Homens que usaram tadalafila para tratar sintomas do trato urinário inferior apresentaram 22% mais risco de desenvolver glaucoma do que aqueles que não utilizavam medicamentos da mesma classe, segundo um estudo de coorte multinacional publicado no British Journal of Ophthalmology.
A pesquisa acompanhou quase 74 mil homens e também encontrou uma associação entre o uso da tadalafila e maior risco de hipertensão ocular e de glaucoma primário de ângulo aberto, além de uma maior probabilidade de início de tratamento para glaucoma.
Os pesquisadores, porém, ressaltam uma limitação importante: por se tratar de um estudo observacional, os resultados indicam uma associação e não comprovam que a tadalafila cause glaucoma.
Estudo acompanhou mais de 73 mil homens
A pesquisa utilizou registros eletrônicos de saúde da rede TriNetX, que reúne dados desidentificados de instituições de saúde de diferentes países.
Foram analisados homens com 40 anos ou mais que apresentavam sintomas do trato urinário inferior e não tinham diagnóstico anterior de glaucoma.
Depois do pareamento entre os participantes para tornar os grupos mais semelhantes em relação a idade, doenças, hábitos e uso de outros medicamentos, a análise final reuniu:
- 36.927 homens que usavam tadalafila;
- 36.927 homens que não utilizavam medicamentos inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (iPDE5).
Os participantes foram acompanhados por até cinco anos.
Risco de glaucoma foi maior entre usuários de tadalafila
Durante o período analisado, o risco de glaucoma foi 22% maior entre os homens que usavam tadalafila.
Em cinco anos, a incidência acumulada da doença foi de 3,93% entre os usuários de tadalafila, contra 3,16% entre os homens que não utilizavam iPDE5.
A diferença também apareceu em alguns tipos específicos de alterações oculares.
O risco de hipertensão ocular foi 32% maior entre os usuários de tadalafila. Para o glaucoma primário de ângulo aberto, o risco foi 33% maior.
Os pesquisadores ainda identificaram uma probabilidade 33% maior de início de tratamento para glaucoma nesse grupo.
Por outro lado, não foi encontrada diferença estatisticamente significativa para glaucoma de tensão normal nem para glaucoma primário de ângulo fechado.
Associação foi mais evidente a partir dos 50 anos
A análise também considerou diferentes grupos de idade.
Entre os homens com menos de 50 anos, o estudo não encontrou uma associação estatisticamente significativa entre o uso de tadalafila e o glaucoma.
Já entre aqueles com 50 anos ou mais, o risco foi 29% maior.
Os pesquisadores também encontraram uma associação significativa entre o uso do medicamento e o glaucoma entre participantes brancos. Diferenças semelhantes foram observadas em algumas análises que levaram em conta doenças como colesterol elevado, obesidade e doença renal crônica.
Por que a tadalafila foi estudada?
A tadalafila pertence ao grupo dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5, medicamentos utilizados principalmente para disfunção erétil, mas que também podem ser prescritos para sintomas do trato urinário inferior.
Esses sintomas podem incluir dificuldade para iniciar a micção, jato urinário fraco, aumento da frequência urinária e necessidade de levantar várias vezes durante a noite.
O estudo analisou especificamente homens com esse tipo de sintoma para verificar se havia diferença na ocorrência de glaucoma entre usuários e não usuários de iPDE5.
Resultado não prova que o medicamento provoque glaucoma
Apesar dos números encontrados, os resultados precisam ser interpretados com cautela.
O estudo foi baseado na análise de registros médicos já existentes, e não em um ensaio clínico no qual os pesquisadores controlam diretamente quem recebe ou não o medicamento.
Isso significa que outros fatores não avaliados podem ter contribuído para a diferença observada entre os grupos.
Os próprios pesquisadores destacaram ainda a possibilidade de viés de detecção. Pessoas que utilizam determinados medicamentos podem procurar mais os serviços de saúde ou realizar mais exames oftalmológicos, aumentando a chance de um diagnóstico ser identificado.
Também não foi possível confirmar, a partir do banco de dados, informações oftalmológicas importantes, como pressão intraocular, espessura das fibras nervosas da retina e resultados de exames de campo visual.
Outro limite foi a impossibilidade de verificar se os pacientes realmente tomavam a tadalafila conforme prescrita ou a quantidade acumulada utilizada ao longo do tempo.
Acompanhamento oftalmológico pode ser considerado em alguns casos
Diante dos resultados, os autores afirmam que a avaliação e o acompanhamento oftalmológicos podem ser considerados, especialmente para pacientes que já apresentam fatores de risco para glaucoma.
Isso não significa que homens que utilizam tadalafila devam interromper o medicamento por conta própria.
A decisão sobre iniciar, manter ou modificar um tratamento deve ser feita com o profissional de saúde responsável, considerando os benefícios do medicamento e os fatores de risco individuais.
A pesquisa amplia o conhecimento sobre uma possível relação entre o uso de tadalafila e alterações relacionadas ao glaucoma, mas novos estudos serão necessários para esclarecer se existe uma relação causal e quais mecanismos poderiam estar envolvidos.
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