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Escrever para aprender: quando as palavras também nos transformam

Escrever para aprender
Quando as palavras também nos transformam – Foto: Arquivo Pessoal

Atualizado em 22/07/2026.

Por Ezequiel Reis (*)

Muitas vezes pensamos que escrever serve apenas para registrar aquilo que já sabemos. Afinal, escrevemos para lembrar, comunicar ou compartilhar uma ideia. Mas, com o tempo, percebi que a escrita faz muito mais do que isso.

Ela participa da construção do nosso próprio pensamento.

Essa percepção mudou a maneira como passei a enxergar tudo o que escrevi ao longo da vida.

Essa reflexão surgiu a partir de uma frase simples que encontrei recentemente:

“Se você pensa demais, escreva. Se você pensa de menos, leia.”

À primeira vista, parece apenas uma frase de efeito. No entanto, quanto mais refletia sobre ela, mais percebia que carregava uma verdade importante.

Ao longo da minha caminhada como capoeirista e educador, escrevi cantigas, ladainhas, artigos, projetos, relatórios clínicos e até cartas de amor para minha esposa. Em comum, todos esses textos nasceram de experiências intensas.

Curiosamente, eles não apenas registraram momentos da minha vida.

Eles ajudaram a orientar a pessoa que eu me tornei.

Escrever também é pensar

Existe uma diferença entre ter uma ideia e conseguir escrevê-la.

Enquanto procuramos as palavras, somos obrigados a organizar lembranças, selecionar informações, estabelecer relações e atribuir significado ao que vivemos. Muitas vezes, aquilo que parecia apenas uma sensação ganha clareza durante o próprio processo de escrita.

É como se escrever fosse uma conversa silenciosa conosco.

Ao final dela, raramente somos exatamente a mesma pessoa que começou a primeira linha.

A escrita e a aprendizagem

A psicologia cognitiva e a neurociência têm demonstrado que processos como recuperação da memória, organização de narrativas e elaboração de significados favorecem a aprendizagem e a consolidação das experiências.

Quando escrevemos sobre algo vivido, revisitamos acontecimentos, reorganizamos emoções e fortalecemos conexões entre memória, linguagem e reflexão.

Talvez por isso algumas experiências só façam sentido depois que conseguimos escrevê-las.

Não porque a escrita invente o significado.

Mas porque ela nos ajuda a encontrá-lo.

O corpo aprende. A escrita também.

Na psicomotricidade, compreendemos que o corpo não é apenas um instrumento de movimento.

Ele é um lugar de experiências, relações e aprendizagens.

Cada gesto deixa marcas.

Cada interação reorganiza nossa maneira de agir no mundo.

Comecei a perceber que a escrita realiza um processo semelhante.

Assim como o movimento organiza o corpo, a linguagem organiza o pensamento.

E, quando escrevemos, organizamos a narrativa da nossa própria existência.

Quem escreve também é escrito

Talvez a maior descoberta dessa reflexão tenha sido compreender que não somos apenas autores dos nossos textos.

Com o tempo, nossos textos também se tornam autores de nós.

As palavras que escolhemos para interpretar uma experiência influenciam a forma como passaremos a lembrá-la, ensiná-la e vivê-la dali em diante.

Por isso, escrever vai muito além de produzir conteúdo.

É um exercício de formação humana.

É uma forma de aprender com a própria vida.

E talvez seja justamente por isso que tantos educadores, pesquisadores, artistas e filósofos mantiveram o hábito de escrever.

Não apenas para deixar um registro do que pensavam.

Mas para continuar construindo quem desejavam se tornar.

Reflexão final

Escrever não serve apenas para registrar pensamentos.

A escrita também participa da construção deles.

Veja também: como escrever um diário faz bem à saúde mental.

(*) Ezequiel Reis é educador, capoeirista e presidente da Associação de Inclusão, Desporto e Educação (AIDÊ). Atua no desenvolvimento humano por meio da integração entre corpo, movimento, aprendizagem e vínculo, com especial dedicação ao acompanhamento de crianças e adolescentes no contexto da neurodiversidade. Atualmente cursa Pedagogia e escreve sobre educação, inclusão, cultura e desenvolvimento humano
Sobre o autor
Educador e capoeirista, atua com práticas psicomotoras no acompanhamento de crianças e adolescentes, com foco em neurodiversidade, corpo e aprendizagem. Cursa Pedagogia. Escreve sobre paternidade, família e desenvolvimento infantil. Ver colunas.

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