Cientistas estão desenvolvendo vacinas experimentais que podem ajudar a prevenir o câncer de intestino antes que ele se forme, em vez de tratar apenas um tumor já desenvolvido. As pesquisas são voltadas principalmente para pessoas com síndrome de Lynch, uma condição genética hereditária que aumenta de forma significativa o risco de câncer colorretal e de outros tumores.
Pelo menos três vacinas contra câncer associado à síndrome de Lynch estão em desenvolvimento. Duas já entraram nas primeiras fases de testes clínicos nos Estados Unidos, enquanto uma terceira começou a ser estudada no Reino Unido.
Os primeiros resultados são considerados promissores, mas ainda não permitem afirmar que as vacinas sejam capazes de evitar o câncer. Os estudos continuam para avaliar segurança e eficácia em grupos maiores de participantes.
O que é a síndrome de Lynch?
A síndrome de Lynch é causada por alterações hereditárias em genes responsáveis pelo reparo de erros no DNA.
Esses genes funcionam como um sistema de correção que ajuda a identificar e consertar alterações que surgem quando as células se multiplicam. Quando um deles não funciona adequadamente, erros podem se acumular e aumentar a possibilidade de formação de tumores.
O câncer de intestino é uma das principais consequências da síndrome.
Enquanto o risco de uma pessoa da população geral desenvolver esse tipo de câncer ao longo da vida é estimado em cerca de 5%, o risco entre pessoas com síndrome de Lynch pode chegar a 80%, dependendo do gene alterado.
A condição também está associada a maior risco de câncer de endométrio, ovário, estômago, pâncreas e alguns tipos de tumores de pele e do cérebro.
Por que pessoas com síndrome de Lynch fazem colonoscopia com frequência?
Como o risco de câncer é maior, pessoas com síndrome de Lynch costumam ser orientadas a realizar colonoscopias regularmente, muitas vezes uma vez por ano.
O exame permite encontrar pólipos e outras lesões que podem se transformar em câncer de intestino ou outros tipos da doença. Quando essas alterações são identificadas, elas podem ser retiradas antes de evoluírem.
As novas vacinas estão sendo estudadas justamente como uma possível forma de acrescentar uma camada de proteção ao acompanhamento já realizado.
A proposta é estimular o sistema imunológico para que ele reconheça alterações celulares relacionadas à síndrome e ataque essas células ainda em uma fase anterior ao câncer de intestino.
Como uma vacina pode prevenir o câncer?
O desenvolvimento dessas vacinas funciona de maneira diferente das vacinas tradicionais contra doenças infecciosas.
Vacinas contra HPV e hepatite B, por exemplo, ajudam a prevenir infecções por vírus que podem aumentar o risco de alguns tipos de câncer.
No caso da síndrome de Lynch, a estratégia é outra. As lesões pré-cancerosas podem acumular diversas mutações que fazem as células produzirem proteínas diferentes das encontradas em células normais.
Essas proteínas podem servir como alvos para o sistema imunológico e um risco para o desenvolvimento do câncer de intestino.
A ideia é ensinar as células de defesa a reconhecer essas características e destruir as células alteradas antes que elas evoluam para um tumor.
Primeiros testes apresentaram resultados promissores
Um dos estudos iniciais contou com 45 pessoas com síndrome de Lynch, incluindo a médica Stacy Norton, que perdeu a mãe para o câncer de intestino quando tinha 7 anos e posteriormente descobriu que também carregava a alteração genética associada à síndrome.
A vacina utilizada nesse estudo foi desenvolvida pela empresa suíça de biotecnologia Nouscom.
O tratamento foi planejado para estimular o sistema imunológico contra 209 alterações encontradas em lesões pré-cancerosas relacionadas à síndrome de Lynch.
Segundo os resultados apresentados pelos pesquisadores, a vacinação aumentou a atividade de células T, que participam da identificação e destruição de células anormais.
Um ano depois, exames de colonoscopia mostraram menos lesões pré-cancerosas e nenhum pólipo avançado entre os participantes avaliados.
Os pesquisadores consideraram os resultados suficientes para planejar um estudo maior, que deverá envolver um número mais amplo de pessoas com risco a câncer de intestino.
Oxford também testa uma vacina contra essas lesões
Pesquisadores da Universidade de Oxford também iniciaram testes de uma estratégia semelhante.
Nesse caso, a vacina foi desenvolvida pela Moderna e utiliza tecnologia de RNA mensageiro, a mesma plataforma utilizada pela empresa em sua vacina contra a Covid-19.
A proposta também é estimular o sistema imunológico a reconhecer alterações presentes em células pré-cancerosas associadas à síndrome de Lynch.
Outro estudo, conduzido com a vacina Tri-Ad5, da empresa ImmunityBio, está avaliando a estratégia em comparação com placebo.
Esses diferentes trabalhos procuram responder à mesma questão: será possível estimular o sistema imunológico a impedir que lesões associadas à síndrome de Lynch avancem para um câncer de intestino?
Vacina contra câncer de intestino poderia substituir a colonoscopia?
Ainda não. Os resultados disponíveis são iniciais e não mostram que as vacinas contra câncer de intestino e outros tipos da doença possam substituir as colonoscopias ou outros cuidados indicados para pessoas com síndrome de Lynch.
Mesmo quando os participantes apresentam menos pólipos, ainda é necessário acompanhar os pacientes por mais tempo para saber se isso realmente resulta em uma redução dos casos de câncer e das mortes provocadas pela doença.
Para pessoas com a síndrome, o acompanhamento médico continua sendo fundamental.
Síndrome de Lynch pode ajudar a explicar casos de câncer em pessoas jovens?
A condição chama atenção também por estar relacionada ao surgimento de câncer em idades mais precoces.
Nos Estados Unidos, cerca de 158 mil pessoas são diagnosticadas com câncer colorretal por ano, segundo os dados apresentados na publicação. Embora a maioria dos casos ainda ocorra em pessoas com mais de 50 anos, o número de diagnósticos entre adultos mais jovens vem aumentando.
Ainda não está claro quanto a síndrome de Lynch participa desse crescimento, já que existem outros fatores envolvidos no aumento do câncer colorretal entre pessoas mais novas.
A condição afeta aproximadamente 1 em cada 279 pessoas, mas muitas não sabem que possuem a alteração genética.
Quando fazer teste genético?
O teste genético pode ser considerado principalmente quando existe histórico familiar de câncer associado à síndrome de Lynch ou quando determinados tipos de tumor aparecem em idade mais jovem.
A identificação da alteração pode ser importante não apenas para a própria pessoa, mas também para parentes próximos, que podem ter herdado a mesma mutação.
Quando a síndrome é confirmada, o acompanhamento pode ser intensificado para aumentar as chances de encontrar alterações precocemente.
Quais sinais de câncer de intestino merecem atenção?
Independentemente da idade ou da presença da síndrome de Lynch, alguns sintomas devem ser investigados.
Entre eles estão:
- Sangue nas fezes ou sangramento pelo reto;
- Diarreia persistente;
- Prisão de ventre que não melhora;
- Alteração prolongada no formato das fezes;
- Perda de peso sem explicação;
- Cólicas ou dor abdominal persistente.
Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas precisam ser avaliados quando persistem.
As vacinas em estudo representam uma nova possibilidade na prevenção de tumores relacionados à síndrome de Lynch, especialmente por tentar agir antes da formação do câncer de intestino. Por enquanto, porém, a tecnologia ainda está em fase de pesquisa e não substitui o acompanhamento médico e os exames recomendados para quem apresenta risco elevado.
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