Um medicamento já utilizado no tratamento de alguns tipos de câncer apresentou resultados promissores contra células infectadas por um vírus semelhante ao HIV em um estudo com macacos. O venetoclax, usado em combinação com a terapia antirretroviral, reduziu de forma rápida e prolongada o chamado reservatório viral, formado por células que permanecem infectadas mesmo quando o vírus está controlado pelos medicamentos.
O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade Emory, nos Estados Unidos, e publicado em 3 de setembro na revista Nature Microbiology. Os resultados ainda são pré-clínicos e não significam que o medicamento já possa ser usado para tratar o HIV com esse objetivo em pessoas.
Como o venetoclax pode ajudar no tratamento do HIV
O HIV infecta principalmente células do sistema imunológico chamadas linfócitos T CD4. A terapia antirretroviral consegue impedir que o vírus se multiplique, mas algumas células infectadas permanecem no organismo em estado de latência.
Esse reservatório é considerado um dos principais obstáculos para a cura do HIV, porque o vírus pode voltar a se multiplicar caso o tratamento seja interrompido.
O venetoclax bloqueia uma proteína chamada BCL-2, que ajuda a manter as células vivas. A proteína também participa da sobrevivência de algumas células infectadas pelo HIV.
A ideia dos pesquisadores é que, ao bloquear a BCL-2, o medicamento torne essas células mais suscetíveis à eliminação pelo organismo durante o uso da terapia antirretroviral.
Estudo encontrou redução de células infectadas
Os testes foram realizados em 24 macacos rhesus infectados com o vírus da imunodeficiência símia (SIV), utilizado como modelo para estudar mecanismos relacionados ao HIV.
Os animais receberam terapia antirretroviral isoladamente ou em combinação com dez doses diárias de venetoclax. Após o tratamento, os pesquisadores acompanharam os animais por até 294 dias.
Nos macacos que receberam a combinação, houve uma redução significativa das células que continham material genético viral intacto no sangue. O efeito também foi observado nos linfonodos, estruturas que fazem parte do sistema imunológico.
A quantidade de células infectadas permaneceu menor durante o acompanhamento, indicando que o efeito não desapareceu imediatamente depois do fim das doses de venetoclax. O medicamento, porém, não eliminou completamente o reservatório.
Por que o reservatório viral é tão importante?
Mesmo com a carga viral indetectável, algumas células podem permanecer infectadas. A terapia antirretroviral impede a multiplicação do HIV, mas não consegue eliminar todas essas células.
Por isso, uma das principais linhas de pesquisa em busca de uma cura é encontrar maneiras de atingir o reservatório sem causar danos ao organismo.
Os pesquisadores afirmam que os resultados com o venetoclax dão suporte à investigação de medicamentos que bloqueiem a BCL-2 como parte de futuras estratégias para reduzir a persistência do HIV.
Venetoclax ainda precisa ser testado em pessoas
Apesar dos resultados em macacos, ainda não é possível afirmar que o venetoclax será eficaz ou seguro para reduzir o reservatório do HIV em seres humanos.
Dois estudos clínicos já estão em andamento para avaliar o medicamento em pessoas que vivem com HIV. Um deles, registrado no ClinicalTrials.gov, é um estudo de fase 1 que investiga a segurança e o efeito do venetoclax em pessoas que estão iniciando a terapia contra o HIV. Outro ensaio também avalia o medicamento em pessoas que já fazem tratamento antirretroviral.
A pesquisa da Universidade Emory (EU), portanto, representa uma etapa experimental. Novos estudos serão necessários para determinar se a redução do reservatório observada nos animais poderá ser reproduzida em seres humanos e se isso poderá contribuir, no futuro, para estratégias de cura do HIV.
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