O autismo pode trazer desafios específicos durante consultas oftalmológicas, principalmente quando o ambiente e a forma de conduzir o atendimento não estão adaptados às necessidades da criança. Hipersensibilidade a sons, luzes e toques, dificuldade diante de mudanças na rotina e resistência ao uso de óculos ou tampão estão entre as situações que podem dificultar os exames.
A oftalmologista Raíra Fortuna afirma que cerca de 40% das crianças com transtorno do espectro autista (TEA) apresentam transtornos de ansiedade associados. Ao mesmo tempo, menos de 4% dos médicos especialistas relatam ter recebido algum tipo de capacitação para atender pacientes no espectro.
Segundo a médica, comportamentos que costumam ser interpretados como desobediência ou “mau comportamento” podem, na verdade, ser uma reação à confusão ou à sobrecarga causada pelo ambiente.
“É a manifestação do autismo em um ambiente pouco adaptado”, afirma.
Quando isso acontece, o exame pode ficar mais difícil ou até não ser concluído. O problema merece atenção porque o acompanhamento oftalmológico é importante para identificar e tratar alterações na visão.
Estudos citados durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia apontam que o estrabismo pode atingir cerca de 41% das crianças com TEA, em comparação com aproximadamente 3% entre crianças com desenvolvimento típico.
Como preparar o atendimento de crianças com autismo
Durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, realizado em Salvador de 9 a 12 de setembro, Raíra apresentou estratégias para tornar a consulta mais previsível e reduzir situações de sobrecarga.
A preparação começa antes mesmo de a criança chegar ao consultório. Segundo a especialista, algumas medidas podem facilitar esse processo:
- Agendamento: escolher um horário em que a criança possa esperar menos e o ambiente esteja mais tranquilo.
- Questionário antes da consulta: buscar informações com os responsáveis sobre a forma de comunicação da criança, sensibilidades, interesses e situações que podem causar desconforto.
- Antecipação: enviar vídeos ou imagens curtas mostrando o consultório e os equipamentos que serão utilizados pode ajudar a criança a saber o que encontrará no local.
Ambiente adaptado pode reduzir a sobrecarga
Durante a consulta, pequenas mudanças podem fazer diferença para crianças com autismo. A orientação é reduzir estímulos desnecessários e respeitar as características individuais de cada paciente.
Entre as estratégias estão oferecer uma sala de espera mais tranquila ou permitir que a criança aguarde fora dela, diminuir ruídos e possibilitar o uso de fones de ouvido.
Também pode ser útil reduzir a intensidade das luzes, evitar iluminação fluorescente e permitir que a criança leve um objeto familiar ou brinquedo que ajude a deixá-la mais confortável.
O objetivo não é criar um atendimento completamente diferente, mas diminuir estímulos que possam dificultar a realização do exame.
Comunicação deve ser clara e previsível
A forma de falar com a criança também pode facilitar o atendimento. A recomendação é usar frases curtas e objetivas, explicar previamente o que será feito e mostrar os equipamentos antes de utilizá-los.
A criança também precisa de tempo para processar as informações. Sempre que possível, podem ser oferecidas pequenas escolhas, como decidir qual olho será examinado primeiro.
Outra estratégia é fazer pausas entre os procedimentos e avisar antes de tocar na criança, evitando contato físico inesperado.
A médica também recomenda começar pelos exames que exigem maior concentração enquanto a criança ainda está mais disponível para colaborar.
“Quando o exame não funciona, talvez o problema esteja nas formas como estamos examinando”, avalia Raíra.
Toda a equipe precisa estar preparada
Para a especialista, a adaptação não deve depender apenas do oftalmologista. Recepcionistas, enfermeiros e outros profissionais envolvidos no atendimento também precisam saber como lidar com as necessidades de pacientes com autismo.
Essa preparação pode reduzir situações de estresse, facilitar a realização dos exames e melhorar a experiência da criança e da família.
O atendimento adaptado é especialmente importante porque algumas alterações oculares podem ser mais frequentes em crianças com TEA. Por isso, encontrar maneiras de realizar os exames de forma mais confortável pode contribuir para que o acompanhamento da saúde dos olhos não seja interrompido.
Com informações da Agência Brasil. A repórter viajou a convite do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).
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