização, procurava responder ao seu ritmo. Se havia uma expressão corporal recorrente, algumas vezes eu a espelhava.

Não como caricatura. Não como uma tentativa de ridicularizar ou simplesmente reproduzir uma estereotipia. E também não como uma técnica aplicada mecanicamente.

Eu estava tentando dizer, com o meu próprio corpo:

“Eu percebi você.”

E foi justamente aí que algo começou a chamar minha atenção.

Em determinadas situações, depois de ser espelhada, a criança parecia perceber mais claramente a minha presença. Surgiam olhares, aproximações, pausas, mudanças no movimento, novas vocalizações. Às vezes, ela repetia novamente a ação e parecia esperar minha resposta.

Aquilo que antes parecia acontecer individualmente começava a adquirir uma característica diferente: reciprocidade.

Foi então que uma inquietação nascida da prática me levou à ciência.

Quando o adulto imita a criança

Existe uma linha de investigação sobre aquilo que a literatura denomina, entre outros termos, contingent imitation  ou imitação contingente.

Em 2006, Mikael Heimann, Karin Laberg e Brit Nordøen publicaram um estudo particularmente interessante com crianças autistas não verbais. Os pesquisadores observaram que uma interação na qual o adulto imitava as ações da criança estava associada ao aumento do interesse social e da imitação produzida pelas próprias crianças.

Outras pesquisas chegaram a resultados que dialogam com essa direção.

Angelica Escalona e colaboradores compararam situações em que um adulto imitava uma criança autista com situações nas quais respondia a ela de outras maneiras. O estudo encontrou diferenças em comportamentos sociais durante e após a interação, reforçando a hipótese de que ser imitado pode ter um papel particular na construção da atenção dirigida ao outro.

Essa linha de pesquisa também ajudou a sustentar abordagens como o Reciprocal Imitation Training, estudado por Brooke Ingersoll e colaboradores. Nesse modelo, a imitação é trabalhada em contextos naturais de interação, buscando ampliar reciprocidade, comunicação e habilidades sociocomunicativas.

Há algo particularmente interessante nisso tudo.

Normalmente, quando pensamos em imitação dentro de um contexto educativo ou terapêutico, pensamos na criança imitando o adulto.

“Olhe para mim.”

“Faça assim.”

“Repita.”

Mas esses estudos nos convidam, em determinadas situações, a inverter temporariamente essa lógica.

Antes de perguntar se a criança consegue entrar no nosso gesto, podemos experimentar reconhecer o gesto que ela já produz.

Um movimento pode se tornar uma resposta

Talvez seja justamente aqui que a psicomotricidade tenha muito a acrescentar a essa discussão.

Porque não estamos falando apenas de dois corpos executando movimentos semelhantes.

Estamos falando de ritmo, tempo, percepção, intencionalidade, espera, antecipação, afetividade e presença.

Imagine uma criança que balança repetidamente o corpo.

O terapeuta se aproxima e acompanha aquele balanço.

A criança muda o ritmo.

O terapeuta muda também.

A criança interrompe.

O terapeuta espera.

Ela recomeça.

Ele responde novamente.

Há algo novo acontecendo ali.

O movimento já não está isolado em apenas um corpo. Passou a existir dentro de uma relação.

E talvez uma das formas mais elementares de comunicação esteja justamente nessa descoberta:

“Quando eu faço algo, o outro responde.”

É dessa experiência de reciprocidade que podem nascer possibilidades importantes de interação.

O terapeuta pode, pouco a pouco, introduzir uma pequena pausa, alterar discretamente um ritmo, acrescentar outro movimento ou apresentar uma ação relacionada à proposta terapêutica.

Não se trata de utilizar um “truque” para obter obediência.

Trata-se de construir uma ponte.

E as chamadas estereotipias?

Esse talvez seja um dos pontos que exigem maior cuidado.

Movimentos repetitivos são frequentemente observados em pessoas autistas e podem assumir diferentes funções e significados. Podem estar relacionados, por exemplo, a processos de autorregulação, organização sensorial, excitação, ansiedade ou outras necessidades individuais.

Por isso, não seria adequado afirmar que toda estereotipia constitui uma tentativa de comunicação.

Mas também precisamos tomar cuidado com o movimento oposto: acreditar que todo comportamento repetitivo precisa necessariamente ser interrompido antes que a interação possa começar.

Dependendo da pessoa, do contexto e da função daquele comportamento, aquilo que inicialmente enxergamos apenas como repetição pode oferecer uma possibilidade de encontro.

A questão deixa de ser somente:

“Como faço para interromper esse movimento e trazer a criança para minha atividade?”

E pode passar a ser:

“O que esse corpo está fazendo neste momento e como posso estabelecer, a partir daqui, uma relação segura que permita ampliar suas possibilidades de interação?”

Essa mudança parece pequena.

Mas altera profundamente o lugar do terapeuta.

O corpo também escuta

Há crianças para as quais a primeira conversa com o terapeuta talvez não aconteça por meio de palavras.

Ela pode acontecer quando um corpo produz um ritmo e encontra outro corpo capaz de percebê-lo.

Quando um gesto encontra resposta.

Quando uma vocalização encontra eco.

Quando uma repetição encontra presença.

Nesse sentido, escutar é muito mais do que ouvir.

Também podemos escutar com o olhar, com o tempo que concedemos ao outro, com nossa postura, com nossos movimentos e com a capacidade de perceber aquilo que o outro consegue comunicar antes mesmo de conseguirmos nomear.

É uma escuta corporificada.

E talvez esteja aí uma das grandes potências da psicomotricidade: compreender que movimento não é simplesmente deslocamento de músculos e articulações no espaço.

O movimento carrega história, emoção, organização, relação e possibilidades de comunicação.

Nem tudo precisa ser explicado pelos “neurônios-espelho”

Seria tentador chegar até aqui e afirmar que tudo isso acontece simplesmente por causa dos conhecidos “neurônios-espelho”.

Mas a ciência nos pede mais prudência.

Imitação e interação social são fenômenos complexos que envolvem diferentes componentes motores, cognitivos, perceptivos e sociais.

Um estudo publicado em 2025 por Sean McWeeny e colaboradores, envolvendo mais de 700 crianças autistas e não autistas, investigou diferentes mecanismos associados à imitação. Os resultados apontam justamente para essa complexidade: aspectos relacionados à execução motora tiveram papel importante, juntamente com outros componentes sociais, cognitivos e executivos.

Talvez isso seja especialmente interessante para quem trabalha com psicomotricidade.

Não precisamos procurar uma única região cerebral que explique o encontro humano.

Podemos olhar para algo mais amplo:

corpo, percepção, ação, afeto e relação acontecendo ao mesmo tempo.

Antes de conduzir, encontrar

Continuo entrando no setting com objetivos terapêuticos. Continuo planejando atividades, observando respostas, estabelecendo propostas e buscando favorecer o desenvolvimento de cada criança.

Mas algumas experiências têm me ensinado que o planejamento não pode ser mais importante do que o encontro.

Há momentos em que, antes de conduzir aquele corpo até a atividade que organizei, preciso descobrir onde ele está.

E talvez esse seja o aprendizado mais significativo de todos.

Nem sempre a primeira tarefa do profissional é fazer com que o outro entre em nossa linguagem.

Às vezes, precisamos demonstrar que somos capazes de reconhecer a linguagem que ele já possui.

Quando isso acontece, um movimento pode encontrar outro movimento.

Depois pode surgir uma pausa.

Da pausa, uma expectativa.

Da expectativa, uma resposta.

Da resposta, uma troca.

E da troca pode nascer algo que nenhuma técnica produz sozinha: uma relação.

Talvez seja justamente por aí que alguns corpos comecem a conversar quando encontram diante de si outro corpo que, antes de querer ensinar, aprendeu a escutar.

(*) Ezequiel Reis é educador, capoeirista e presidente da Associação de Inclusão, Desporto e Educação (AIDÊ). Atua no desenvolvimento humano por meio da integração entre corpo, movimento, aprendizagem e vínculo, com especial dedicação ao acompanhamento de crianças e adolescentes no contexto da neurodiversidade. Atualmente cursa Pedagogia e escreve sobre educação, inclusão, cultura e desenvolvimento humano

 

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Referências para aprofundamento

Heimann, M.; Laberg, K. E.; Nordøen, B. (2006). Imitative interaction increases social interest and elicited imitation in non-verbal children with autism. Infant and Child Development, 15, 297–309.

Escalona, A.; Field, T.; Nadel, J.; Lundy, B. (2002). Brief report: Imitation effects on children with autism. Journal of Autism and Developmental Disorders, 32, 141–144.

Ingersoll, B.; Schreibman, L. (2006). Teaching reciprocal imitation skills to young children with autism using a naturalistic behavioral approach. Journal of Autism and Developmental Disorders, 36, 487–505.

McWeeny, S. et al. (2025). Mechanisms of Altered Imitation in Autism Spectrum Disorders. Autism Research.
Sobre o autor
A Redação do SERTEP Notícias é a equipe editorial responsável pela apuração, checagem e publicação das reportagens do portal — o braço de comunicação da SERTEP – Núcleo de Neurodiversidade. Especializada em saúde, neurodiversidade, inclusão e serviços públicos do Vale do Aço (MG), trabalha com fontes oficiais, checagem factual e linguagem clara, sempre com o beneficiário da notícia no centro. Conheça nossos padrões na Política Editorial.

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