Por Kelly dos Reis Gomes (*)
No Grupo de Habilidades Sociais, ciência e diversão caminharam lado a lado para transformar momentos de interação em oportunidades reais de desenvolvimento. Por meio de um jogo de Verdade ou Desafio, crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) participaram, juntamente com seus familiares, de uma atividade cuidadosamente planejada com base nos princípios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), promovendo o desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e familiares.
A experiência teve início antes mesmo do jogo. Pais e filhos foram convidados a desenhar um ao outro e, em seguida, imaginar como seria o corpo humano por dentro. Enquanto surgiam no papel corações, pulmões, cérebros e outros órgãos, surgiram também reflexões importantes: como o nosso corpo funciona para nos manter vivos? E será que ele também responde às nossas emoções?
Essas perguntas permitiram que crianças e adultos percebessem que sentimentos como medo, alegria, vergonha e ansiedade provocam mudanças reais no organismo. Durante a atividade, questões como “Quando seu coração bate mais rápido?” e “O que faz você sentir frio na barriga?” estimularam os participantes a reconhecerem sinais físicos que, muitas vezes, passam despercebidos.
Na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), essas respostas automáticas do organismo são conhecidas como comportamentos respondentes. Batimentos cardíacos acelerados, alterações na respiração, tensão muscular e suor nas mãos são exemplos de respostas naturais do corpo diante de diferentes estímulos. Aprender a identificá-las contribui para o desenvolvimento da consciência corporal e da compreensão das próprias emoções.
Após esse momento de reflexão, o jogo apresentou uma série de desafios que incentivavam habilidades importantes para o cotidiano, como manter contato visual, controlar a respiração, identificar sons, perceber texturas, equilibrar-se, sustentar um sorriso, imitar expressões faciais e observar os próprios batimentos cardíacos.
Cada desafio foi estruturado para oferecer oportunidades de aprendizagem em um ambiente acolhedor e motivador. Ao receber incentivo, apoio e reconhecimento pelas tentativas realizadas, as crianças ampliavam sua participação e permaneciam engajadas na atividade. Na perspectiva da ABA, esse processo está relacionado aos comportamentos operantes, ou seja, comportamentos que tendem a ocorrer com maior frequência quando produzem consequências positivas.
Além do desenvolvimento das crianças, a atividade também proporcionou um momento de aprendizagem para as famílias. Durante toda a experiência, os pais puderam observar estratégias utilizadas pelos profissionais e compreender como pequenas mudanças na interação diária podem favorecer novas aprendizagens. Esperar alguns segundos antes de responder pela criança, valorizar tentativas, oferecer ajuda apenas quando necessário e elogiar comportamentos específicos são estratégias simples, mas fundamentadas em evidências científicas e capazes de promover maior autonomia.
Ao longo do encontro, muitos familiares passaram a utilizar essas estratégias espontaneamente, fortalecendo interações mais positivas e ampliando as possibilidades de aprendizagem também fora do ambiente terapêutico.
Todas as etapas da atividade foram planejadas para favorecer repertórios essenciais ao desenvolvimento, como reconhecimento das emoções, percepção das sensações corporais, comunicação de sentimentos, atenção compartilhada, contato visual, seguimento de instruções, flexibilidade comportamental, autocontrole, interação entre pais e filhos e fortalecimento dos vínculos familiares.
Mais do que cumprir desafios ou responder corretamente às perguntas, crianças e familiares compartilharam momentos de conexão, afeto e aprendizagem. A experiência demonstrou que, quando o brincar é estruturado com intencionalidade e fundamentação científica, ele deixa de ser apenas uma atividade recreativa e torna-se uma importante ferramenta para promover autonomia, fortalecer relações e desenvolver habilidades que acompanham a criança muito além do contexto terapêutico.
Afinal, quando ciência, família e brincadeira caminham juntas, cada interação pode se transformar em uma oportunidade de desenvolvimento.








