A dificuldade para ouvir pode afetar mais do que a capacidade de acompanhar uma conversa. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) investigam a relação entre a perda auditiva, alterações cognitivas e problemas de equilíbrio.
O estudo acompanha 805 funcionários da universidade, submetidos a audiometrias e testes cognitivos que são repetidos a cada dois ou três anos. Os primeiros resultados indicam que participantes com perda auditiva apresentaram declínio cognitivo mais acelerado, segundo a fonoaudióloga Alessandra Sameli, que lidera a pesquisa.
A equipe também iniciou uma nova etapa para investigar se existe relação entre dificuldades para ouvir e alterações no equilíbrio.
Como a perda auditiva pode afetar o cérebro?
A audição depende de uma série de etapas. As ondas sonoras entram pelo ouvido, fazem o tímpano vibrar e passam pelos pequenos ossos do ouvido médio até chegar à cóclea, estrutura responsável por transformar os sons em sinais que seguem pelo nervo auditivo até o cérebro.
É no cérebro que essas informações são interpretadas.
Quando a audição é prejudicada, o cérebro pode precisar dedicar mais esforço para entender os sons recebidos. Segundo o otorrinolaringologista Luciano Moreira, uma redução nessa entrada de informações pode afetar habilidades relacionadas à linguagem.
A pesquisadora Alessandra Sameli também explica que o cérebro pode se reorganizar diante da perda auditiva, fazendo com que outras áreas sejam mais exigidas.
Dificuldade para ouvir pode levar ao isolamento
A perda auditiva também pode interferir na vida social.
Conversas em ambientes barulhentos, reuniões e situações com várias pessoas falando ao mesmo tempo podem se tornar mais difíceis. Com isso, algumas pessoas passam a evitar interações por vergonha de não compreender o que foi dito ou pelo esforço necessário para acompanhar a conversa.
Segundo a reportagem, um relatório da revista científica The Lancet estima que 7% dos casos de demência poderiam ser evitados caso a perda auditiva na meia-idade fosse eliminada como fator de risco.
Esse dado, porém, indica uma relação entre os fatores e não significa que toda pessoa com perda auditiva desenvolverá demência.
Perda auditiva também pode estar relacionada ao equilíbrio?
A possível relação entre audição e equilíbrio passou a ser investigada em uma nova etapa do estudo da USP.
Até o momento, os pesquisadores observaram que 13% dos participantes não conseguiram passar no teste de equilíbrio. Os piores resultados apareceram principalmente entre as pessoas que apresentavam perda auditiva nas frequências mais altas.
Essas frequências são justamente algumas das que costumam ser afetadas primeiro pelo processo de envelhecimento.
Uma possível explicação está na proximidade entre as estruturas responsáveis pela audição e pelo equilíbrio. A cóclea participa da audição, enquanto o sistema vestibular, localizado no ouvido interno, fornece informações importantes para manter a estabilidade do corpo.
Segundo Alessandra Sameli, alterações que afetam a cóclea também podem, em alguns casos, estar relacionadas a problemas de equilíbrio.
Ainda são necessários mais dados e acompanhamento por períodos maiores para determinar a relação entre essas alterações.
Aparelho auditivo pode ajudar?
O uso de aparelhos auditivos pode melhorar o acesso aos sons e facilitar a comunicação em situações do cotidiano. Outro possível benefício é ajudar a reduzir o isolamento provocado pela dificuldade para ouvir.
Segundo a reportagem, esses dispositivos podem ser fornecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas que atendam aos critérios do serviço.
Um exemplo citado é o de Sebastiana, que percebeu mudanças na rotina conforme sua audição piorou. Ela relatou ter ficado mais quieta e chegou a ser questionada pela irmã sobre a possibilidade de estar enfrentando um quadro de depressão.
Depois de começar a usar o aparelho auditivo, voltou a perceber sons que antes passavam despercebidos, como a água saindo da torneira e os próprios passos.
O caso mostra como a perda auditiva pode interferir não apenas na comunicação, mas também na percepção do ambiente e na participação em atividades cotidianas.
Quando procurar ajuda para problemas de audição?
Dificuldades frequentes para entender conversas, necessidade de aumentar constantemente o volume da televisão ou pedidos repetidos para que outras pessoas repitam o que disseram são sinais que merecem atenção.
A avaliação com um profissional pode identificar o grau da perda auditiva e investigar possíveis causas.
O diagnóstico também pode ajudar a definir quando o uso de aparelho auditivo, tratamento ou outras medidas são indicados.
Como proteger a audição?
A exposição frequente a sons muito altos pode provocar danos permanentes à audição. Segundo a reportagem, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 1 bilhão de pessoas entre 12 e 35 anos estejam sob risco de desenvolver problemas auditivos devido à exposição a volumes elevados.
Entre os cuidados apresentados estão manter o volume dos fones em até 60% da capacidade do aparelho e fazer pausas de cinco a dez minutos a cada hora de uso.
Também é importante ter períodos de silêncio ao longo do dia, especialmente após exposição prolongada a sons intensos.
Uma forma simples de perceber se o volume dos fones está alto demais é observar se uma pessoa a cerca de um braço de distância consegue conversar com quem está usando os fones e ser ouvida. Se isso não for possível, o volume pode estar excessivo.
Em shows, festas e ambientes de trabalho com máquinas barulhentas, o uso de proteção auditiva também pode ajudar a reduzir o risco de danos.
Os resultados da pesquisa da USP ainda estão em acompanhamento, mas reforçam a importância de olhar para a perda auditiva de forma mais ampla. Cuidar da audição pode contribuir não apenas para a comunicação, mas também para a autonomia, a participação social e a qualidade de vida.
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