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Frio pode aumentar risco de problemas no coração, aponta estudo com cidades brasileiras

Frio pode aumentar risco de problemas no coração, aponta estudo com cidades brasileiras
Frio pode aumentar risco de problemas no coração, aponta estudo com cidades brasileiras. Imagem: Pavel Danilyuk/Pexels
🩺 Conteúdo informativo
Esta reportagem tem finalidade jornalística e não substitui orientação médica.

As temperaturas mais baixas podem estar associadas a um aumento nas hospitalizações por problemas no coração no Brasil. Um estudo que analisou quase 3 milhões de internações em mais de 100 cidades indicou que o risco começa a aumentar quando a temperatura fica abaixo de 19 °C.

A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e cruzou registros de hospitalizações com dados de temperatura ao longo de 14 anos e meio, entre janeiro de 2010 e junho de 2024.

Os resultados chamam atenção por mostrar que o comportamento observado em países de clima frio também pode ocorrer em uma população acostumada a temperaturas mais altas. Mesmo assim, os autores destacam que o estudo mostra uma associação entre temperatura e internações, e não permite afirmar que o frio, sozinho, seja a causa dos problemas no coração.

A partir de qual temperatura o risco de problemas no coração aumenta?

Segundo o estudo, temperaturas entre 19 °C e 24 °C tiveram efeito considerado neutro sobre as hospitalizações cardiovasculares. A partir de 18 °C, porém, o risco de problemas no coração começou a subir gradualmente conforme a temperatura caiu.

Os pesquisadores encontraram os seguintes resultados:

  • a 18 °C, o risco relativo de hospitalização foi de 1,01;
  • a 14 °C, chegou a 1,03;
  • a 9 °C, alcançou 1,05.

De forma simples, os números indicam um aumento progressivo do risco à medida que a temperatura diminui.

Já acima de 25 °C, os dados seguiram na direção oposta. A 30 °C, o risco relativo estimado foi de 0,97, embora o intervalo de confiança inclua a possibilidade de ausência de diferença.

O frio afeta cidades quentes da mesma forma?

Essa era uma das principais perguntas dos pesquisadores.

O estudo comparou cidades de clima tropical e temperado dentro do próprio Brasil para verificar se pessoas acostumadas ao calor responderiam de forma diferente à queda de temperatura.

A resposta foi que não houve diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos.

Na prática, o limite de 19 °C identificado pelos pesquisadores apareceu tanto em regiões mais quentes quanto em locais de clima mais frio.

Isso significa que uma queda de temperatura pode estar relacionada a um aumento das hospitalizações por problemas no coração mesmo em cidades onde os moradores estão acostumados a temperaturas elevadas.

Quais doenças foram analisadas?

Os pesquisadores cruzaram os dados de hospitalizações por diferentes problemas cardiovasculares registrados no DATASUS com as temperaturas médias diárias divulgadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET).

Entre as condições analisadas estavam:

  • Infarto agudo do miocárdio;
  • Insuficiência cardíaca;
  • Arritmias;
  • AcidenteVascular Cerebral (AVC).

Ao todo, os dados utilizados representaram cerca de 20 milhões de hospitalizações por problemas no coração no período analisado, segundo as informações apresentadas pelos autores.

Mesmo quando o aumento do risco é pequeno em termos proporcionais, ele pode representar um número relevante de casos quando aplicado a uma quantidade tão grande de internações.

Por que o frio pode sobrecarregar o coração?

Em temperaturas baixas, o organismo reage para conservar calor. Entre essas respostas está a vasoconstrição, ou seja, a contração dos vasos sanguíneos.

Isso pode aumentar a pressão arterial e fazer com que o coração trabalhe mais.

Outros estudos também apontam que o frio pode estar relacionado a mudanças na atividade das plaquetas e em outros mecanismos que influenciam a circulação.

Esses fatores podem ajudar a explicar por que períodos de frio aparecem relacionados a maior frequência de eventos cardiovasculares.

Pesquisadores confirmam o que já observavam nos hospitais

A cardiologista Bruna Dóris, primeira autora da pesquisa, conta que a relação chamou atenção justamente por algo que já era percebido na prática.

“Nós já percebíamos que nos hospitais havia muito mais internações no frio, então essa era justamente a nossa dúvida, se isso era só um viés de observação ou se realmente confirmaríamos essa associação em uma pesquisa”

O estudo encontrou uma associação entre temperaturas mais baixas e um maior número de hospitalizações por problemas no coração, mas a própria pesquisadora faz uma ressalva importante:

“por ser um estudo ecológico e observacional, não é possível afirmar que a baixa temperatura foi a causa do aumento da taxa de internação”.

A equipe pretende ampliar a análise e separar os dados por região do país, tipo de doença cardiovascular e faixa etária.

Frio não é o único fator envolvido para problemas no coração

A temperatura é apenas uma parte da explicação para o aumento de problemas no coração em determinadas épocas do ano.

Poluição do ar, condições socioeconômicas, idade da população e aumento das infecções respiratórias durante o inverno também podem influenciar os resultados.

A cardiologista Glaucia Maria Moraes de Oliveira, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e editora-chefe do periódico ABC Cardiol, destaca que esses fatores são difíceis de separar em estudos que analisam populações inteiras.

“É como se estivéssemos vendo um pedaço de um iceberg”

A especialista também chama atenção para o fato de a pesquisa ter trabalhado com temperaturas médias, que podem não representar exatamente as condições enfrentadas por cada pessoa ao longo do dia.

O efeito do frio aparece imediatamente?

Não necessariamente.

Segundo informações discutidas na análise, estudos anteriores sugerem que os efeitos da exposição ao frio podem estar relacionados a eventos cardiovasculares que aparecem entre 7 e 21 dias depois.

Na pesquisa brasileira, os autores consideraram um período de exposição de sete dias. Nesse modelo, porém, esse intervalo não alterou de forma significativa as taxas de hospitalização por problemas no coração.

A cardiologista Glaucia também ressalta que os extremos de temperatura podem ser mais importantes do que pequenas mudanças nas médias.

Além disso, o organismo de cada população pode responder de maneira diferente conforme a faixa de temperatura à qual está acostumado.

Como se proteger durante períodos de frio?

Para pessoas com doenças cardiovasculares, o cuidado com a saúde durante períodos de frio começa pelo acompanhamento adequado da própria condição.

A cardiologista destaca a importância de manter a vacinação em dia, especialmente contra infecções respiratórias que podem aumentar o risco de complicações cardiovasculares.

“Precisamos de imunização adequada contra vírus respiratório sincicial e influenza, que são vacinas que preconizamos na SBC porque evitam infecção respiratória, que deflagra infarto ou AVC”

A especialista também reforça que o tratamento da doença cardiovascular precisa estar em dia.

“Se o paciente estiver fazendo tratamento farmacológico adequado, seguindo as diretrizes que preconizamos na SBC e no mundo todo, teremos menos repercussão dessas temperaturas no [organismo do] indivíduo”

Além disso, políticas públicas voltadas a pessoas em situação de rua e a populações que vivem em locais sem condições adequadas de aquecimento podem ajudar a reduzir os impactos do frio sobre a saúde e problemas no coração.

O frio aumenta o risco de infarto e AVC?

O estudo brasileiro encontrou uma associação entre temperaturas mais baixas e maior frequência de hospitalizações por problemas no coração, incluindo infarto e AVC.

Isso não significa que toda pessoa exposta ao frio desenvolverá um problema no coração ou no cérebro.

Os próprios pesquisadores lembram que o estudo não consegue separar completamente o efeito da temperatura de outros fatores que também podem aumentar o risco de internação.

Ainda assim, os resultados mostram que o frio merece atenção, inclusive no Brasil, e reforçam a importância de manter doenças cardiovasculares controladas, principalmente durante períodos de temperaturas mais baixas.

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Sobre o autor
Gabriele de Paula é redatora, revisora editorial e publicadora no WordPress do SERTEP Notícias, responsável pela revisão, padronização editorial e publicação dos conteúdos, garantindo qualidade, clareza e conformidade com os padrões do portal.

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