Home / Colunistas / Ezequiel Reis / Quando o pai volta, a criança floresce

Quando o pai volta, a criança floresce

Desenvolvimento humano exige algo que vai além da provisão: presença – Imagem: Arquivo

Por Ezequiel Reis (*)

Há frases que permanecem conosco muito depois de serem ditas. Recentemente, durante a gravação do primeiro episódio da série “Psicomotricidade em Diálogo”, ouvi uma delas. Ao ser questionado sobre como a paternidade havia transformado sua atuação profissional, o Profissional de Educação Física, Júlio César, respondeu com a naturalidade de quem fala a partir da própria experiência: “Cada criança que eu atendo, eu penso que é o meu filho.”

À primeira vista, pode parecer apenas uma fala sensível. Mas, se olharmos com atenção, há ali algo muito maior: uma verdadeira transformação do olhar.

Vivemos em uma sociedade que, durante muito tempo, ensinou homens a prover, competir e resistir, mas nem sempre a cuidar, acolher e se vincular emocionalmente. Muitos pais aprenderam a demonstrar amor através do trabalho, do esforço silencioso e da responsabilidade financeira. Tudo isso é importante, sem dúvida. Mas desenvolvimento humano exige algo que vai além da provisão: presença.

E presença não significa apenas estar fisicamente perto.

Presença é vínculo.

É disponibilidade emocional.

É participação real na construção da vida cotidiana da criança.

Na prática clínica, vemos isso com frequência.

Há algum tempo, acompanhei um menino em nossas intervenções psicomotoras. Até então, ele demonstrava boa adesão às atividades, especialmente porque nossas sessões dialogavam com elementos da capoeira, linguagem corporal e cultural com a qual ele se identificava profundamente.

De forma repentina, porém, algo mudou.

As crises tornaram-se frequentes. A resistência para entrar no setting terapêutico aumentou. A irritabilidade passou a marcar sua postura. Em seus relatos, falava duramente sobre o pai, trazendo falas carregadas de rejeição.

Mas havia algo que não fechava.

A criança que eu conhecia não combinava com aquele comportamento.

Ao conversar com a mãe, percebi uma incongruência: a imagem paterna descrita por ela não correspondia ao retrato que o menino verbalizava. Aquilo me fez suspeitar de algo essencial; talvez não estivéssemos diante de rejeição, mas de sofrimento.

Propus então algo simples, mas significativo: que o pai passasse a levá-lo às terapias.

A mudança foi impressionante.

Em pouco tempo, o menino parecia outro. Sua regulação emocional melhorou, a resistência desapareceu e o vínculo terapêutico foi restaurado.

A verdade era dolorosa e, ao mesmo tempo, profundamente humana: ele não odiava o pai.

Sentia falta dele.

Seu sofrimento não se expressava em palavras organizadas como “estou com saudade” ou “preciso mais de você”. Como acontece com muitas crianças, a ausência apareceu em forma de sintoma.

O corpo falou antes da fala.

Tempos depois, recebi do pai um presente inusitado: uma linguiça artesanal produzida por ele.

Entre uma conversa e outra, ele me contou algo que me emocionou.

Decidiu deixar seu emprego para investir em uma produção artesanal própria. O motivo? Queria reorganizar sua rotina para estar mais presente na vida do filho.

Aquele gesto me marcou profundamente.

Naquele momento, a linguiça deixou de ser apenas um produto.

Ela se tornou símbolo.

Símbolo de renúncia.

De coragem.

De reinvenção.

De amor paterno.

Cada peça produzida carregava uma decisão invisível aos olhos de quem compra: um pai que escolheu estar mais perto.

E talvez essa seja uma das reflexões mais urgentes do nosso tempo.

Quando um pai se faz presente de maneira saudável, ele não transforma apenas a rotina da casa; ele impacta diretamente o desenvolvimento da criança.

A presença paterna favorece segurança afetiva, regulação emocional, autonomia, tolerância à frustração e construção da autoestima. Mais do que isso: ajuda a criança a organizar internamente a percepção de que ela é digna de atenção, cuidado e pertencimento.

Na psicomotricidade, compreendemos que o desenvolvimento não acontece de forma isolada. O corpo da criança responde continuamente à qualidade das relações que a cercam.

Por isso, muitas vezes, aquilo que parece ser apenas “comportamento difícil” pode ser, na verdade, um pedido silencioso de vínculo.

Talvez por isso a fala de Júlio tenha tocado tantas pessoas.

Quando ele diz que enxerga cada criança como se fosse seu próprio filho, ele não está apenas descrevendo empatia profissional.

Ele está revelando uma verdade profunda sobre o cuidado.

Desenvolvimento não floresce apenas por técnica.

Floresce em relações significativas.

Em vínculos seguros.

Em encontros que humanizam.

E talvez a maior lição seja esta:

Quando o pai volta; emocionalmente, afetivamente, relacionalmente; muitas vezes a criança também volta.

Volta a brincar.

Volta a confiar.

Volta a aprender.

Volta a florescer.

Porque, em muitos casos, o que parecia desorganização era apenas saudade pedindo colo em outra linguagem.

E o corpo, como sempre, já havia contado essa história antes das palavras.

(*) Ezequiel Reis é educador, capoeirista e atua com práticas psicomotoras no acompanhamento de crianças e adolescentes, com foco em neurodiversidade, corpo e aprendizagem. Atualmente cursa Pedagogia, aprofundando sua atuação no desenvolvimento humano por meio do movimento e do vínculo
Sobre o autor
A Redação do SERTEP Notícias é a equipe editorial responsável pela apuração, checagem e publicação das reportagens do portal — o braço de comunicação da SERTEP – Núcleo de Neurodiversidade. Especializada em saúde, neurodiversidade, inclusão e serviços públicos do Vale do Aço (MG), trabalha com fontes oficiais, checagem factual e linguagem clara, sempre com o beneficiário da notícia no centro. Conheça nossos padrões na Política Editorial.

Tags

Compartilhe

Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp
Email
Print