Uma forma pouco conhecida de diabetes pode ser confundida com o diabetes tipo 1, especialmente em pessoas jovens, muito magras e com histórico de desnutrição. A chamada diabetes tipo 5 está relacionada à deficiência de insulina provocada por alterações no desenvolvimento do pâncreas após períodos prolongados de desnutrição, principalmente durante a gestação ou a infância.
A diferença é importante porque esses pacientes podem ter uma resposta mais forte à insulina. Quando recebem doses muito altas, semelhantes às utilizadas no tratamento do tipo 1, existe risco de hipoglicemia grave.
Um caso relatado pela endocrinologista Meredith Hawkins ocorreu em Uganda, por volta de 2010. Um jovem com menos de 30 anos, baixo índice de massa corporal (IMC) e histórico de desnutrição recebeu uma dose de insulina calculada para diabetes tipo 1 e morreu quatro meses depois em decorrência de uma hipoglicemia grave.
A condição foi formalmente reconhecida pela Federação Internacional de Diabetes (IDF) em 2025, que criou um grupo de trabalho para desenvolver critérios de diagnóstico e orientações de tratamento. Estimativas apresentadas pela entidade apontam que entre 20 milhões e 25 milhões de pessoas podem ter diabetes tipo 5 no mundo.
O que é diabetes tipo 5?
O diabetes tipo 5 é uma forma de diabetes relacionada à desnutrição prolongada, especialmente quando ocorre durante o desenvolvimento do organismo.
Diferentemente do tipo 1, em que o sistema imunológico destrói as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina, e do tipo 2, que geralmente envolve resistência à insulina, o tipo 5 é marcado principalmente por uma produção insuficiente de insulina, associada ao desenvolvimento inadequado do pâncreas.
A condição já havia sido descrita décadas atrás. Na década de 1950, médicos identificaram casos principalmente em pessoas jovens e magras na Jamaica. Em 1985, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a classificá-la como diabetes relacionada à desnutrição, mas retirou essa categoria em 1999 por falta de evidências suficientes.
Com novos estudos, o tema voltou a ser discutido e ganhou uma classificação própria pela IDF em 2025. Ainda assim, os critérios diagnósticos e as formas ideais de tratamento continuam sendo aprimorados.
Como identificar o diabetes tipo 5?
O perfil mais característico para diabetes tipo 5 inclui idade jovem, baixo IMC e histórico de desnutrição.
O critério internacional proposto utiliza IMC abaixo de 18,5 kg/m², especialmente em pessoas com menos de 30 anos. Para o rastreamento no Brasil, especialistas estudam um limite mais amplo, de aproximadamente 22 kg/m², para não deixar possíveis casos de fora.
Outro ponto importante é a forma como o organismo responde à insulina. Pessoas com diabetes tipo 5 tendem a manter a sensibilidade ao hormônio, apesar de produzirem pouca insulina.
Isso ajuda a diferenciar a doença do diabetes tipo 2, que costuma estar associado à resistência à insulina.
Qual a diferença entre diabetes tipo 5 e tipo 1?
O diabetes tipo 1 também pode aparecer em pessoas jovens e magras, o que explica parte da dificuldade de diferenciação.
No tipo 1, porém, existe uma característica importante: autoanticorpos contra as células produtoras de insulina podem ser identificados nos exames. No diabetes tipo 5, esses anticorpos geralmente não estão presentes.
Outro ponto observado pelos especialistas é que pessoas com tipo 1 podem desenvolver cetoacidose diabética quando ficam sem insulina. Nos casos descritos de diabetes tipo 5, a doença geralmente não apresenta esse mesmo padrão de cetoacidose, mesmo com níveis elevados de glicose.
| Característica | Diabetes tipo 1 | Diabetes tipo 2 | Diabetes tipo 5 |
|---|---|---|---|
| IMC | Geralmente normal | Frequentemente associado a sobrepeso ou obesidade | Geralmente baixo |
| Idade de início | Frequentemente antes dos 18 anos | Tradicionalmente após os 30 anos | Geralmente antes dos 30 anos |
| Histórico de desnutrição | Ausente | Pode estar associado | Presente |
| Cetoacidose | Pode ocorrer | Geralmente ausente | Geralmente ausente |
| Insulina | Deficiência por destruição autoimune | Resistência à insulina e deficiência relativa | Produção reduzida, com sensibilidade à insulina preservada |
A tabela apresenta características gerais utilizadas para diferenciar os tipos. O diagnóstico não deve ser feito apenas com base no IMC, na idade ou em um único exame.
Por que o diagnóstico correto é importante?
A principal preocupação é evitar que uma pessoa com diabetes tipo 5 receba mais insulina do que necessita.
Como esses pacientes podem manter a sensibilidade ao hormônio, uma dose elevada pode fazer a glicose cair demais, provocando hipoglicemia.
Os sintomas de hipoglicemia podem incluir tremores, suor frio, tontura, fome, fraqueza, confusão e, nos casos graves, perda de consciência e convulsões.
Por isso, uma pessoa jovem, muito magra, com histórico de desnutrição e glicose elevada precisa ser avaliada de maneira cuidadosa antes que o tratamento seja definido.
Já existe tratamento para diabetes tipo 5?
Ainda não existe um protocolo de tratamento específico e definitivo para o diabetes tipo 5.
Pesquisadores estudam diferentes possibilidades, incluindo medicamentos orais que aumentam a ação do GLP-1 produzido pelo próprio organismo. Entre eles estão os inibidores da DPP-4, conhecidos como gliptinas.
Esses medicamentos impedem a quebra rápida do GLP-1, permitindo que o hormônio permaneça ativo por mais tempo e estimule o pâncreas a liberar insulina.
Uma possível vantagem é que os inibidores da DPP-4 geralmente não promovem perda de peso, característica considerada importante para pacientes que já apresentam baixo peso.
Entretanto, essa estratégia ainda é uma hipótese em investigação. Não há evidências clínicas suficientes para afirmar que as gliptinas sejam o tratamento padrão para diabetes tipo 5.
Brasil prepara rastreamento para a doença
Pesquisadores brasileiros ligados à Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), à Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e à Fiocruz trabalham em uma proposta para identificar possíveis casos de diabetes tipo 5 no país.
A preocupação é encontrar pessoas que possam estar recebendo diagnóstico de diabetes tipo 1 ou outro tipo da doença sem que seu quadro seja corretamente identificado.
O tema também é relevante para regiões onde a desnutrição ainda representa um problema de saúde. Mesmo com avanços na redução da fome no Brasil, especialistas destacam que a desnutrição continua presente em diferentes áreas do país.
A iniciativa faz parte do esforço internacional coordenado pela IDF para compreender melhor a doença e desenvolver critérios diagnósticos e orientações específicas.
Diabetes tipo 5 é uma doença reconhecida?
Sim, a IDF reconheceu formalmente o diabetes tipo 5 em 2025 e criou um grupo de trabalho específico para desenvolver critérios diagnósticos e diretrizes de tratamento.
Isso não significa, porém, que todo o conhecimento sobre a doença já esteja consolidado.
Os próprios especialistas envolvidos ressaltam que ainda há necessidade de mais pesquisas para definir com precisão quantas pessoas têm a condição, quais exames devem ser usados para confirmar o diagnóstico e quais tratamentos oferecem os melhores resultados.
A identificação do diabetes tipo 5 pode ser especialmente importante para evitar tratamentos inadequados e reduzir o risco de complicações relacionadas à hipoglicemia.
Médicos que encontrarem pacientes com características compatíveis com a doença podem comunicar casos suspeitos à Sociedade Brasileira de Diabetes, pelo e-mail saudepublica@diabetes.org.br.
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