O exercício para memória pode ser uma estratégia útil para preservar parte do desempenho cognitivo depois de uma noite de sono insuficiente, segundo um estudo realizado por pesquisadores da Universidade McGill, no Canadá.
A pesquisa comparou os efeitos de uma sessão de 20 minutos de exercício, de um cochilo de 90 minutos e de nenhum dos dois recursos após um período de 30 horas sem dormir. Os participantes que se exercitaram ou cochilaram apresentaram desempenho melhor em um teste de memória do que aqueles que permaneceram sem descanso ou atividade física.
Os resultados, porém, não significam que o exercício para memória substitua o sono. Os próprios pesquisadores ressaltam que uma noite adequada de descanso continua sendo essencial para a saúde e para o funcionamento do cérebro.
Exercício para memória teve efeito semelhante ao cochilo
O estudo acompanhou 54 adultos jovens que permaneceram acordados durante 30 horas em um ambiente controlado.
Depois desse período, os participantes foram divididos em três grupos. O primeiro fez 20 minutos de ciclismo em intensidade moderada a alta. O segundo dormiu por 90 minutos. O terceiro permaneceu sentado em uma bicicleta ergométrica, sem realizar o exercício.
Antes disso, todos observaram uma sequência de imagens sem saber que seriam avaliados posteriormente.
Três dias depois, eles participaram de um teste para verificar quantas imagens ainda conseguiam reconhecer.
Os resultados mostraram que o grupo que cochilou apresentou um reconhecimento aproximadamente 23% maior, enquanto o grupo que fez exercício teve um desempenho cerca de 21% maior do que o grupo que não fez nenhuma das duas atividades.
A diferença entre os efeitos do cochilo e do exercício não foi considerada significativa pelos pesquisadores.
Como o exercício pode ajudar a memória?
Uma das descobertas mais interessantes foi que o exercício para memória parece ter produzido esse efeito sem diminuir o cansaço dos participantes.
Os pesquisadores analisaram a atividade cerebral por meio de eletroencefalografia e observaram diferenças entre os grupos.
Entre quem dormiu, houve redução de sinais relacionados à fadiga, indicando uma recuperação parcial do sono perdido.
Já entre os participantes que fizeram exercício, esses sinais permaneceram elevados e foram semelhantes aos observados no grupo que não pedalou.
Mesmo assim, o desempenho no teste de memória melhorou.
Isso levou os pesquisadores a considerar que o benefício do exercício para memória pode estar relacionado à maneira como o cérebro processa e registra as informações, e não simplesmente à sensação de estar menos cansado.
Uma sessão curta de exercício pode preservar o desempenho mental?
Os resultados sugerem que pode haver algum benefício em situações específicas nas quais a pessoa não consegue dormir imediatamente.
Para Marc Roig, um dos autores da pesquisa, a privação de sono afeta diversas funções cognitivas, mas nem sempre é possível recuperar o descanso perdido rapidamente.
Nesse contexto, o exercício para memória pode funcionar como uma alternativa temporária para ajudar a manter parte do desempenho cognitivo.
A primeira autora do estudo, Madhura Lotlikar, também destaca que a atividade física é relativamente acessível e pode ser incorporada com facilidade em diferentes situações.
Ainda assim, essa conclusão precisa ser interpretada dentro das condições do experimento.
O estudo avaliou uma privação extrema de sono
Um ponto importante é que os participantes permaneceram 30 horas sem dormir. Essa situação é muito mais intensa do que simplesmente dormir menos do que o habitual em uma determinada noite.
Por isso, não é possível afirmar que exatamente o mesmo efeito aconteceria depois de uma noite em que a pessoa dormiu, por exemplo, duas ou três horas a menos.
Além disso, a pesquisa foi realizada com adultos jovens e em condições controladas de laboratório.
Novos estudos serão necessários para verificar se os mesmos resultados aparecem em pessoas de diferentes idades e em situações mais próximas da rotina.
Exercício para memória substitui o sono?
Não. Embora o exercício para memória tenha apresentado um resultado semelhante ao cochilo nesse experimento, isso não significa que a atividade física possa substituir o descanso adequado.
O sono participa de diversos processos importantes para o cérebro, incluindo atenção, aprendizagem, memória e recuperação do organismo.
Uma sessão de atividade física pode ajudar em determinadas circunstâncias, mas não elimina os efeitos da falta de sono quando o problema se torna frequente.
O que fazer depois de dormir mal?
Quando uma noite de sono foi insuficiente, manter uma rotina de atividade física pode ser uma opção, desde que o exercício seja compatível com as condições de saúde e com o nível de disposição da pessoa.
Também é importante evitar transformar esse recurso em uma forma de compensar continuamente noites mal dormidas.
Se a falta de sono acontece com frequência, o mais importante é investigar o motivo e buscar formas de melhorar a qualidade e a duração do descanso.
O estudo canadense mostra que 20 minutos de exercício para memória podem ajudar a preservar o desempenho em uma situação de privação intensa de sono. A descoberta é interessante, mas ainda não muda a principal recomendação: dormir adequadamente continua sendo uma das medidas mais importantes para manter o cérebro funcionando bem.
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