Por Kelly dos Reis Gomes (*)
O Dia dos Pais costuma ser marcado por homenagens, lembranças e atividades escolares carregadas de afeto. No entanto, para muitas crianças, essa data também pode despertar sentimentos difíceis, como tristeza, saudade, constrangimento ou exclusão.
A realidade das famílias brasileiras é diversa. Existem crianças que convivem com pai e mãe, outras que vivem apenas com a mãe, com os avós, tios, padrastos, madrastas, famílias adotivas, famílias homoafetivas ou outros cuidadores que exercem diariamente o papel de proteção, cuidado e educação. Há ainda aquelas que perderam o pai, que não possuem vínculo com ele ou que vivenciam situações de afastamento por diferentes motivos.
Diante dessa diversidade, cresce a necessidade de que escolas, clínicas, projetos sociais e demais espaços educativos desenvolvam práticas cada vez mais inclusivas, capazes de acolher todas as configurações familiares sem invisibilizar nenhuma criança.
A importância do pertencimento
A infância é um período em que o sentimento de pertencimento exerce papel fundamental no desenvolvimento emocional. Quando uma atividade pressupõe que todas as crianças possuem a mesma estrutura familiar, aquelas que vivem uma realidade diferente podem experimentar desconforto, vergonha ou isolamento.
Pequenas mudanças na forma de organizar as comemorações podem evitar sofrimento desnecessário e promover uma experiência mais acolhedora para todos.
Mais do que modificar uma atividade, trata-se de reconhecer que o cuidado pode ser exercido por diferentes pessoas e que os vínculos afetivos são construídos nas relações cotidianas.
Como tornar a comemoração mais inclusiva
- Ampliar o significado da homenagem
Uma alternativa é substituir o foco exclusivo no “Dia dos Pais” por propostas que valorizem quem exerce o papel de cuidado na vida da criança.
Celebrações como “Dia da Família”, “Dia de Quem Cuida de Mim” ou atividades voltadas às pessoas significativas permitem que cada criança escolha livremente quem deseja homenagear.
O objetivo deixa de ser a figura biológica do pai e passa a ser o reconhecimento das relações de afeto, proteção e cuidado.
- Permitir escolhas
Durante oficinas e produções de lembranças, é importante oferecer materiais que possam ser personalizados.
Em vez de cartões impressos com a frase “Para o meu Pai”, prefira modelos em branco, permitindo que a própria criança escreva o nome do destinatário.
Assim, ela pode dedicar sua produção à mãe, ao avô, à avó, ao padrasto, à madrinha, ao tio, a um irmão mais velho ou a qualquer pessoa que ocupe um papel significativo em sua vida.
Essa simples adaptação reduz constrangimentos e respeita diferentes histórias familiares.
- Utilizar uma linguagem acolhedora
A forma como os adultos apresentam a atividade faz diferença.
Expressões como:
“Escolha uma pessoa importante para você.”
“Quem cuida de você com carinho?”
“Quem você gostaria de homenagear hoje?”
costumam ser mais inclusivas do que perguntas centradas exclusivamente na figura paterna.
A linguagem cria oportunidades para que todas as crianças participem da atividade sem se sentirem diferentes das demais.
- Validar os sentimentos
Algumas crianças podem demonstrar tristeza, silêncio ou até recusar participar das atividades.
Nesses momentos, o mais importante é acolher suas emoções sem minimizar sua experiência.
Em vez de tentar convencer a criança de que “não precisa ficar triste”, o adulto pode reconhecer seu sentimento e ajudá-la a identificar outras pessoas que representam segurança, amor e proteção em sua vida.
O acolhimento emocional fortalece o vínculo e transmite a mensagem de que todas as formas de família merecem respeito.
- Planejar antes da comemoração
Conhecer previamente a composição familiar do grupo é uma estratégia importante.
Esse levantamento permite que professores, terapeutas e equipes pedagógicas organizem atividades adequadas à realidade das crianças atendidas, evitando exposições involuntárias ou situações constrangedoras.
O planejamento demonstra cuidado não apenas com a atividade, mas principalmente com o bem-estar emocional de cada participante.
Um compromisso com a inclusão
Celebrar o Dia dos Pais não significa ignorar a diversidade das famílias. Pelo contrário, representa uma oportunidade de ensinar respeito, empatia e valorização dos vínculos afetivos.
Quando o foco deixa de ser apenas um modelo tradicional de família e passa a reconhecer todas as formas legítimas de cuidado, cada criança encontra espaço para participar da comemoração sem precisar esconder sua própria história.
A inclusão começa nos pequenos detalhes: na escolha das palavras, na organização das atividades e, sobretudo, na sensibilidade dos adultos em reconhecer que toda criança merece sentir que pertence ao grupo.
Porque, no fim das contas, o que realmente transforma uma vida não é apenas quem ocupa o lugar de pai, mas quem está presente oferecendo amor, proteção, cuidado e segurança.








