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Campanha de conscientização sobre o autismo — SERTEP Notícias

Diagnósticos de TDAH e autismo aumentam: o que está por trás desse crescimento?

Diagnósticos de TDAH e autismo aumentam
Diagnósticos de TDAH e autismo aumentam. Imagem: Tara Winstead/Pexels
🧠 Informação educativa
As informações deste conteúdo têm caráter educativo e não substituem avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissionais habilitados.

Os diagnósticos de TDAH e autismo aumentaram significativamente nas últimas décadas, mas esse crescimento não significa, necessariamente, que mais pessoas estejam desenvolvendo essas condições. A maior conscientização, as mudanças nos critérios de avaliação e a identificação de pessoas que antes passavam anos sem diagnóstico ajudam a explicar esse cenário. Ao mesmo tempo, especialistas alertam que muitas pessoas continuam sem acesso ao acompanhamento necessário.

Uma revisão independente sobre saúde mental publicada no Reino Unido aponta que os transtornos mentais comuns se tornaram mais frequentes entre jovens de 16 a 24 anos. Em 1993, aproximadamente um em cada seis jovens apresentava essas condições. Em 2024, a proporção chegou a um em cada quatro.

O relatório, liderado pelo professor Peter Fonagy, também identificou um crescimento expressivo dos diagnósticos de TDAH e autismo em determinadas faixas etárias. Os registros de autismo aumentaram mais de 20 vezes, enquanto os de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) cresceram mais de seis vezes.

Os dados, porém, não permitem concluir que todo esse aumento representa novos casos ou que os diagnósticos estejam sendo feitos de forma excessiva. Para os especialistas, é necessário avaliar tanto a qualidade das avaliações quanto as dificuldades de acesso aos serviços de saúde.

Por que os diagnósticos de TDAH e autismo aumentaram?

O crescimento dos diagnósticos de TDAH e autismo está relacionado a diferentes fatores. Entre eles estão a maior divulgação de informações sobre essas condições, a ampliação das estratégias de identificação e as mudanças nos critérios utilizados pelos profissionais de saúde.

No caso do autismo, uma alteração importante ocorreu em 2013, com a publicação da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). A atualização ampliou a compreensão do transtorno do espectro autista (TEA), reunindo manifestações que podem variar de intensidade e incluir dificuldades na comunicação e na interação social, além de padrões restritos ou repetitivos de comportamento.

Com isso, pessoas que antes poderiam não preencher os critérios para receber diagnósticos de TDAH e autismo passaram a ser reconhecidas dentro do espectro. Essa mudança ajuda a explicar parte do crescimento dos diagnósticos de TDAH e autismo, mas não é suficiente para determinar se a prevalência dessas condições também aumentou.

O psiquiatra infantil Guilherme Polanczyk, professor da Universidade de São Paulo (USP), explica que a mudança nos critérios dificulta a comparação direta entre os números atuais e os registros de décadas anteriores.

O neurologista infantil Felipe Kalil, professor da Escola de Medicina da PUC-RS, acrescenta que o avanço das avaliações e a identificação de pessoas que antes passavam despercebidas também ajudam a explicar o crescimento.

Ainda assim, os especialistas não descartam a possibilidade de que parte do aumento esteja relacionada a uma elevação real da prevalência dessas condições. As evidências disponíveis, porém, não permitem determinar com precisão quanto cada fator contribui para os números observados.

Há excesso de diagnósticos de TDAH e autismo?

O aumento dos diagnósticos de TDAH e autismo alimenta o debate sobre possíveis avaliações excessivas. Entretanto, especialistas ressaltam que o excesso e a falta de diagnósticos podem ocorrer ao mesmo tempo, dependendo da região, do grupo populacional e do acesso aos serviços de saúde.

Em determinados contextos, o número de pessoas diagnosticadas ou tratadas pode superar estimativas de prevalência. Isso pode indicar situações que merecem investigação, mas não comprova, por si só, que todos os diagnósticos sejam inadequados.

Polanczyk cita estudos realizados nos Estados Unidos que encontraram taxas de uso de medicamentos estimulantes superiores às estimativas de prevalência do TDAH em alguns grupos. Esses resultados podem indicar excesso de tratamento em determinados contextos, mas não devem ser generalizados para toda a população.

Por outro lado, muitas pessoas que apresentam sintomas e dificuldades significativas continuam sem avaliação ou acompanhamento. Portanto, o crescimento dos diagnósticos de TDAH e autismo precisa ser analisado junto com os dados sobre pessoas que permanecem sem assistência.

No Brasil, estimativas de pesquisas conduzidas pelo grupo de Polanczyk em São Paulo e Porto Alegre, há cerca de cinco anos, indicaram que aproximadamente 80% dos adolescentes com diagnóstico de transtorno mental não recebiam tratamento.

O cenário reforça que a discussão não deve se limitar à quantidade de diagnósticos. Também é necessário verificar se as avaliações são adequadas e se as pessoas que precisam de ajuda conseguem recebê-la.

Como um diagnóstico equivocado pode prejudicar crianças e adolescentes?

A identificação de sinais de TDAH ou autismo pode ajudar famílias a buscar orientação profissional. No entanto, apresentar algumas características dessas condições não significa, necessariamente, ter um transtorno.

O diagnóstico exige uma avaliação clínica que considere a história do desenvolvimento, os sintomas, a frequência com que aparecem e o impacto na vida cotidiana. Questionários e ferramentas de triagem podem ajudar a identificar sinais de alerta, mas não substituem uma avaliação profissional.

Segundo Kalil, um diagnóstico inadequado pode gerar rotulação, ansiedade, intervenções desnecessárias e interpretações equivocadas sobre as dificuldades de uma criança ou adolescente.

No caso do TDAH, um diagnóstico incorreto também pode levar ao uso de medicamentos sem indicação clínica apropriada. Embora esses medicamentos possam trazer benefícios quando prescritos corretamente, eles também podem provocar efeitos adversos.

O excesso de avaliações e intervenções desnecessárias ainda pode consumir recursos que seriam importantes para pessoas com necessidades mais urgentes.

Por isso, o objetivo não deve ser aumentar ou reduzir artificialmente os diagnósticos de TDAH e autismo, mas identificar corretamente quem precisa de acompanhamento. A avaliação deve considerar cada pessoa, evitando tanto a interpretação de dificuldades comuns como transtornos quanto a desconsideração de sintomas persistentes.

A falta de diagnóstico também traz consequências

Se o diagnóstico equivocado pode causar prejuízos, a ausência de identificação também pode afetar o desenvolvimento e a qualidade de vida.

Crianças e adolescentes com TDAH ou autismo que não recebem o apoio adequado podem enfrentar dificuldades de aprendizagem, comunicação, interação social e adaptação ao ambiente escolar.

Em alguns casos, essas dificuldades são interpretadas como falta de esforço, desinteresse ou indisciplina. Ao longo do tempo, isso pode prejudicar a autoestima, as relações sociais e a trajetória educacional.

No autismo, intervenções iniciadas precocemente podem favorecer o desenvolvimento da comunicação e de habilidades sociais, desde que sejam adequadas às necessidades de cada criança.

Na vida adulta, algumas pessoas descobrem que apresentam autismo ou TDAH depois de anos tentando compreender dificuldades que enfrentaram na escola, no trabalho ou nos relacionamentos.

O diagnóstico tardio pode ajudar a explicar essas experiências e orientar formas de apoio. Entretanto, a avaliação deve ser cuidadosa, independentemente da idade em que ocorre.

Diagnósticos de TDAH e autismo não deveria ser a única forma de conseguir apoio

A revisão britânica recomenda mudanças na maneira como os serviços de saúde, educação e assistência social oferecem atendimento. Uma das propostas é permitir que as pessoas recebam apoio com base nas dificuldades que apresentam, mesmo antes de obter um diagnóstico formal.

Na prática, isso poderia facilitar o acesso a adaptações escolares, orientação e outros tipos de assistência sem exigir que todas as necessidades sejam comprovadas por um diagnóstico médico.

O relatório também destaca que o reconhecimento formal de TDAH ou autismo pode facilitar o acesso a benefícios, adaptações em provas, recursos educacionais e ajustes no ambiente de trabalho.

Quando esses recursos dependem exclusivamente de um diagnóstico, algumas pessoas podem enfrentar barreiras para conseguir ajuda. Ao mesmo tempo, essa exigência pode aumentar a procura por avaliações e contribuir para o crescimento dos diagnósticos de TDAH e autismo.

A proposta não elimina a importância do diagnóstico clínico. A ideia é evitar que ele seja a única porta de entrada para qualquer tipo de apoio, garantindo que as necessidades individuais também sejam consideradas.

O que os dados mostram sobre diagnósticos de TDAH e autismo no Brasil?

No Brasil, os dados disponíveis ainda apresentam limitações para medir a prevalência de autismo e TDAH em toda a população.

O Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou aproximadamente 1,2% da população brasileira com diagnósticos de TDAH e autismo.

Esse percentual corresponde às pessoas que declararam ter recebido o diagnóstico e não deve ser interpretado, necessariamente, como a prevalência total do autismo no país. Pessoas que ainda não foram avaliadas ou diagnosticadas podem não aparecer nesse levantamento.

Os especialistas também destacam que o acesso desigual aos serviços de saúde influencia a quantidade de diagnósticos registrados. Regiões com mais profissionais e serviços especializados podem identificar mais pessoas, sem que isso signifique, necessariamente, uma prevalência maior da condição.

Por isso, os números precisam ser analisados considerando as diferenças regionais e as limitações dos métodos utilizados para coletar as informações. O crescimento dos diagnósticos de TDAH e autismo, isoladamente, não permite medir quantas pessoas apresentam essas condições em toda a população brasileira.

Inteligência artificial pode ajudar na saúde mental?

A revisão também avaliou o uso de tecnologias digitais e inteligência artificial no atendimento em saúde mental. Essas ferramentas podem ampliar o acesso a informações e contribuir para algumas etapas da assistência, mas não devem substituir profissionais de saúde.

Segundo o relatório, intervenções digitais acompanhadas por profissionais tendem a apresentar resultados melhores do que aquelas utilizadas sem orientação. Também existem dificuldades para manter o envolvimento dos usuários em tratamentos digitais por períodos prolongados.

Outro risco é o uso de sistemas automatizados para definir prioridades de atendimento sem considerar adequadamente as necessidades individuais.

Uma ferramenta pode apresentar bom desempenho técnico e, ainda assim, não melhorar o acesso ao tratamento se utilizar critérios muito restritos para selecionar os pacientes.

Além disso, sistemas de inteligência artificial treinados com dados históricos podem reproduzir desigualdades que já existem nos serviços de saúde.

O relatório recomenda que as tecnologias utilizadas com finalidade clínica sejam avaliadas de acordo com critérios de segurança e eficácia. Em situações de risco, a inteligência artificial não deve ser a única forma de assistência oferecida.

Mais diagnósticos de TDAH e autismo exigem melhor acesso ao tratamento

A revisão britânica mostra que o crescimento dos diagnósticos de TDAH e autismo precisa ser analisado em conjunto com as mudanças nos critérios clínicos, a maior conscientização e as dificuldades de acesso ao atendimento.

Embora possa haver diagnósticos excessivos em determinados contextos, muitas pessoas continuam sem identificação ou assistência adequada. Por isso, especialistas defendem avaliações criteriosas, serviços mais acessíveis e formas de apoio que considerem as necessidades individuais.

A ampliação do atendimento também depende de recursos financeiros, profissionais qualificados e integração entre saúde, educação e assistência social.

O principal desafio de diagnósticos de TDAH e autismo é garantir que as pessoas que precisam de ajuda sejam identificadas corretamente e recebam acompanhamento em tempo adequado, sem transformar dificuldades comuns do desenvolvimento em transtornos nem deixar condições reais sem atendimento.

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Sobre o autor
Gabriele de Paula é redatora, revisora editorial e publicadora no WordPress do SERTEP Notícias, responsável pela revisão, padronização editorial e publicação dos conteúdos, garantindo qualidade, clareza e conformidade com os padrões do portal.

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