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TDAH nas meninas: por que o diagnóstico chega tarde

TDAH nas meninas passa despercebido: veja o que é o masking, os sinais da desatenção e como buscar um diagnóstico seguro.
Menina concentrada em aula, simbolizando a luta das que vivem com TDAH sem diagnóstico — Imagem: IA
🧠 Informação educativa
As informações deste conteúdo têm caráter educativo e não substituem avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissionais habilitados.

Enquanto o estereótipo do TDAH nas meninas ainda é o do menino agitado, milhares de garotas atravessam a infância desatentas, ansiosas e desorganizadas — sem nunca receber um diagnóstico. O resultado é um atraso que cobra caro na autoestima e no aprendizado, mas que tem explicação e caminho de solução.

Mais do que repetir que “o TDAH é subdiagnosticado nas meninas”, vale entender por que isso acontece, quais sinais passam despercebidos e como as famílias podem buscar uma avaliação segura — longe do autodiagnóstico das redes sociais.

Por que o TDAH nas meninas passa despercebido

O primeiro motivo é o próprio estereótipo. Os critérios clássicos de TDAH foram construídos sobretudo a partir do comportamento de meninos — mais hiperativos e desafiadores. Segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), as meninas costumam ser menos rebeldes e menos opositoras, o que as faz escapar da identificação: em vez de “agitadas”, aparecem como sonhadoras, tímidas, esquecidas e desorganizadas. Pesquisas mais recentes apontam, em alguns estudos, que o transtorno atinge homens e mulheres de forma parecida (proporção próxima de 1:1), bem diferente da antiga estimativa de 4 meninos para cada menina — um número que refletia mais a falha do diagnóstico do que a realidade.

A neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, especialista em desenvolvimento infantil, resume o mecanismo que torna esse quadro invisível: “As meninas aprendem a se adaptar socialmente, o que dificulta a identificação precoce dos sintomas.” É o chamado masking — a criança camufla as próprias dificuldades para se encaixar, e o esforço extra que isso exige acaba não sendo percebido por quem está à volta.

O custo do diagnóstico tardio

Quando os sinais são minimizados, a conta chega depois. “Quando sintomas leves aparecem, muitas vezes são enquadrados como frescura ou traço de personalidade, e não como indício de TEA ou TDAH”, alerta Silvia Kelly Bosi. Sem compreensão do que está acontecendo, muitas meninas passam anos ouvindo que são “preguiçosas” ou “desinteressadas”, o que alimenta um ciclo de críticas, baixa autoestima e ansiedade.

A especialista reforça a urgência de agir cedo: “Cada ano sem diagnóstico é um ano sem compreensão, autorregulação e possibilidades de acolhimento desde cedo.” O diagnóstico tardio também abre espaço para comorbidades como depressão, ansiedade e transtornos alimentares — que podem coexistir, mas não são consequência obrigatória do TDAH. Ainda assim, identificar o transtorno não é rótulo, e sim porta de entrada para o cuidado. Vale entender também o que está por trás do aumento nos diagnósticos de TDAH: aqui o recorte é específico — o gênero —, mas o pano de fundo é o mesmo movimento de maior reconhecimento da condição.

Sinais de TDAH nas meninas que costumam ser ignorados

Como a apresentação predominante nas meninas costuma ser a desatenta, os sinais são mais silenciosos. Fique atento a um conjunto de comportamentos persistentes (não a um episódio isolado):

  • Desatenção e “viagens”: parece distraída, sonhadora, perde o fio da explicação com frequência.
  • Desorganização: esquece materiais, tarefas e prazos, mesmo se esforçando.
  • Sobrecarga emocional: ansiedade, choro fácil e frustração diante de demandas escolares.
  • Esforço invisível: boas notas às custas de um cansaço desproporcional — o masking em ação.
  • Desempenho escolar irregular: resultados oscilantes apesar de boa capacidade intelectual, um sinal muito frequente.

O perigo do autodiagnóstico nas redes sociais

A popularização do tema trouxe um efeito colateral: o autodiagnóstico. Vídeos curtos e testes de internet ajudam a reduzir o preconceito, mas não substituem uma avaliação clínica. A psiquiatra Fabricia Signorelli, do Ambulatório de TDAH do Adulto da Unifesp e mestre em transtornos do neurodesenvolvimento, faz a distinção: “O aumento da informação é extremamente positivo (…). O problema começa quando vídeos curtos, relatos individuais ou testes disponíveis na internet passam a substituir uma avaliação clínica criteriosa.”

Ela reforça o que caracteriza um diagnóstico confiável: “O diagnóstico de TDAH não nasce nas redes sociais. Ele é resultado de uma avaliação médica cuidadosa, baseada em critérios científicos.” Isso importa ainda mais no caso das meninas, porque sintomas de TDAH se confundem facilmente com ansiedade, estresse ou cansaço — e só uma avaliação que considere a história de vida consegue diferenciar o que é o quê. Para não confundir condições, veja também as diferenças entre TDAH e autismo.

Como buscar uma avaliação segura

Se você desconfia que sua filha (ou você mesma) possa ter TDAH, o caminho responsável é:

  • Registre os sinais por escrito: anote comportamentos, frequência e há quanto tempo aparecem — em casa e na escola.
  • Procure um profissional habilitado: psiquiatra, neurologista ou neuropediatra, que fará avaliação clínica considerando a história de vida.
  • Leve informações da escola: o olhar de professores sobre atenção e organização ajuda no diagnóstico.
  • Desconfie de “testes rápidos”: nenhum vídeo ou quiz substitui a avaliação profissional.

Perguntas frequentes

Por que o TDAH nas meninas é diagnosticado mais tarde?
Porque os critérios clássicos priorizam a hiperatividade, mais comum nos meninos. Nas meninas predomina a desatenção, um sinal mais silencioso e facilmente confundido com timidez, distração ou falta de interesse.

Quais são os sinais de TDAH nas meninas?
Desatenção persistente, desorganização, esquecimentos frequentes, ansiedade e um esforço desproporcional para acompanhar a escola (o chamado masking). O padrão importa mais do que um episódio isolado.

Meninas também podem ser hiperativas?
Sim. Embora muitas apresentem predominância da desatenção, a hiperatividade também pode ocorrer nas meninas — às vezes de forma diferente, como falar em excesso ou inquietação interna.

Posso confiar em um teste de TDAH da internet?
Não como diagnóstico. Testes online e vídeos podem servir de alerta, mas o diagnóstico de TDAH exige avaliação clínica criteriosa, feita por profissional habilitado e baseada na história de vida.

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